sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Urge uma nova educação no Chile, reclama líder estudantil

Texto publicado em: Prensa Latina


Santiago de Chile, 28 set (Prensa Latina) A educação no Chile requer hoje mudanças estruturais, para que os setores mais despossuídos não sejam cada vez mais excluídos do acesso ao ensino, considerou um renomeado dirigente estudantil.

Em entrevista a Prensa Latina, o presidente da Coordenadora Nacional de Estudantes Secundários (Cones), Cristofer Sarabia, assegurou que um dos grandes problemas na esfera dos colégios municipais.

"Estes colégios são considerados a última opção em qualidade da educação, pois estamos criando condições nas populações para que a gente segue na pobreza", refletiu o dirigente da Cones, uma das organizações que convocou à marcha desta quinta-feira a nível nacional em defesa da educação pública.

Estas escolas, precisou Sarabia, são vistas como muito marginais, inclusive alguns históricos que têm 100 anos de vida, e que estão sobrevivendo, mas os colégios da populações estão fechando pouco a pouco e estão se convertendo em particulares subvencionados, destacou o dirigente estudantil, aluno do emblemático Instituto Nacional.

"Já têm fechado 250 colégios municipais nos últimos 30 anos, e têm criado mais de dois mil 500 particulares subvencionados ou privados, de maneira que a educação pública vai em declive de matrícula", comentou.

O líder da Cones precisou que no Chile o sistema de financiamento se calcula pela assistência de alunos às aulas, de maneira que se um estudante tem que ir todos os dias à escola, o colégio recebe os 42 mil pesos (88 dólares) por aluno, mas se não vão, lhe começam a descontar gradualmente.

"Então que ocorre com os colégios públicos, aos quais muitos jovens para poder chegar até eles têm que viajar uma hora, inclusive duas ou mais por caminhos de terra nas zonas rurais, como as comunas de Valdivia, eles não podem ir a classes todos os dias", comentou Sarabia.

Por essa razão, os colégios vão-se desfinanciando, e os titulares são os de municipalidades, outro erro do sistema, na opinião do dirigente, que assegurou que manter aberto ou fechada uma escola passa por uma decisão política.

"Queremos que não se continue vendo à educação a nível de municipalidades, porque se se elege a um prefeito, ao qual não gosta da educação pública fará todo o possível por fechar os escolas, é por isso que queremos que as escolas voltem a mãos do Estado", considerou o porta-voz da Cones.

Diz-se que estão injetando recursos à educação, acrescentou, mas, essas finanças não chegam aos colégios, e se seguem fechando escolas.

O jovem destacou que essa é uma das razões pelas quais os estudantes advogam por uma mudança estrutural, que inclua uma modificação na forma de dar subvenção à demanda.

"Porque não pode ser que por ter 40 garotos sentados em um aula vão me pagar 40 por 42 mil pesos, se tenho 20 alunos sentados vão me pagar 20 por 30 mil pesos, assim os colégios que vão combinando com menos alunos se vão desfinanciando, até o momento que os prefeitos tomam a decisão política de fechar os estabelecimentos", enfatizou.

Sarabia recordou que no Chile existem três formas de acesso à educação: a privada, que cobra entre 100 mil pesos (210 dólares) e 500 mil pesos (mil 50 dólares) mensais por estudante, a subvencionada, que tem um contribua do Estado por 42 mil pesos (88 dólares), e cobra um contribuição familiar que pode chegar desde cinco mil pesos (10 dólares) até os 100 mil pesos (210 dólares), e a pública.

Entretanto, o pesadelo não conclui no ensino secundário, colaborou por sua vez o presidente da Federação de Estudantes da Universidade Católica, Noam Titelman.

Em declarações a Prensa Latina, o também diretivo da Confederação Nacional de Estudantes de Chile, precisou que uma carreira universitária custa anualmente como média uns três milhões de pesos (mais de seis mil dólares).

"E se se tem em conta que as carreiras no país duram entre seis e sete anos, estamos falando de 21 milhões de pesos (mais de 44 mil dólares), que comparado com o salário média, são os impostos mais caros do mundo", concluiu Titelman.

Nesta quinta-feira, entorno de 70 mil pessoas marcharam por ruas de Santiago do Chile em defesa de uma educação pública, gratuita e de excelência.

A manifestação realizou-se dias antes de vencer o prazo para que o Governo apresente ao Parlamento seu projeto de orçamento para 2013, que em opinião de vários líderes estudantis, provocará sérios recortes aos fundos dos colégios públicos, pelo que muitos poderiam desaparecer para fins deste ano.

ocs/et/bj
Modificado el ( viernes, 28 de septiembre de 2012 )

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Equador enfrenta a mídia.

Texto publicado em: FNDC

Altamiro Borges
Blog do Miro

Em pronunciamento neste sábado (22), o presidente Rafael Correa determinou aos seus ministros que não concedam mais entrevistas para jornais, revistas e emissoras de rádio e tevê “indecentes”. No mês passado, o governo do Equador já havia anunciado a suspensão da publicidade oficial nos veículos monopolizados. “Por que temos de dar informação aos meios que nada mais querem do que encher os bolsos de dinheiro?... Não vamos beneficiar empresas corruptas que não pagam impostos”, justificou em seu discurso.

Rafael Correa garantiu que seu governo respeita a liberdade de expressão e estimula a pluralidade de ideias, mas advertiu que não vai tolerar a “liberdade para a extorsão exercida pelos meios de imprensa privados”. Para ele, os meios de comunicação do seu país e da América Latina “abusam do poder midiático” e colocam em risco a própria democracia. “Não vamos dar mais força a essas empresas”, concluiu. A decisão do presidente equatoriana evidencia o acirramento das relações com os donos da mídia na nação vizinha.

Eleição presidencial e oposição midiática

Com a proximidade das eleições presidenciais no país, marcadas para fevereiro de 2013, os veículos monopolizados intensificaram seus ataques ao governo. Na prática, como afirma Rafael Correa, eles hoje são os “principais partidos da direita” no Equador. Para conter a sanha oposicionista da mídia, o Congresso Nacional aprovou recentemente uma lei que proíbe a propaganda eleitoral nos jornais e nas emissoras de TV e rádio 90 dias antes do pleito. Ela já foi batizada pelos barões da mídia de “lei da mordaça”.

Pelo artigo 230 do “Código da Democracia”, a partir de 17 de novembro os veículos jornalísticos deverão “se abster de fazer promoção direta ou indireta, seja por meio de reportagens especiais ou qualquer outra forma de mensagem que tenda a incidir a favor ou contra determinado candidato”. Para Rafael Correa, a lei tornou-se necessária “para conter os abusos de uma oposição não eleita. Ela deterá a promoção descarada que os meios de comunicação faziam para posicionar candidatos que lhes convinham”.

Marco regulatório da comunicação

Além desta lei, o parlamento equatoriano ainda discute o novo marco regulatório das comunicações no país. O projeto, que está em debate há três anos e já foi aprovado em primeira votação no plenário da Assembleia Nacional, divide o espectro radioelétrico em três fatias – 33% para as emissoras privadas, 33% para as estatais e 34% para os canais comunitários. Ele também prevê financiamento e isenção de impostos para as emissoras comunitárias se equiparem na disputa pela audiência.

O projeto em debate proíbe o monopólio e oligopólio no setor, garante a igualdade de acesso à publicidade oficial e cria o Conselho de Comunicação – composto por representantes do governo, universidades, comunidades indígenas e movimentos sociais. Caberá a ele a palavra final sobre a concessão de frequências e sobre as denúncias de violação de direitos estabelecidos na mídia. Diante da reação dos barões da mídia, os movimentos sociais equatorianos decidiram intensificar a pressão pela aprovação do projeto.

Já no Brasil...

Enquanto os equatorianos participam ativamente do debate sobre a democratização da comunicação e conquistam avanços neste setor estratégico, no Brasil tudo continua como dantes. O governo Dilma até hoje não apresentou para a sociedade o projeto de novo marco regulatório, continua concedendo generosos anúncios publicitários para os veículos monopolizados e manipuladores e ainda asfixia os meios alternativos. Os barões da mídia agradecem e intensificam seus ataques ao governo...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O poder corruptor da TV Globo

Texto publicado em: FNDC

Por Marco Aurélio Mello, no blog DoLaDoDeLá
Blog do Miro


Quando decidi apontar internamente os desvios e as injustiças praticados pelo departamento de jornalismo da TV Globo de São Paulo, em 2006, muitos colegas me aconselharam a deixar isso pra lá. Os repórteres mais experientes diziam: os chefes passam, a empresa fica. Houve uma editora de texto, inclusive, que, candidamente, sugeriu que me aproximasse mais da chefia, que andava reclamando da minha rebeldia. Entendi aquelas mensagens como um convite à puxassaquice e fiquei mais indignado ainda.

Imperava a frase feita que dizia: - Se você não pode com eles, junte-se a eles. Fora da emissora pessoas comuns e colegas de profissão também se assustavam: - Como, você vai enfrentar esse império! - Por que não? Respondia. Hoje entendo mais claramente o tamanho do risco que corri. Afinal, como ficou bem claro nos esclarecimentos prestados pelo site Conversa Afiada, a Globo suborna as agências de publicidade com um bônus para cada anúncio programado por elas.

Esta é a causa para uma enorme concentração de mercado, que resulta num quase monopólio de arrecadação de verbas publicitárias. Apesar da emissora ter 50% de audiência média, fica com 70% de todos os recursos destinados à TV aberta. O efeito dessa concentração é danoso à toda sociedade. Em um faturamento estimado em R$ 12 bilhões de reais, o mercado publicitário recebe até um bilhão e meio de reais na forma de bônus.

Segundo David Olgivy, entrevistado por Paulo Henrique Amorim, "o bônus de volume da Globo é o maior faturamento das 40 maiores agências de publicidade do Brasil!". Traduzindo: a Globo é melhor para as agências do que os anunciantes. Guardadas as devidas proporções, é como se eu fosse síndico de um prédio e cotasse a compra de produtos de limpeza, mas escolhesse aquela que me dá de bônus 10% do valor da compra, independente da qualidade do produto ou do preço. O que o leitor acha disso?

Agora fica fácil entender porque a Dilma tem medo do PIG (o Edu Guimarães acha ela já acordou). O PIG - com o inestimável apoio das agências de publicidade e seus anunciantes endinheirados - mandam no Brasil! E ai da Dilma se ela fizer contingenciamento das verbas de publicidade das estatais e do Governo Federal. Ou pior, se questionar a concentração no setor... E ai do secretário de comunicação, seja qual for, que decidir em vez de anunciar na TV aberta, diversificar os negócios... Estão todos na rua no dia seguinte.

Sou do tempo em que, numa negociação, a vantagem era do cliente, não do intermediário. As Organizações decidiram explorar esse "nicho" e transformaram a TV num negócio de pai para filho. O meio, que é uma concessão não custa nem um centavo para ser explorado e a exploração ainda é subsidiada com benefícios diversos, entre eles as tais leis de incentivo ao audiovisual. Isso sem contar as isenções de impostos...
Peço apenas a ajuda dos juristas para entender porque as outras empresas de TV não entram com uma representação no CADE? Ou seria na ANATEL? Sei lá... Não estamos diante de um exemplo claro de abuso do poder econômico, de falta de concorrência ou de concentração abusiva? Parafraseando o bordão da própria Globo no futebol: - Pode, Arnaldo?
Por isso é que enfrentei, enfrento e não me arrependo. Tenho obrigação de combater as injustiças e vou até o fim. Quem quiser que siga comigo! Caso contrário, toda noite tem Avenida Brasil, que está imperdível, hehehe.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

EM 1989, SEQUESTRO DE ABÍLIO DINIZ FOI RELACIONADO AO PT E DESMENTIDO LOGO APÓS ELEIÇÕES, MOSTRA PESQUISA

Por: Redação da Rede Brasil Atual


Investigação apontou que não houve envolvimento do Partido dos Trabalhadores no sequestro de Diniz. Envolvidos acusaram polícia de obrigá-los a vestir camisa da campanha de Lula .

São Paulo – A cobertura da mídia sobre o sequestro do empresário Abílio Diniz, executivo do grupo Pão de Açúcar, em 1989, foi decisiva para o resultado do segundo turno das eleições, em que concorriam Fernando Collor de Mello (PRN) e Luís Inácio Lula da Silva (PT). A conclusão é da professora de comunicação Diana Paula de Souza que realizou a pesquisa “Jornalismo e narrativa: uma análise discursiva da construção de personagens jornalísticos no sequestro de Abíolio Diniz e suas repercussões políticas”.

Jornais da época suscitavam envolvimento do PT na ação, usando fontes da polícia. Após a vitória de Collor, as acusações foram desmentidas. O estudo analisou os jornais O Globo, Jornal do Brasil (JB) e Folha de S. Paulo, de 17 a 20 de dezembro de 1989.

O sequestro de Diniz aconteceu em 11 de dezembro de 1989, por integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), mas só foi revelado após a libertação do executivo, no dia 16 de dezembro, véspera do segundo turno da primeira eleição direta no Brasil, pós-ditadura, no dia 17.

Segundo a pesquisadora, no dia 17 de dezembro começaram os “relatos jornalísticos sobre material de propaganda política do PT que teria sido encontrado junto com os sequestradores”. E logo no início das investigações “percebe-se um esforço dos veículos para estabelecer uma conexão entre o sequestro e o então candidato à Presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva”, como no trecho de O Globo do dia 18 de dezembro. “Tuma assegurou que os terroristas integram duas organizações de extrema esquerda no Chile – Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) e Organização de Resistência Armada (Ora) e que em poder dos que foram presos foi apreendido material de propaganda política do PT”.

Diana descreve que apesar da aparente objetividade do jornal, que atribui as informações a uma fonte principal, Romeu Tuma, há uma associação entre terrorismo, movimentos de esquerda e o Partido dos Trabalhadores. “A publicação faz uma ligação sutil do PT com o MIR e o ORA, já que se refere aos três organismo na mesma frase, sugerindo que o PT teria ligação com as organizações guerrilheiras”. Os jornais citam também que camisetas e faixas do PT teriam sido encontradas com os sequestradores, mas que isso não seria indício de envolvimento do PT com o sequestro.

Por outro lado, Diana cita que Fernando Collor de Mello, concorrente de Lula no segundo turno, “teve o apoio de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, o que se refletiu no jornalismo praticado pelos veículos de comunicação do grupo”. “O exemplo clássico foi a edição do Jornal Nacional que se seguiu ao último debate entre os dois candidatos, realizado no dia 14 de dezembro de 1989″, descreve a pesquisa.

O estudo também reproduz um trecho do JB que de forma semelhante a O Globo destaca uma possível ligação do MIR com o PT. “Além da casa da Rua Ilashiro Miazaki, a polícia informou ter invadido um apartamento nas proximidades (Rua Charles Darwin), onde morariam os sequestradores que já estavam presos, e lá teria encontrado panfletos do MIR, propaganda eleitoral da campanha de Luís Inácio Lula da Silva, agendas com telefones de dois líderes petistas, o vice-prefeito paulistano Luiz Eduardo Greenhalgh e o vereador Eduardo Suplicy, presidente da Câmara Municipal, e de Airton Soares, do PDT. Foi encontrada também, segundo a polícia, uma barraca com ventilação no teto, que teria sido usada no sequestro do publicitário Luiz Sales, libertado no início de outubro após pagamento de um resgate de US$ 2,5 milhões. Ainda no final da tarde, o ministro da Justiça, Saulo Ramos, que acompanhava o caso através de telefonemas a cada 10 minutos, afirmou não ter nenhuma informação sobre a agenda”.

Cobertura foi decisiva

Mario Sérgio Conti, em seu livro Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor, afirma que a eleição foi decidida na última semana, momento “em que a imprensa esteve envolvida nos fatos principais”. Para Conti, o sequestro de Diniz está entre os fatores que podem ter contribuído para a eleição de Collor e derrota de Lula.

O autor, uma das fontes de Diana, narra que “na manhã de domingo, o dia da eleição, O Estado de S. Paulo noticiou na primeira página que ‘um padre da zona sul, simpatizante do PT, foi avalista da casa alugada pelos sequestradores’. Fleury deu uma entrevista ao jornal dizendo ter sido encontrado material de propaganda petista numa casa alugada pelos sequestradores. O Estadão transcreveu declarações de Saulo Ramos e Romeu Tuma negando que houvesse qualquer evidência de que os criminosos fossem ligados ao PT. Saulo Ramos levantou a hipótese de que os bandidos espalharam material de propaganda petista na casa para que, se fossem presos, se beneficiassem das penas mais brandas que a lei estabelecia para os crimes com motivação política. Uma das reportagens de O Estado relato que Alcides Diniz, irmão do sequestrado, sustentava que o PT participara do sequestro. Mas a reportagem não esclarecia que Aldes Diniz era amigo de Leopoldo Collor e se engajara na campanha do candidato do PRN. A principal manchete do jornal O Rio Branco, do Acre, foi ‘PT sequestra Abílio Diniz’”.

Defesa

A análise da pesquisadora aponta que Lula só se defendeu da suposta conexão que os jornais faziam entre o PT e o sequestro numa pequena “retranca ao pé da página, espremida por um bloco de anúncios publicitários. O título é: “Lula teme ‘maracutaia’”, explica a especialista.

O trecho de O Globo em que o então candidato petista se manifesta sobre o assunto sugere que “Lula não deu importância ao sequestro, já que estava em um jogo de futebol”. “A ênfase nos termos populares utilizados por ele parece querer desqualificar o candidato para o cargo que pretendia ocupar”, analisa a autora.

Desmentido

Os desmentidos sobre a ligação do sequestro de Diniz com o PT “se tornam mais enfáticos a partir do dia 19 de dezembro de 1989, quando o resultado das eleições já era sabido”, cita Diana.

Conti descreve que “as investigações posteriores provaram que nenhum militante do PT estivera envolvido no sequestro de Abílio Diniz, realizado por aventureiros ligados a grupos esquerdistas da América Central. Os sequestradores disseram em juízo que policiais civis os torturaram e, antes de os apresentarem à imprensa, os forçaram a vestir camisetas do PT. A Polícia Civil estava sob o comando do secretário da Segurança, Luiz Antônio Fleury Filho. A vítima, Abílio Diniz, protestou contra a tortura de seus algozes. Quase um ano depjois, em outubro de 1990, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, superior imediato de Fleury, disse numa entrevista ao Estado de S. Paulo que durante o sequestro ‘houve pressões no sentido de que se conduzissem as investigações para envolver o PT’”.

O JB chamou o atrelamento do PT ao drama do executivo de “trama policial”. “Segundo o jornal, os advogados dos sequestradores ‘denunciaram ontem que a polícia vestiu uma camiseta do candidato à Presidência da República pela Frente Brasil Popular, Luís Inácio Lula da Silva, em um deles e o fotografou, [...] a dois dias das eleições presidenciais”. A polícia negou a denúncia dos advogados de armação.

Em O Globo,do dia 19, o ministro da Justiça Saulo Ramos suscita que “os sequestradores podem ter usado a camiseta do PT como disfarce, aproveitando a eleição”.

No dia 20, O Globo sai com a manchete “Tuma: sequestro de Abílio não foi político”. Na matéria, Romeu Tuma, então Diretor Geral do Departamento de Polícia Federal, admite que a associação do sequestro com o PT pode ter prejudicado Lula no segundo turno das eleições. “Ele admite que a associação entre o sequestro e o PT possa ter prejudicado Lula. O próprio Delegado não viu as supostas camisetas e repudia qualquer ligação do caso com o PT. A informação partiu do secretário de Segurança de São Paulo, Antônio Fleury Filho, e acabou sendo contestado pelos próprios sequestradores [...] Eles afirmaram terem sido obrigados por policiais a vestirem as camisetas após serem presos”.

Também no dia 20, a Folha de S. Paulo publicou retranca “‘Sequestro pode ter prejudicado Lula’, que ‘São Paulo foi o único Estado onde Collor cresceu significativamente entre o sábado e o domingo’, segundo pesquisa de boca de urna realizada pelo Datafolha”.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Rodrigo Vianna: A ilusão de um acordo com a mídia

Texto publicado em: FNDC

Rodrigo Vianna
Vermelho/ blog O Escrevinhador

Já nos primeiros meses de governo, tudo estava claro. O governo Dilma significou um movimento rumo ao centro. Parecia uma estratégia inteligente, como escrevi na época aqui: Lula tinha já o apoio da “esquerda” tradicional – com sindicatos, movimentos sociais e também a massa de eleitores de baixa renda beneficiados pelos programas sociais. Dilma avançou para o centro, com acenos para a classe média que preferira Serra e Marina em 2010.

A agenda “técnica” e a “faxina” são a face visível desse giro ao centro. Não é à toa que Dilma alcançou mais de 80% de aprovação.

Mas ela não fez só isso. Abriu mão de conquistas importantes dos anos Lula: houve retrocessos na Cultura e na área Ambiental, pouca disposição para dialogar com os movimentos sociais, nenhuma disposição para qualquer avanço na área de Comunicações. São apenas alguns exemplos.

Concentro-me nesse último ponto: o Brasil tem uma legislação retrógrada e um mercado de mídia dominado por meia dúzia de famílias. Não é só um problema de falta de concorrência, mas um problema político – na medida em que essas famílias impedem a diversidade de opinião e interditam o debate no país. No segundo mandato, Lula percebeu a necessidade de mexer nessa área; convocou a Confecom (Conferência Nacional de Comunicação) e encomendou a Franklin Martins um novo Marco Regulatório para o setor. Dilma preferiu o silêncio, mandou o ministro Paulo Bernardo guardar o projeto de Franklin numa gaveta profunda.

Dilma foi a festinhas em jornais e TVs, logo após a posse, e aceitou as pressões da velha mídia para barrar a investigação da “Veja” e de Policarpo na CPI do Cachoeira. O governo foge do confronto. Ao mesmo tempo, entope de anúncios – e de dinheiro – as empresas que são as primeiras a barrar qualquer tentativa de avanço no país – como escreveu Paulo Henrique Amorim.

A turma que cuida da Comunicação no governo Dilma parece dividir-se em duas: uma tem medo da Globo e da Abril, a outra quer garantir empregos na Globo e Abril quando terminar o mandato.

Dilma segue popular. Mas a base tradicional lulista está ressabiada.

A velha mídia e os tucanos perceberam a possibilidade de abrir uma cunha entre Dilma e o lulismo. A estratégia é simples: poupa-se Dilma agora, concentra-se todo o ódio no PT e em Lula. Com PT e Lula fracos, ficará mais fácil derrotar Dilma logo à frente.

A presidente, pessimamente aconselhada na área de Comunicações, parece acreditar na possibilidade de uma “bandeira branca” com a mídia. Não percebe que ali está o coração da oposição.

A velha mídia, derrotada por Lula em 2006 e 2010, mostra que segue fortíssima com esse episódio do ”Mensalão”. Colunistas de quinta categoria pautaram os ministros do STF, capas da “Veja” e manchetes do “JN” empurraram o julgamento para as vésperas da eleição municipal. O STF adota uma linha “nova” para o julgamento, que rompe com a jurisprudência adotada até aqui, e aceita indícios como elementos para a condenação.

Evidentemente que – nesse episódio do chamado “Mensalão” - dirigentes do PT erraram feio: está claro que a rede de promiscuidade e troca de favores entre agências de publicidade, bancos privados e entes públicos precisava ser investigada e punida. Não era “mensalão”, mas era ilícito.

O que chama atenção é o moralismo seletivo da Justiça e da velha mídia. Querer transformar o arranjo mambembe – e desastrado – feito pelo PT de Delúbio Soares no ”maior escândalo da história republicana” é quase uma piada.

O fato é que a velha mídia ganhou esse jogo até aqui. Outro fato: ninguém acredita que “indícios” serão suficientes para condenar mensalões tucanos, nem banqueiros ou publicitários que tenham se lambuzado em operações com outras forças políticas. Não. O roteiro está preparado para condenar o PT. E só isso. É parte da estratégia de retomar o Estado brasileiro.

No dia em que o julgamento começou, Dilma anunciou o tal “pacote de concessões” para a iniciativa privada, na área de infra-estrutura. Não foi à toa. Era como se a presidenta tentasse se desvincular: o “velho PT” vai pro banco dos réus; ela não, é “moderna” e confiável. Hum…

Imaginem Zé Dirceu condenado. Na manhã seguinte, o alvo será Lula. Consolidado o ataque a Lula, as baterias estarão voltadas contra Dilma. Rapidamente, a sucessora de Lula perceberá que a ilusão de um trato “republicano” com a velha mídia brasileira não era nada além disso: ilusão.

Será que Dilma deu-se conta do erro que é apostar na lua-de-mel com os conservadores? Afinal, bateu pesado em FHC, quando este último escreveu sobre a “herança” pesada que Lula teria deixado pra ela. Mas e a relação com a mídia? Preocupante saber que Dilma teria confirmado presença no Congresso da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Trata-se de uma espécie de Instituto Millenium, maior e mais articulado em todas as Américas. FHC e Marina estarão lá na SIP. Se Dilma também for, o círculo estará fechado.

sábado, 1 de setembro de 2012

O escândalo da Nestlé em S.Lourenço / Minas Gerais

Texto publicado em: Pátria Latina

Leia tam´bem:
http://www.acquasul.com/edin.htm

http://www.circuitodasaguas.org/

(Na Hungria havia uma fábrica de chocolates, que vendia para o mercado interno e exportava para os países vizinhos e todo o Leste Europeu. A Nestlé comprou a fábrica, botou todos os funcionários no olho da rua, demoliu as instalações e saiu do país. A Nestlé não quer concorrência. Se houver...)

Nestlé mata Água Mineral São Lourenço

(As águas turvas da Nestlé)

Há alguns anos a Nestlé vem utilizando os poços de água mineral de São Lourenço para fabricar a água marca PureLife.

Diversas organizações da cidade vêm combatendo a prática, por muitas razões.


As águas minerais, de propriedades medicinais e baixo custo, eram um eficiente e barato tratamento médico para diversas doenças, que entrou em desuso, a partir dos anos 50, pela maciça campanha dos laboratórios farmacêuticos para vender suas fórmulas químicas através dos médicos. Mas o poder dessas águas permanece. Médicos da região, por exemplo, curam a anemia das crianças de baixa renda apenas com água ferruginosa.

Para fabricar a PureLife, a Nestlé, sem estudos sérios de riscos à saúde, desmineraliza a água e acrescenta sais minerais de sua patente. A desmineralização de água é proibida pela Constituição.

Cientistas europeus afirmam que nesse processo a Nestlé desestabiliza a água e acrescenta sais minerais para fechar a reação. Em outras palavras, a PureLife é uma água química. A Nestlé está faturando em cima de um bem comum, a água, além de o estar esgotando, por não obedecer às normas de restrição de impacto ambiental, expondo a saúde da população a riscos desconhecidos. O ritmo de bombeamento da Nestlé está acima do permitido.

Troca de dutos na presença de fiscais é rotina. O terreno do Parque das Águas de São Lourenço está afundando devido ao comprometimento dos lençóis subterrâneos. A extração em níveis além do aceito está comprometendo os poços minerais, cujas águas têm um lento processo de formação. Dois poços já secaram. Toda a região do sul de Minas está sendo afetada, inclusive estâncias minerais de outras localidades.

Durante anos a Nestlé vinha operando, sem licença estadual. E finalmente obteve essa licença no início de 2004.

Um dos brasileiros atuantes no movimento de defesa das águas de São Lourenço, Franklin Frederick, após anos de tentativas frustradas junto ao governo e à imprensa para combater o problema, conseguiu apoio, na Suíça, para interpelar a empresa criminosa. A Igreja Reformista, a Igreja Católica, Grupos Socialistas e a ONG verde ATTAC uniram esforços contra a Nestlé, que já havia tentado a mesma prática na Suíça.

Em janeiro deste ano, graças ao apoio desses grupos, Franklin conseguiu interpelar pessoalmente, e em público, o presidente mundial do Grupo Nestlé. Este, irritado, respondeu que mandaria fechar imediatamente a fábrica da Nestlé em São Lourenço. No dia seguinte, no entanto, o governo de Minas (PSDB), baixou portaria regulamentando a atividade da Nestlé. Ao invés de aplicar multas, deu-lhe uma autorização, mesmo ferindo a legislação federal. Sem aproveitar o apoio internacional para o caso, apoiou uma corporação privada de histórico duvidoso.

Se a grande imprensa brasileira, misteriosa e sistematicamente vem ignorando o caso, o mesmo não ocorre na Europa, onde o assunto foi publicado em jornais de vários países, além de duas matérias de meia hora na televisão. Em uma dessas matérias, o vereador Cássio Mendes, do PT de São Lourenço, envolvido na batalha contra a criminosa Nestlé, reclama que sofreu pressões do Governo Federal (PT), para calar a boca. Teria sido avisado de que o pessoal da Nestlé apóia o Programa Fome Zero e não está gostando do barulho em São Lourenço.

Diga-se também que a relação espúria da Nestlé com o Fome Zero é outro caso sinistro. A empresa, como estratégia de marketing, incentiva os consumidores a comprar seus produtos, alegando que reverte lucros para o Fome Zero. E qual é a real participação da Nestlé no programa? A contratação de agentes e, parece, também fornecendo o treinamento.

Sim, é a mesma famosa Nestlé, que tem sido há décadas alvo internacional de denúncias de propaganda mentirosa, enganando mães pobres e educadores, para substituir leite materno por produtos Nestlé, em um dos maiores crimes contra a humanidade.

A vendedora de leites e papinhas "substitutos" estaria envolvida com o treinamento dos agentes brasileiros do Fome Zero, recolhendo informações e gerando lucros e publicidade nas duas pontas do programa: compradores desejosos de colaborar e famintos carentes de comida e informação. Mais preocupante: o Governo Federal anuncia que irá alterar a legislação, permitindo a desmineralização "parcial" das águas. O que é isso? Como será regulamentado?

Se a Nestlé vinha bombeando água além do permitido e a fiscalização nada fez, como irão fiscalizar agora a tal desmineralização "parcial"? Além do que, "parcial" ou "integral", a desmineralização é combatida por cientistas e pesquisadores de todo o mundo. E por que alterar a legislação em um item que apenas interessa à Nestlé? O que nós, cidadãos, ganhamos com isso?

É simples. Sabemos que outras empresas, como a Coca-Cola, estão no mesmo caminho da Nestlé, adquirindo terrenos em importantes áreas de fontes de água. É para essas empresas que o governo governa? Uma vergonha !!!

Colabore. Transmita estas informações para outras pessoas e não consuma o que prejudica a saúde.

Mais informações sobre o caso Nestlé em www.circuitodasaguas.org