segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A morte dos assassinos do menino boliviano é mais uma prova do poder do PCC

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Por: José Nabuco

O latrocínio (roubo e morte) cometido contra o garoto boliviano, Brayan Yanarico Capcha, teve tamanha gravidade que foi repudiado até mesmo por criminosos. Ao que parece, por ordem do PCC, quatro dos cinco criminosos foram mortos.

É bastante conhecido que, na subcultura do crime, há certos delitos que não são aceitos nem mesmo por criminosos violentos. Recentemente, conversando com um preso condenado por latrocínio, indaguei-lhe sobre o tratamento dispensado aos suspeitos de crime sexual contra crianças. Fiz a pergunta, já imaginando a resposta, porque estava impressionado com a notícia da prisão de um homem acusado falsamente, pela ex-mulher, de ter estuprado sua filha. Quando ouviu a pergunta, o preso respondeu com voz rígida: “É facão, doutor! Facão! A gente mata sem dó!”

O intrigante nessa fala é que aquele preso é um sujeito violento, que matou uma pessoa no momento do roubo. No entanto, era como se ele também tivesse um resquício de humanidade, que não aceitava crimes sexuais, especialmente contra crianças. Diz-se que crimes sexuais são repudiados porque o preso enxerga na vítima a figura da sua mãe, irmã ou filha. Uma outra interpretação é que seria uma forma de, apontando o dedo para a crueldade alheia, psicologicamente, eximir-se de sua própria brutalidade.

Difícil saber o porquê, mas o fato é que crimes sexuais e crimes violentos contra criança não são tolerados nem mesmo pelos criminosos. Também é certo, que ao rejeitar tais crimes, o que se faz é reproduzir ainda mais a violência.

Quando tomo conhecimento dessa notícia da morte dos assassinos do garotinho boliviano, tenho uma sensação paradoxal. De um lado, há certo alívio, porque vejo que a monstruosidade daquele crime foi algo excepcional. Em outras palavras, até mesmo pessoas habituadas à crueldade do crime repudiaram aquela barbaridade.

Mas essa sensação se esvai rapidamente, substituída por uma perplexidade, quando noto que a reação também foi uma crueldade indefensável. Os mortos que estavam presos foram assassinados com um coquetel venenoso. Mais ainda, é assustador o poder que teria uma facção criminosa como o PCC. Essa facção não só domina os presídios, como também pretende impor regras de condutas na atividade criminosa.

Se isso servisse apenas para coibir latrocínio contra crianças, talvez parecesse louvável esse poder. Contudo, há fortes evidências de que os tentáculos do poder do PCC estão espalhados e eles não se estão aí limitar espécies de latrocínio. Ao contrário, há muitos presos dependentes da facção. Uma das causas do aumento desse poder está no excesso de presídios em longínquas cidades do interior. Muitas pessoas, pretendendo visitar seus parentes nos presídios do interior e sem dinheiro para arcar com as despesas da viagem, se valem dos ônibus disponibilizados pelo PCC.

Em uma facção mafiosa como essa, favor é sinônimo de dívida e uma das formas de se pagar uma dívida é com ação criminosa. Daí a informação de que muitas mortes de policiais terem sido cometidas por pessoas que deviam ao PCC e pagaram sua dívida com um assassinato.

A morte dos latrocidas do menino Brayan Yanarico Capcha revela de um lado que a brutalidade daquele crime não é aceita nem pelos criminosos condenados — mas a forma concatenada dessas mortes parece indicar, mais uma vez, o temível poder do PCC.


Sobre o Autor

José Nabuco Filho é mestre em Direito Penal pela Unimep, professor de Direito Penal da Universidade São Judas Tadeu e quarto-zagueiro clássico. Seu email: j.nabucofilho@gmail.com

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