segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A justiça econômica segundo Martin Luther King

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Em meio aos debates sobre Lincoln, a escravidão e a posse de Obama, Osagyefo Sekou, fundador da Igreja da Liberdade de Nova York, comenta neste artigo o papel histórico de Martin Luther King, que não somente dizia “não” à segregação, mas também à injustiça econômica: “Eu estou convencido de que a abordagem mais simples se provará a mais efetiva – a solução para a pobreza é sua abolição imediata por uma medida já muito discutida: a renda garantida”.

Reverendo Osagyefo Sekou

Texto publicado em: Agência Carta Maior


“Querida, eu sinto muito sua falta. Na verdade, muito para meu bem. Eu nunca havia percebido que você era parte tão íntima de minha vida”, escreve um jovem estudante de pós-graduação, Martin Luther King Jr., à sua amada, Coretta Scott. Eles separaram-se por alguns meses porque Martin teve que ir a Atlanta após seu primeiro ano como estudante PhD na Escola de Teologia da Universidade de Boston. A carta de Martin começa por partilhar a saudade que ele sente. Afiando a oratória que capturaria a consciência de uma nação, escreve Martin: “minha vida sem você é como um ano sem primavera, que vem iluminar e aquecer a atmosfera saturada pela gelada brisa do inverno”.

Voltando-se para “algo mais intelectual”, Martin indica que havia terminado de ler o “fascinante” livro de Bellamy. Em abril de 1952, Coretta o enviou uma cópia do romance socialista de Edward Bellamy, Looking Backward 2000-1887. Ela registrou o presente com uma nota expressando seu interesse pela reação de Martin à “predição de Bellamy sobre nossa sociedade”. Escrito em 1888, o romance de ficção-científica se passa no ano 2000. A protagonista da obra, Julian West, acorda de um cochilo de 130 anos para perceber que os Estados Unidos haviam se transformado numa sociedade socialista. West oferece uma crítica assombrosa das práticas religiosas do século XIX:

Na melosa carta de amor de julho de 1952, Martin agradece Coretta “um milhão de vezes” por tê-lo apresentado a um livro “tão estimulante”. Após caracterizar Bellamy como um “profeta social”, Martin faz uma confissão notável: “eu sou mais socialista do que capitalista em minha teoria econômica”. Ele continua por dizer que o capitalismo durou mais tempo do que deveria. Para o jovem estudante, o capitalismo é “um sistema que toma necessidades das massas para oferecer luxúrias às classes abastadas”. No entanto, Martin acredita que a profecia de Bellamy é prematura porque “o capitalismo vai precisar de mais de meio século para morrer”. King celebra a nacionalização da indústria que se dá no romance. Ao passo que rejeita o marxismo e o materialismo dialético, ele divide com sua futura esposa que concorda com a tese básica de Bellamy.

O Reverendo Martin Luther King Junior
A casa de King em Sweet Auburn sempre foi atuante na política racial e no radicalismo religioso. Seu pai, o venerável “Papai” King, fundou, em Sweet Auburn, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e trabalhou para melhorar as condições educacionais do povo negro de Atlanta. O avô e bisavô de King eram pregadores do evangelho que criam que a igreja deve melhorar a situação social da população.

Formado pelo cristianismo social negro segundo o qual a cristandade deve ocupar-se tanto da salvação pessoal quanto da social, King cresceu imerso na tradição dos clérigos estadistas – Benjamin Mays, Mordecai Johnson e Howard Thurman. Thurman, Mays e Johnson fizeram peregrinações para a Índia para estudar os ensinamentos de Mahatma Gandhi. Eles eram grandes referências para o jovem estudante do Morehouse College. King sempre viajou com uma cópia da reprimenda teológica de Howard Thurman à segregação – Jesus e os Deserdados. Como pós-graduando da Universidade de Boston, King conduziu, além da própria peregrinação à Índia, um seminário sobre a filosofia da não-violência.

Mais para o final da carta, King afirma uma visão profética. Com esperança, trabalho e oração, King aspirava por “um mundo sem guerras, uma melhor distribuição da riqueza, e uma irmandade que transcenda a raça e a cor. É este o evangelho que pregarei para o mundo”.

O furacão da história testaria a resolução do jovem teólogo. Do boicote aos ônibus em Montgomery à marcha de Washington, da campanha de Birmingham até o Prêmio Nobel da Paz, King manteve firme seu comprometimento com a não-violência e o cristianismo social negro. Em 30 de setembro de 1961, King proferiu um sermão com o tema “Pode um cristão ser um comunista?” em sua igreja batista. No sermão, Martin levantou a questão da desigualdade. “Ninguém precisa ser comunista para se preocupar com isso. Eu digo a vocês que só 0,1 por cento da população desta nação controla quase metade da riqueza, e eu não me importo de dizer que há algo de errado nisso”.

Com Lincoln vigiando os nobres herdeiros da Proclamação da Emancipação, o Reverendo Martin Luther King Junior deu testemunho para uma nação que impacientava-se com a opressão racial e econômica. Durante o agora onipresente discurso “Eu Tenho um Sonho”, King articulou a “feroz urgência do agora”. Ele insistiu em apontar que os Estados Unidos não poderiam contentar-se enquanto o a mobilidade social do “povo negro é aquela que vai de um gueto menor para um gueto maior”.

No celebrado discurso contra a Guerra do Vietnã, King lembrou-se de Coretta e falou de seu evangelho para o mundo. No dia 4 de abril de 1967, Martin subiu ao púlpito da catedral do Protestantismo Liberal – a Igreja de Riverside. De maneira vagarosa e triste, ele apelou para que sua nação se libertasse de sua desorientada aventura no Sudeste Asiático:

“eles perguntam-me, ‘por que você está falando da guerra, Dr. King? Por que você se junta ao coro dos descontentes? Você não se vê prejudicando uma causa que pertence a seu próprio povo?’ E, quando eu os escuto, apesar de conhecer a origem dessa inquietude, me vejo muito entristecido. Essas perguntas significam que eles não conhecem a mim, meu compromisso, meu chamado... À luz dessas trágicas incompreensões, eu julgo de suma importância expor com clareza a razão pela qual creio que o caminho iniciado na Igreja Batista da Avenida Dexter – a igreja em Montgomery, Alabama, onde comecei meu pastorado – trouxe-me até aqui. Eu estou aqui para fazer um apelo apaixonado para minha querida nação”.

A justiça econômica segundo Martin Luther King
Um dos movimentos mais ardentes de seu discurso sublinha os impactos da Guerra do Vietnã na “Guerra à Pobreza”. Um ano antes de seu discurso, King atentou para a pobreza que o norte dos Estados Unidos atravessava. Compreendendo que o fim da segregação nas lanchonetes era só parte da solução, King é citado por colegas por ter dito que, após chegar a uma lanchonete, o homem precisa de dinheiro para comprar um hambúrguer. Acabar com a segregação, de acordo com King, não custou um centavo à nação, que deveria agora gastar muito dinheiro com programas de combate à pobreza.

Em 1966, King mudou-se para um conjunto habitacional no gueto de Chicago. A intenção de King e de sua organização, a Conferência dos Líderes Cristãos do Sul (SCLC, do inglês), era a de usar a “força moral do movimento de não-violência para erradicar um sistema perverso que procura continuar colonizando milhares de negros num ambiente miserável”. A campanha levou King a enfrentar a pobreza urbana e a privação econômica. A contar desse momento, Martin trouxe para sua crítica à Guerra do Vietnã a conexão com a pobreza dos guetos estadunidenses.

“Há uma conexão muito óbvia entre a Guerra do Vietnã e a luta que empreendemos nos Estados Unidos. Há alguns anos essa luta conheceu um momento brilhante. Parecia haver uma verdadeira esperança para o povo pobre, seja ele branco ou negro, em virtude do Programa Contra a Pobreza. Então, veio o Vietnã. Os fundos necessários não serão investidos enquanto aventuras como a do Vietnã continuarem a puxar homens e dinheiro como um tubo de sucção demoníaco. Eu tornei-me, pois, obrigado a enxergar a guerra como uma inimiga dos pobres”.

Pouco mais de um mês após esse discurso, King foi à NBC participar do “The Frank McGee Sunday Report”. Lá, o Reverendo acrescentou sua voz à dos dissidentes com base em sua convicção moral e sua obrigação ministerial. Durante a entrevista, ele recusou a acusação de que o movimento pelos direitos civis estava morto. King argumentou que o movimento havia entrado numa nova fase – a da justiça econômica.

“Por 12 anos nós lutamos para contra a segregação legal e toda a humilhação que a cercava. Era uma luta por decência. Agora nós buscamos igualdade genuína enfrentando questões sociais e econômicas duríssimas. É bem mais fácil pôr fim à segregação nas lanchonetes do que garantir um salário. É bem mais fácil pôr fim à segregação nos ônibus do que conseguir um programa que force o governo a gastar bilhões de dólares em bairros miseráveis”.

Após reconhecer o número desproporcional de afro-americanos morrendo nos pântanos vietnamitas, King comenta que afro-americanos também morriam, espiritual e psicologicamente, nos guetos estadunidenses.

O Reverendo não somente dizia “não” à segregação, também à injustiça econômica. Essa foi sua última cruzada. Tendo contado com o apoio do governo federal para alcançar os objetivos do movimento pelos direitos civis, a nova fase do movimento desafiava o governo a dedicar bilhões de dólares para acabar com a pobreza. Com esse objetivo, King e a SCLC lançaram a Campanha do Povo Pobre. Em 1968, a Campanha do Povo Pobre questionava por que as grandes corporações tinham lobistas, enquanto 35 milhões de pessoas vivendo na pobreza não. Com a montagem de uma coalizão multirracial pelo povo pobre, a campanha planejava ir a Washington e ocupar a capital nacional até que o Congresso aprovasse uma lei garantidora de renda.

Em seu último livro, Where Do We Go From Here: Chaos or Community? [Para onde vamos daqui: caos ou comunidade?], King deu voz a ainda mais uma possibilidade socialista e democrática. “Eu estou convencido de que a abordagem mais simples se provará a mais efetiva – a solução para a pobreza é sua abolição imediata por uma medida já muito discutida: a renda garantida”, escreveu King. Durante uma de suas últimas reuniões, ele pediu para que desligassem o gravador e disse que era um socialista democrático, apesar de que poderia dizê-lo em público sem perder ainda mais apoio popular.

Com a bala do assassinato já polida e pronta para encher a nação de cólera, King foi ao púlpito sagrado do pentecostalismo negro. Em defesa dos trabalhadores do saneamento, King disse uma palavra sobre o próprio legado. Sempre ligando os pontos, ele fez um pedido aos que o escutavam na Igreja de Deus em Cristo de Mason Temple. Ele disse que duas grandes corporações, Coca-Cola e Wonder Bread, não estavam tratando como deveriam as crianças de Deus. E, então, solicitou um boicote econômico a essas companhias. Em Trumpet of Conscience [Trombeta da Consciência], King instigava a organização de deslocamentos em massa que ressaltassem a injustiça econômica.

Muito após o silenciamento do profeta norte-americano, suas palavras mantém uma precisão assustadora. Nos últimos dois anos, cidadão comuns de todo mundo – Egito, Palestina, Tunísia, Wall Street, Grécia, Paris e Londres – carregaram suas palavras e seu espírito enquanto arriscavam as próprias vidas para libertarem-se da tirania e da pobreza.


*O Reverendo Osagyefo Sekou é escritor, documentarista, teólogo e intelectual público. Considerado um dos maiores líderes religiosos de sua geração, Sekou é o fundador da Igreja da Liberdade de Nova York.

Tradução de André Cristi

0 comentários: