terça-feira, 21 de maio de 2013

Saiba o que é a Aliança do Pacífico: contra o Mercosul?

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“A Aliança do Pacífico é um obstáculo importante à ampliação do Mercosul e à consolidação da Unasul. Parece inserir-se numa iniciativa mais ampla dos Estados Unidos para “frear” a expansão econômica e a influência política da China naquele que será o eixo geopolítico mais importante do mundo neste século, o Oceano Pacífico.”


A frase acima é um resumo do que pensa o professor Wagner Iglecias. A Aliança do Pacífico é um acordo comercial ao qual já aderiram Chile, Colômbia, Peru e México. Washington tenta integrar esses países a uma aliança ainda mais ampla, envolvendo Austrália e países asiáticos – mas excluindo a China. A próxima reunião do grupo acontece esta semana na Colômbia.

Trata-se, também,  de uma estratégia para isolar os governos mais autônomos surgidos na América do Sul – e que já criaram UNASUL, MERCOSUL, ALBA e CELAC. Confira a entrevista exclusiva com Iglecias – que  é doutor em Sociologia e professor do PROLAM (Programa de Integração da América Latina, da Universidade de SãoPaulo), além de professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP.  

1) Depois do fracasso da ALCA, os Estados Unidos parecem ter retomado a ofensiva na América Latina: fecharam tratados bilaterais de livre comércio, e agora avançam na Aliança do Pacifico. O que significa essa Aliança?

- Os Estados Unidos sempre tiveram uma presença econômica muito importante na América Latina, desde o século XIX. A prioridade de sua política externa, desde o 11 de Setembro de 2001, passou a ser o Oriente Médio, o que coincidiu com um período em que – superadas as ditaduras e consolidada a democracia – a esquerda latino-americana se reorganizou. Passamos a ter a alternância de poder, com diversas vitórias eleitorais de partidos progressistas, bem como a intensificação de laços econômicos entre nossos países num nível que provavelmente jamais ocorrera antes.

A Aliança do Pacífico parece inserir-se numa iniciativa mais ampla, dos EUA, para “frear” a expansão econômica e a influência política e militar da China naquele que será o eixo geopolítico mais importante do mundo neste século, o Oceano Pacífico. Aderiram a ela os países latino-americanos mais diretamente conectados a Washington, como México, Colômbia, Chile e Peru. Não por acaso são nações onde o papel do Estado é mais próximo daquele preconizado pelos cânones neoliberais, na comparação com o modelo adotado pelos países pertencentes ao Mercosul.


2) O deslocamento do eixo econômico mundial do Atlântico para o Pacifico é irreversível?
- Na medida em que a Europa parece ter entrado numa crise econômica de longa duração, e levando-se em conta que os Estados Unidos ainda são e deverão ser por anos a maior economia do mundo e que a China se consolida como sua grande rival, creio que o Pacífico passará a desempenhar, a partir deste século, o papel geoconômico que o Atlântico Norte desempenhou a partir do século XVI.

3) De que maneira essa Aliança centrada no Pacífico pode afetar os outros países da América do Sul, mais ligados ao mundo do Atlântico?
-  A Aliança do Pacífico parece-me um obstáculo importante à ampliação do Mercosul e à consolidação da Unasul. Neste sentido é um projeto que deverá trazer dificuldades à criação de um espaço econômico sul-americano autônomo neste mundo cada vez mais dividido em grandes blocos regionais.

4) Bolivia e Equador já deram sinais de que pretendem se tornar membros plenos do MERCOSUL – do qual ja fazem parte Argentina, Brasil, Uruguai, Venezuela (além do Paraguai, suspenso por conta do golpe contra Lugo). De todos esses países,o Equador é o único com saída para o Pacifico. Qual a importância estrategica disso para o Mercosul?

- O Equador é um país interessante: com sua “Revolución Ciudadana” vai – de maneira discreta -  se transformando e ganhando um pouco mais de autonomia econômica e combatendo a pobreza secular que marca aquela nação. Sua posição geopolítica, com litoral voltado ao Extremo Oriente, deverá ser estratégica para os países do Mercosul. O Brasil, num certo sentido, paga caro o preço de não ser voltado para o Pacífico, e ao que parece a busca por uma saída para aquele Oceano é algo importante para os interesses brasileiros, conforme se viu com as parcerias com Peru e Bolívia para a criação de infra-estrutura física destinada a escoar nossos produtos para a Ásia, especialmente as commodities produzidas na região centro-oeste. Por outro lado, o Brasil é banhado pelo Atlântico Sul, e isto será fundamental dentro de algumas décadas, pois a última fronteira do capitalismo deverá ser a África e nós estamos completamente voltados em termos geográficos a ela.

5) O Brasil precisa se preparar para esse “giro” em direção ao Pacífico? De que forma?
- O Brasil e o Mercosul podem se contrapor a esta ofensiva dos EUA por meio do estreitamento de laços econômicos e diplomáticos entre os países da região e pela expansão de projetos como o próprio Mercosul e a Unasul. Mas os EUA não devem ser vistos como um inimigo, e sim como mais um parceiro, entre tantos outros que a região pode e deve buscar, como China, Europa, Índia, Rússia, África e o Mundo Árabe.

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