sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cachoeira plantou notícias na revista Época

Reportagem da edição desta semana de CartaCapital, nas bancas a partir de sexta-feira 25, revela como o grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira plantou notícias também em veículos das Organizações Globo para fragilizar adversários. É um exemplo de como a quadrilha abastecia jornalistas investigativos por meio de arapongas para sedimentar seus interesses. Assinada por Leandro Fortes, a reportagem mostra também como o vice-presidente Michel Temer se tornou, desde o início da crise, interlocutor do Planalto com cúpula das Organizações Globo.


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Cachoeira plantou notícias na revista Época | Carta Capital

sábado, 19 de maio de 2012

"Cobertura da mídia consolida visão negativa do Mercosul"

A cobertura equivocada da mídia brasileira, centrada em impasses pontuais, consolida uma visão negativa do Mercosul, que só interessa aos países mais industrializados. A análise é do alto representante geral do Mercosul, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, apresentada durante a primeira audiência pública preparatória para o seminário “Crise, estado e desenvolvimento: desafios e perspectivas para a América do Sul”, nesta sexta (18), no Senado.


Texto publicado em: Carta Maior
Por:
Najla Passos

Brasília - A cobertura equivocada da mídia brasileira, centrada em impasses pontuais, consolida uma visão negativa do Mercosul, que só interessa aos países mais industrializados. “Há uma campanha permanente na imprensa que menciona que o Mercosul não funciona, que ele cria problemas. É uma campanha permanente, porque os países grandes não querem um Mercosul forte”, afirmou o alto representante geral do Mercosul, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, na primeira audiência pública preparatória para o seminário “Crise, estado e desenvolvimento: desafios e perspectivas para a América do Sul”, nesta sexta (18), no Senado.

De acordo com ele, essa campanha pressupõe relações complexas, que resvalam no comprometimento da imprensa brasileira com os interesses das grandes multinacionais, oriundas dos países exportadores. “Quando um país do Mercosul exporta mais do outro, isso prejudica a economia do segundo e, consequentemente, gera insatisfações. E os noticiários acabam dando ênfase apenas a essas discussões pontuais, que consolidam a visão negativa do Mercosul, tão prejudicial ao países membros”, explicou à Carta Maior.

O embaixador avalia que o fortalecimento do Mecosul não interessa aos países industrializados porque, para que eles obtenham mais vantagens nas relações comerciais com a América Latina, “é melhor negociar com cada país isoladamente”. Entretanto, Guimarães acredita que o bloco é o principal instrumento para que seus membros (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) possam enfrentar o atual cenário de crise e de transferência do poderia capitalista do norte para a China, mantendo o crescimento da economia e da melhoria das condições de vida das suas populações.

Guimarães explicou que, ao contrário da Comunidade Comum Europeia, o Mercosul nada mais é do que uma reunião aduaneira, que possibilita aos países do bloco adotarem a mesma tarifa para importação de produtos, fortalecendo as relações comerciais entre eles e com os demais países. Por isso, não está sujeito à instabilidade em que vive hoje a União Europeia, cujos membros abriram mão até mesmo de possuir uma moeda própria. Conforme ele, o Mercosul não implica no enfraquecimento das estados.

Ele defendeu, inclusive, o ingresso da Venezuela como país membro. E esclareceu que só não há esforços para que haja, também, a adesão de outros países, porque os demais assinaram acordos com os Estados Unidos que os obrigam a reduzir a zero à tarifa de importação. No Mercosul, essa tarifa, hoje, é de 10%, mas tende a ser elevada para combater a importação excessiva dos produtos industrializados chineses.

O jornalista Mauro Santayana, colunista da Carta Maior, defendeu o fator cultural como instrumento primordial para garantir, de fato, a integração da América Latina. “Precisamos construir a unidade latino-americana. E o instrumento para isso é o Mercosul. Mas só poderemos ter uma unidade econômica quando tivermos uma cultural. Esta é a grande falha da nossa ação”, afirmou. Segundo ele, hoje, essa unidade cultural está restrita aos círculos intelectuais, a alguns blocos empresariais, mas ainda não atinge o povo.

O jornalista defendeu, ainda, que o Brasil assuma o protagonismo neste processo de integração, adotando uma postura humilde e sendo “o mais tolerante, o mais condescendente, o que mais aceita desaforo”. “Poderoso é aquele que tem o direito de parecer fraco”, afirmou.

O ex-presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, observou que o mundo passa por uma crise sistêmica, que cria oportunidades para a América Latina, mas também temores. “Embarcamos no discurso da globalização de forma absolutamente temerária. Abrimos mão de todos os instrumentos de salvaguarda nacionais e, hoje, temos um sistema financeiro que é apêndice do que acontece lá fora”, justificou.

Para ele, que centrou sua palestra na discussão sobre a crise econômica, o fortalecimento dos estados é a única alternativa. “Fora do estado não há solução. Não quero fazer uma ‘estadolatria’. Mas o estado, em última instancia, somos todos nós. Com uma crise dessas proporções, cada sociedade tem que estar coesa para sobreviver. E esta coesão só é possível com o Estado, por meio de um projeto nacional”, comentou.

O seminário “Crise, Estado e Desenvolvimento: Desafios e perspectivas para a América do Sul”, promovido pela Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul, será realizado no Rio de Janeiro, em 25 de junho

sexta-feira, 18 de maio de 2012

“Assusta-me que FHC assuma a bandeira da regulação da mídia”

Texto publicado em: Carta Maior

Em entrevista à Carta Maior, Venício Lima, pesquisador na área da Comunicação, analisa as recentes declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, favoráveis a regulação dos meios de comunicação. "Isso pode significar que algum tipo de costura de bastidores pode estar sendo feita para que haja alguma coisa que se apresente como regulação e que não chegue nem ao que já está na Constituição há 23 anos. Então, tenho medo disso", afirma.

Vinicius Mansur

Brasília - Durante o seminário “Meios de comunicação e democracia na América Latina”, realizado no último dia 15 pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso (FHC), o ex-presidente defendeu a regulação da mídia como condição da democracia . O evento marcou também o lançamento de uma publicação conjunta do iFHC, Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e da Plataforma Democrática apresentando reflexões e propostas para mudanças na legislação do setor.

As declarações aparentemente inusitadas de FHC - historicamente alinhado aos setores da mídia que abortam qualquer discussão sobre o tema taxando-o como tentativa de censura e ataque a liberdade de imprensa -, entretanto, não surpreendem o professor aposentado de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) Venício de Lima. O pesquisador aponta indícios de mudança na estratégia dos grandes grupos de mídia e teme que eles assumam a bandeira da regulação para fazê-la entre aspas: “Ou seja, muda para não mudar.”

Confira a entrevista.

O senhor se surpreendeu com a posição de Fernando Henrique Cardoso?

Não me surpreende, mas me preocupa. Tenho a impressão de que os setores historicamente avessos até ao debate sobre a questão da regulação estão se apropriando de um certo vocabulário de regulação da mídia, o que não necessariamente significa um avanço democrático. Há várias sinalizações disto.

Quais?

Em 2003, se não me engano, quando o Conselho de Comunicação Social [órgão auxiliar do Congresso previsto no artigo 224 da Constituição] ainda funcionava - porque desde dezembro de 2006 ele não funciona mais - criou-se uma subcomissão para discutir concentração da mídia no Brasil, por iniciativa do à época conselheiro Alberto Dines. Eu fui um dos convidados e apresentei um texto tratando da concentração histórica, não só, mas sobretudo, na radiodifusão do país. A última pessoa convidada foi um filósofo gaúcho chamado Denis Rosenfield, que não é da área, mas é um expoente do pensamento liberal conservador no Brasil. Sua participação foi sugerida e apoiada pelos grandes grupos de mídia que tem representação no Conselho. Ele criticou todas as apresentações anteriores, muito particularmente a minha, reafirmando todas as posições tradicionais dos grandes grupos de mídia, por exemplo, contrário a qualquer tipo de controle da propriedade cruzada dos meios e coisas desse tipo.

Recentemente, este ano, esse mesmo professor publicou um texto, destes que são publicados em vários jornais, defendendo a regulação do setor. Ele comete alguns erros bastante primários, mas pelo fato de ter publicado este texto e de ter defendido há menos de dez anos atrás posições totalmente opostas, passei a suspeitar de que os grandes proprietários da mídia começaram a se apropriar da necessidade de uma certa atualização da regulação, o que me preocupa porque isso pode significar que algum tipo de costura de bastidores pode estar sendo feita para que haja alguma coisa que se apresente como regulação e que não chegue nem ao que já está na Constituição há 23 anos. Então, tenho medo disso. Como acontece no Brasil, na maioria das vezes, as mudanças são para continuar onde estamos.

Há outras sinalizações?


Quando da aprovação da Lei 12.485, no final do ano passado, unificando a regulação da televisão paga, o jornal O Globo fez um editorial falando “precisamos mesmo atualizar a legislação da área e um bom exemplo do que precisa ser feito é essa lei, que foi feita sem contaminação ideológica, sem viés populista”, etc.

Além disso, o professor Bernardo Sorj, que é o representante do Centro Edelstein, que inclusive publica o livro lançado no seminário promovido pelo Instituto FHC, é o organizador de outro livro publicado há uns dois anos pela Paz e Terra, junto com a organização Plataforma Democrática. Esse livro não deixa qualquer dúvida sobre a posição desses centros de estudo sobre as questões que tem sido levantadas em relação aos marcos regulatórios que estão sendo implementados na América Latina. O próprio Bernardo Sorj, em outro texto, defende explicitamente a manutenção da propriedade cruzada dos meios, argumentado que a concentração talvez fosse uma forma de garantir a permanência dos veículos impressos, ameaçados pelas novas tecnologias. Então, fico com pé atrás, a menos que ele tenha mudado de posição.

Ou seja, a mídia tradicional prevê a regulação da comunicação como inevitável no Brasil e se movimenta para garantir uma regulação que lhe seja menos prejudicial?

Seria isso, como acontece com relação à bandeira da liberdade de expressão. Você vê setores que apoiaram o golpe de 1964, que patrocinaram a última expressão institucionalizada da censura no Brasil, assumindo indevidamente, de forma totalmente absurda, a bandeira da liberdade de expressão. Os mesmos grupos que apoiaram um governo que institucionalizou a censura e que, inclusive, afetou a eles próprios! O risco que se corre agora é que com esse movimento, certamente articulado com os próprios grandes grupos de mídia, eles assumam a bandeira da regulação e façam a regulação entre aspas. Ou seja, muda para não mudar.

Entre as propostas tiradas neste seminário, eles falam em combater a concentração da propriedade dos meios privados.

Eles precisam explicar melhor. Muita gente fala que combater a concentração é finalmente cumprir o que está naquele decreto 236, de 1967, da ditadura. Aquilo ali não tem nada a ver com propriedade cruzada. Limitam o número de concessões por região geográfica e um parágrafo poderia ser aplicado na formação de redes. Não há qualquer controle na formação de redes de rádio e televisão como a Globo. Do ponto de vista jurídico, inclusive da ação do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] em relação a formação de cartéis e controle de oligopolização, esses grupos são aceitos como rede.
Mas eu ainda não vi a publicação lançada neste seminário e prefiro fazer um estudo do documento. Estou falando com base nas coisas que eu já vinha observando e sobre algumas já escrevi.

Seria importante ter um aliado como FHC nesta luta?

Ao contrário, me assusta que FHC e o grupo em torno dessa promoção assumam a bandeira da regulação, eu jamais diria que ele é aliado. Se fosse teria promovido a regulação nos anos que foi presidente da República ou, então, o PSDB estaria apoiando alguma coisa nesse sentido.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Classes médias?

Texto publicado em: Le Mond diplomatique

por Silvio Caccia Bava

As classes médias são algo difícil de entender. Talvez até porque sob essa classificação convivam tribos muito diferentes. E são elas, no entanto, que terão um papel decisivo nas próximas eleições, seja nos Estados Unidos, seja na cidade de São Paulo.

A disputa de significados não é sem razão. O conceito de classe média que for adotado vai abrir campos de identidades e de alianças.

O conceito que se impõe, pela força que tem a lógica do mercado, é o da capacidade de consumo. A classe média, nesse caso, se define por sua capacidade de consumo. E como o aumento da capacidade de consumo do brasileiro mais pobre tem se elevado, isso abre espaço para uma operação ideológica, que é chamá-lo de classe média e reforçar a ideia de ascensão social, de que ele está melhorando de vida. Essa visão pretende que o povão apoie o governo e busque, nas eleições, a continuidade dessas políticas que o favorecem. No plano do imaginário social, essa operação é um sucesso, e o apoio ao governo da presidente Dilma demonstra isso. Um Brasil que cresce, que melhora a vida dos mais pobres. Esse é um sentimento compartilhado por uma grande maioria.

Mas, no plano material, a realidade é outra. As melhorias são bastante limitadas, e o piso do qual partimos é muito baixo. Não estamos falando de uma sociedade de bem-estar. Acima de uma renda de R$ 530 por mês aqui no Brasil, você é classe média. Explico-me: o governo define que a classe média parte de R$ 1.740 e vai até quase R$ 8.000 de renda familiar mensal. O IBGE diz que uma família é composta em média de 3,3 pessoas. Então, façamos a conta: R$ 1.740 dividido por 3,3 pessoas é igual a R$ 527,27. Aí começa a classe média baixa, com uma capacidade de consumo de R$ 17,57 por dia. Esses brasileiros não são classe média, são pobres que melhoraram um pouco de vida. Seus valores, suas referências, são distintos dos da classe média.

Mas há um esforço midiático para trazê-los à condição de classe média, para afirmar que mudaram de condição de vida, ascenderam socialmente. A aposta política é que eles vão lutar para manter as melhorias em sua condição de vida. O jogo é com o medo de perderem o que conquistaram. Nessa linha, terão de votar no governo, na continuidade das políticas públicas.

Outra leitura parte de situações de crise, como na Grécia, onde as mobilizações de protesto contra os cortes nas políticas sociais ganharam a adesão das classes médias. Nesse caso, são outras forças políticas e sociais – trabalhadores, jovens, desempregados, aposentados – que puxam as mobilizações. E a classe média adere, atraída pela força do movimento. O recorte não se dá pela capacidade de consumo, mas pela luta para garantir direitos, para mudar as políticas de governo. Mas aí vem o paradoxo: ainda que tenham participado das mobilizações, essas classes médias reafirmaram seu apoio, nas eleições, aos setores conservadores.

Provavelmente o conceito de classe média como ator político não se sustenta. Não conseguimos explicar com a mesma lógica os distintos comportamentos dos grupos sociais que a integram. Esse conceito tenta pasteurizar diferenças importantes e pode ter sido criado justamente para isso. A grande maioria dos participantes das manifestações que ocuparam as praças da Europa e dos Estados Unidos nos últimos meses é de jovens de classe média. Estariam eles influenciados pela Primavera Árabe, um amplo movimento popular?

Há todo um conjunto de referências culturais que dão identidade às classes médias. Não é só a capacidade de consumo que as define. Afinal, se temos um torneiro mecânico e um advogado que ganham R$ 6 mil por mês, os dois são classe média?

A classe média tem acesso à educação, vai ao cinema e à academia, frequenta bares e restaurantes, tem carro, vive em um mundo distinto do popular. E como podemos entender o movimento dos estudantes no Chile pela democratização do acesso à educação? É um movimento de juventude? É um movimento de classe média? Ou é os dois? Eles conquistaram a adesão de professores e sindicatos de trabalhadores para sua luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade.

Provavelmente o que chamamos de classe média também tenha outras identidades – jovem, mulher, gay, estudante etc. –, e talvez sejam essas outras identidades que irão buscar os melhores candidatos para a defesa de seus direitos. A trama eleitoral fica mais complexa.

Silvio Caccia Bava é editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.

domingo, 13 de maio de 2012

Por que a mídia está #ComMEDO?



#VejaComMEDO. Neste sábado, mais uma vez, uma hashtag relacionada à revista Veja alcançou o topo dos trending topics, assuntos mais comentados no Twitter. Em reportagem deste fim de semana, a revista atribuiu a “robôs”, “insetos” e “petistas amestrados” a campanha difamatória que estaria sofrendo nas redes sociais. Haja robô, haja inseto e haja petista!


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Por que a mídia está #ComMEDO?

sábado, 12 de maio de 2012

O que há de político no caso Celso Daniel

Texto publicado em: Carta Capital




Na quinta-feira, o Ministério Público de São Paulo conseguiu, no Fórum de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, condenar mais três pessoas envolvidas no assassinato, ocorrido em 2002, de Celso Daniel (PT), então prefeito de Santo André. Ao condenar os três, o MP acredita ter reforçado a tese segundo a qual há conotações políticas por trás do crime. A existência, bem como a extensão e a profundidade deste pano de fundo político, entretanto, continuam envoltas em muito mistério e dúvidas.

Na acusação apresentada em Itapecerica, o promotor Márcio Augusto Friggi de Carvalho fez uma analogia sobre o crime que ajuda a explicar como foi organizado o plano de assassinar Celso Daniel. Segundo ele, o crime tinha uma “cabeça”, Sergio Gomes da Silva, o “Sombra”, segurança de Daniel que até hoje aguarda julgamento em liberdade. O “tronco” da organização era Dionísio Aquino Severo, ex-segurança do segurança Sombra e que foi resgatado (de helicóptero) de um presídio em Guarulhos antes do crime. Os “membros” eram uma quadrilha da favela Pantanal, em São Bernardo do Campo, também na Grande São Paulo. Um desses membros, Marcos Bispo dos Santos, foi condenado em 2010. Três, Ivan Rodrigues da Silva, José Edison da Silva e Rodolfo Rodrigo dos Santos, na quinta-feira. Outros dois, Itamar Messias da Silva e Elcyd Oliveira Brito, serão julgados dia 16.

A conexão política da morte de Celso Daniel se dá por meio de Sombra. Segundo o Ministério Público, Sombra participava de um esquema de corrupção no setor de transportes de Santo André que envolvia também o empresário Ronan Maria Pinto, diretor-presidente do jornal Diário do Grande ABC, e Klinger Luiz de Oliveira Sousa, secretário municipal em Santo André na gestão de Daniel. Os três eram conhecidos como “três mosqueteiros”. O dinheiro desviado tinha, segundo o MP, pelo menos duas destinações. Uma delas seria a criação de caixa 2 para partidos políticos, entre eles o PT, partido de Daniel. Outra seria o benefício pessoal dos “três mosqueteiros”. Para o MP, ao descobrir essa segunda vertente de arrecadação, Celso Daniel teria se tornado alvo da quadrilha. “Quando ele descobriu que o dinheiro do esquema estava engordando o bolso dos participantes, não concordou. Queria voltar ao esquema inicial de caixa dois do PT”, disse o promotor Márcio Friggi.

Na investigação inicial, a Polícia Civil concluiu que o assassinato fora um crime comum. A tese de crime político defendida pelo MP surgiu com base em depoimentos. A família de Daniel afirma ter ouvido de Gilberto Carvalho, então secretário na prefeitura de Santo André e atual secretário-geral da presidência, que malas de dinheiro (totalizando R$ 1,2 milhão) oriundo do esquema foram levadas para o então deputado federal José Dirceu (PT) para a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Miriam Belchior, ex-mulher de Celso Daniel (e atual ministra do Planejamento), também teria confirmado a versão, segundo a família do prefeito. A cúpula do PT nega de forma veemente essa versão.

Nas investigações que fez para desvendar o crime, o MP não conseguiu descobrir a existência de algo acima da “cabeça” da organização, o Sombra. Se descobrisse algum envolvimento de gente do PT no esquema, esse fato abalaria a República. Não simplesmente por conta do esquema de corrupção – que atualmente é alvo de processo no Fórum de Santo André – mas porque ele teria gerado a morte de Celso Daniel e de sete outras pessoas relacionadas ao crime como testemunhas ou envolvidos. Foram assassinados, entre outros, Dionísio Severo, o “tronco” da organização; um garçom que dizia ter testemunhado encontros entre Daniel e “os três mosqueteiros”, nos quais Sombra, Ronan e Klinger trocavam grandes quantidades de dinheiro; e até o agente funerário que descobriu o corpo de Celso Daniel em uma estrada de terra em Juquitiba. O que comprometeu o PT é o que a família de Celso Daniel chama de tentativa de abafar o caso. Na quinta-feira, durante o julgamento de três dos acusados, Bruno, irmão de Celso Daniel, criticou o então deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT, e o então deputado estadual Jamil Murad, do PCdoB. Os dois, de acordo com Bruno, disseram à família que o prefeito não havia sido torturado. Laudos necroscópicos, entretanto, comprovam a tortura. O que livra partidos políticos de envolvimento direto no crime é uma constatação simples. No emaranhado de provas obtidas pela Polícia Civil e pelo MP, há um assassinato e um esquema de corrupção, interligados, segundo o MP, apenas por Sombra. Klinger e Ronan, este acusado de envolvimento no assassinato pelo advogado Calixto Antônio Júnior, não são réus no processo. Salvo um fato novo, as coisas ficarão desta forma.

Em fevereiro, durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Bruno, o irmão de Celso Daniel, afirmou que o esquema de caixa 2 para financiamento de campanhas não abastecia apenas o PT, mas também outros partidos. Na quinta-feira, durante o julgamento, Bruno disse que o objetivo de sua família não se restringia apenas a procurar justiça para os assassinos de Celso Daniel. Eles desejam, também, que o caso sirva de exemplo “para mudar a forma como se faz política no Brasil”. A cruzada da família do prefeito é contra um mal maior. É, sem dúvida, uma luta fundamental para o Brasil, mas uma para a qual há pouca esperança.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os encontros entre Policarpo, da Veja, e os homens de Cachoeira

Levantamento feito a partir de documentos da Operação Monte Carlo indicam que o editor da revista Veja esteve, pelo menos, 10 vezes com o contraventor Cachoeira e membros de sua organização. Em geral, os temas dessas conversas acabaram se transformando em matérias da revista. Operação no Hotel Nahoum, que envolveu tentativa de invasão do quarto de José Dirceu, também foi tema dessas conversas. A reportagem é de Vinicius Mansur.

Texto publicado em: Carta Maior

Por:
Vinicius Mansur


Brasília - Um levantamento do inquérito 3430, resultado da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), indica que o editor da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, e integrantes da quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira se encontram presencialmente, pelo menos, 10 vezes. Só com Cachoeira foram 4 encontros.

O número pode ser maior, uma vez que a reportagem de Carta Maior teve acesso apenas ao apenso 1 do inquérito, com 7 volumes. Entretanto, existem mais dois apensos que, juntos, tem 8 volumes.

O primeiro destes encontros foi marcado para o dia 10 março de 2011. Em ligação telefônica no dia 9 daquele mês, às 22:59, Cachoeira diz ao senador Demóstenes Torres (então do DEM, hoje sem partido):

“É o seguinte: eu vou lá no Policarpo amanhã, que ele me ligou de novo, aí na hora que eu chegar eu te procuro.”

No dia 27 de abril, Cachoeira anunciou outro encontro com o jornalista. Em uma ligação interceptada às 07:22, o inquérito da PF relata: “Carlinhos diz que vai almoçar com a prefeita de Valparaíso e com Policarpo da revista Veja”. Às 09:02, o contraventor avisa a Demóstenes de novo almoço com Policarpo, desta vez acompanhados da prefeita de Valparaíso (GO). “Eu vou almoçar com o Policarpo aí. Se terminar o almoço e você estiver lá no apartamento eu passo lá”, disse Cachoeira ao senador, que respondeu: “Ok... o Policarpo me ligou, tava procurando um trem aí. Queria que eu olhasse pra ele algumas coisas. Pediu até pra eu ligar para ele mais tarde, não quis falar pelo telefone”.

Nesta mesma conversa, Demóstenes pediu conselhos a Cachoeira sobre sua mudança de partido. Cachoeira afirmou que “esse DEM já naufragou” e disse “tem que ir pro PMDB, até pra virar do STF né?”

O terceiro encontro: o alvo é Zé Dirceu, não a Delta

A partir do dia 7 de maio de 2011, aparecem conversas da quadrilha de Cachoeira sobre a reportagem “O segredo do sucesso”, assinada por Hugo Marques e publicada pela revista Veja na edição 2216, daquele mesmo fim de semana. A matéria relaciona o crescimento da empresa Delta com os serviços de consultoria de José Dirceu.

Em ligação do dia 8 de maio, às 19:58, Cachoeira diz ao diretor da construtora Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, que Demóstenes vai trabalhar nos bastidores do Senado para abafar a reportagem.

No dia 9, às 23:07, Cláudio pergunta ao bicheiro se ele irá “no almoço com aquele Policarpo” no dia seguinte. Cachoeira responde: “Ah o Policarpo eu encontro com ele em vinte minutos lá no prédio, é rapidinho”.

No dia 10, às 14:43, Cachoeira relata a Cláudio a conversa que teve com Policarpo sobre a reportagem. A conversa, entretanto, não é detalhada pelo inquérito da PF ao qual a reportagem de Carta Maior teve acesso.

No dia 11, às 09:59, Idalberto Matias de Araujo, o Dadá, tido pela PF como braço de direito de Cachoeira, conta ao bicheiro que conversou com repórter da Veja, Hugo Marques, que lhe revelou que o alvo de sua reportagem era “Zé Dirceu e não a Delta”.

O quarto encontro foi com Cláudio Abreu. No dia 29 de junho de 2011, às 19:43, Cláudio disse a Cachoeira que esteve com Policarpo e passou informações sobre licitação da BR 280. As informações foram parar na reportagem “O mensalão do PR”, publicada na edição 2224 da revista Veja e que deu origem as demissões no Ministério dos Transportes.
No dia 7 de julho, às 09:12, Cláudio conta a Cachoeira que “o JR quer falar” com ele. Cláudio: “...to tomando um café aqui, eu, Heraldo e o Dadá, esperando ele.”

Cachoeira: “Que que é JR?”
Cláudio: “PJ, né amigo.”
Cachoeira: “PJ?”
Cláudio: “Pole.”
Cachoeira: “O que?”.
Cláudio: “Engraçado lá, Carlinhos. Policarpo, porra.”

No dia 26 de julho de 2011, Policarpo perguntou a Cachoeira, em telefonema às 19:07, como fazer para levantar umas ligações entre o deputado Jovair Arantes (PTB-GO) e “gente da Conab”. Seis dias antes, a Veja publicou a reportagem “Quiproquó no PMDB”, denunciando o então diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Oscar Jucá Neto, por desvio de dinheiro público. Juca neto pediu demissão um dia depois.

No dia 28, às 17:19, uma ligação interceptada pela PF entre Jairo Martins, o araponga de Cachoeira, e uma pessoa identificada apenas como “Editora Abril” é sucintamente resumida pela palavra “encontro”.

No dia 29, às 20:56, Jairo adianta a um homem chamado Paulo Abreu que a edição de Veja do final de semana “baterá na Conab”, como aconteceu através da reportagem “Dinheiro por fora”. A reportagem traz informações sobre a relação da empresa favorecida pela Conab e o financiamento de campanha de Jovair e de outros políticos de Goiás.

Nos documentos apurados por Carta Maior ainda consta uma ligação telefônica entre Demóstenes e Cachoeira, no dia 18 de agosto de 2011, às 09:34, na qual o senador relata que um repórter da Veja chamado Gustavo está atrás de um “Evangivaldo” e pergunta: “Tem alguma coisa contra esse homem?”. Cachoeira responde: “vou ver aqui e já te falo”. O presidente da Conab na ocasião se chamava Evangevaldo Moreira dos Santos. Ele permaneceu no cargo até 17 de fevereiro deste ano. Em sua carta de demissão, encaminhada à presidente no dia 10, o ex-funcionário disse que “tem sido usado como instrumento de adversários políticos que vislumbram as eleições municipais” em Goiânia.

Invadindo o hotel Nahoum

No dia 2 de agosto de 2011, às 10:46, Jairo Martins, marca encontro por telefone “no Gibão do Parque da Cidade” com “Caneta”, identificado inicialmente pela PF como alguém da Editora Abril. Às 12:04, Jairo informa a Cachoeira que irá almoçar com “Caneta” às “15 pra uma” para tratar “daquela matéria lá (...) que tá pronta”.

Às 14:30, o araponga informa ao bicheiro que “Caneta” quer usar imagens do hotel “pra daqui a duas semanas, que naquele período que ele me pediu, o cara recebeu 25 pessoas lá, sendo que 5 pessoas assim importantíssimas”. Ele também se mostra preocupado e diz que o combinado era não usar as imagens. Cachoeira diz: “Põe ele pra pedir pra mim”.

Às 21:03, Cachoeira revela a identidade de “Caneta”. O contraventor conta a Demóstenes que “o Policarpo vai estourar aí, o Jairo arrumou uma fita pra ele lá do hotel lá, onde o Dirceu, Dirceu, é, recebia o pessoal na época do tombo do Palocci”. Segundo Cachoeira, Policarpo pediu para “por a fita na Veja online”.

No dia 4, às 17:18, Cachoeira fala com Policarpo ao telefone e pede para ele ir encontrar Cláudio Abreu, da Delta, que está esperando. Às 17:31, Cachoeira
diz para Claudio mandar Policarpo soltar nota de Carlos Costa.

Às 17:47, Cláudio pergunta onde a nota deve ser publicada. Cachoeira diz que no “on-line já ta bom”, mas “se for na revista melhor”. Às 18:37, o bicheiro informa ao diretor da Delta que Policarpo “está com um problema sério na revista”, pediu para desmarcar o encontro e receber a nota por email.

No dia 10 de agosto, às 19:11, Cláudio conta ao chefe da quadrilha que estará em Brasília no dia seguinte para falar com “PJ”. Às 19:22, Jairo e Policarpo combinam por telefone um “encontro no churrasquinho”. Às 20:41, Jairo e Cachoeira falam sobre liberação das imagens.

No dia 11, às 08:58, Carlinhos fala a Demóstenes que almoçará com Policarpo. O resumo de uma ligação às 14:09, entre Cachoeira e Cláudio, afirma que “Carlinhos está no Churchill, possivelmente com Policarpo Júnior”. Às 20:05, em conversa com Demóstenes, Cachoeira conta que encontro com Policarpo foi para ele “pedir permissão para o trem lá do Zé”.

No dia 15, às 10:12, Cachoeira orienta Jairo para “matar a conversa com Policarpo”: “nós temos que pedir aquele assunto para ele”, diz. A noite, Jairo e Policarpo marcam encontro. Às 19:04, Policarpo marca encontro com Jairo “em 10 minutos no espetinho”. O resumo de uma ligação entre os dois às 19:26 diz “encontro”.

O resumo de uma ligação às 12:45 do dia 16 descreve: “Carlinhos diz que liberou, que só falta ele liberar. Jairo diz que falta pouca coisa. Acha que hoje ele libera”.

No fim de semana de 27 e 28 de agosto de 2011, a revista Veja deu uma capa com o título “O Poderoso Chefão”, em alusão a influência que o ex-ministro José Dirceu ainda tinha sobre o PT e o governo de Dilma Rousseff. A reportagem trouxe imagens de vários políticos visitando Dirceu dentro do Hotel Naoum, onde ele se hospedava em Brasília, afirmando que Dirceu articulou a queda do então ministro da Casa Civil, Antônio Palloci.

O repórter da Veja, Gustavo Ribeiro, foi acusado de tentar invadir o apartamento de Dirceu. A polícia também investiga como as imagens do circuito interno do hotel foram capturadas. As gravações feitas pela Operação Monte Carlo desvendam parte desta trama.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Fontes corruptas são corruptoras; submeter-se a governos é aceitar suborno

Texto publicado em: Observatório da Imprensa

Por Alberto Dines em 08/05/2012 na edição 693

No exato momento em que a CPMI do Congresso inicia formalmente o trabalho de investigação do escândalo Cachoeira e todos os seus desdobramentos, convém lembrar que a mídia sempre foi uma entusiasmada parceira e beneficiária dos arapongas (públicos ou privados) produtores de fitas, vídeos e dossiês secretos.

A expressão “jornalismo fiteiro”, cunhada neste Observatório da Imprensa há mais de uma década [ver abaixo], não surgiu por acaso: inspirou-se na dobradinha prazenteira em que a fonte oferece bombásticas revelações desde que o jornalista privilegiado garanta não apenas o seu anonimato, mas também uma cortina de fumaça sobre os procedimentos que envolveram o vazamento das denúncias.

Nestes três lustros de denuncismo ensandecido, a mídia brasileira não parou uma única vez para discutir a promiscuidade entre jornalistas, corruptos e corruptores. Calou-se e sacramentou o vale-tudo. Se o tivesse feito uma única vez – no caso de Waldomiro Diniz, por exemplo –, teria interrompido a produção e o fluxo do material “fiteiro”, já que a arapongagem brasiliense trabalha num sistema de vasos comunicantes ao qual não estão alheios alguns repórteres ditos investigativos.

Um mínimo de transparência e nossa imprensa hebdomadária seria salva da tentação marrom que a avacalha implacavelmente. A amoralidade é a-ideológica. Em ambientes altamente impregnados pelas toxinas do poder, como é o caso de Brasília, o embate ideológico é reduzido, importam mais as conexões e os alvos invisíveis.

Aética e acrítica

Os editores de Veja abusaram do seu poder de fogo e da prática de acionar a metralhadora antes de perguntar quem vem lá. Algumas vezes ofereceram evidências consistentes embutidas na vociferação panfletária – caso da ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra e mais recentemente da cúpula do DNIT. Geralmente, contentavam-se com a panfletagem.

Mesmo quando a concorrente IstoÉ embaralhou-se com a publicação de um dossiê pago por falsários – caso dos “aloprados”, em setembro de 2006 –, as cobranças concentraram-se nos supostos mandantes e na acirrada disputa eleitoral [ver, neste Observatório, “Jornalismo de quinta categoria” (26/09/2006), "A imprensa e os aloprados" (26/9/2006) e “Só a crítica genuína acabará com o ‘jornalismo fiteiro’”]. O comportamento indecoroso do rival foi omitido porque o pacto de silêncio adotado pelo patronato midiático não permite qualquer questionamento sobre a conduta jornalística dos pactuantes. Mesmo quando apostam suas fichas em interesses opostos.

Fontes corruptas são inevitavelmente corruptoras. A submissão a partidos, governos e religiões é uma forma disfarçada de embolsar propinas e aceitar suborno.

Nesta escuridão aética e acrítica só pode prosperar uma espessa promiscuidade entre a sede denuncista e a fome pelo poder. Ambas insaciáveis. Os holofotes, embora tardios, são bem-vindos. Desde que dispostos a esquadrinhar os desvãos, sótãos e porões onde se aninham os vermes que corroem os restos da “última profissão romântica”.

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A capa de CartaCapital comparando Roberto Civita a Rupert Murdoch é uma vendeta pessoal. Indecente

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Quem foi Osama? Quem é Obama?

Texto publicado em: Pátria Latina

por Michel Chossudovsky


Enquanto o presidente e supremo comandante dos Estados Unidos da América, Barack Hussein Obama "celebra" o primeiro aniversário da alegada morte de bin Laden, mantém-se inalterada a questão de fundo de QUEM FOI OSAMA BIN LADEN.

Cheio de mentiras e invenções, o discurso cuidadosamente elaborado do presidente Obama encerra um mundo de total fantasia, em que os "maus da fita" estão à espreita e "conspiram actos de terrorismo". Entretanto, diz-se que os "jihadistas" estão a ameaçar a civilização ocidental.

Cada uma de todas as afirmações do discurso de 1º de Maio de Obama na base da Força Aérea de Bagram, relativas ao papel da Al Qaeda, é uma invenção: (abaixo damos excertos das Notas de Obama em itálico, os comentários do autor estão indicados entre parênteses rectos [ ]):

Foi aqui, no Afeganistão, que Osama bin Laden instalou um porto seguro para a sua organização terrorista.
[ Osama foi recrutado pela CIA , a Al Qaeda foi montada com o apoio da CIA. O porto seguro de Osama foi protegido pelos serviços secretos dos EUA].

Foi para aqui, no Afeganistão, que a al Qaeda trouxe novos recrutas, os treinou e congeminou actos de terrorismo.
[Os Mujahideen foram recrutados e treinados pela CIA. A Arábia Saudita, aliada da América, financiou as escolas corânicas Wahabbi, Ronald Reagan elogiou os Mujahideen como "Combatentes pela Liberdade". Sem o público americano saber, os EUA divulgaram os ensinamentos da jihad islâmica em manuais "Made in America", elaborados na Universidade de Nebraska ].

Foi aqui, a partir destas fronteiras, que a Al Qaeda lançou os ataques que mataram aproximadamente 3000 homens, mulheres e crianças inocentes.
[Obama refere-se aos ataques do 11/Set. Até hoje não há provas de que a Al Qaeda tenha estado envolvida nisso. Além disso, como confirmado pela CBS News, a 10 de Setembro de 2001, Osama bin Laden deu entrada num hospital militar paquistanês em Rawalpindi por especial favor do Paquistão, aliado da América . Terá coordenado os ataques de 11/Set a partir da sua cama no hospital?]

E assim faz agora 10 anos, os Estados Unidos e os nossos aliados entraram em guerra para garantir que a al Qaeda nunca mais poderia usar este país para lançar os seus ataques contra nós.
[Os ataques do 11/Set foram a justificação para a guerra no Afeganistão, com base na "auto defesa". Dizia-se que o Afeganistão abrigava a Al Qaeda e portanto era cúmplice num descarado acto de guerra contra os EUA.

A verdade é que o governo dos talibãs por duas vezes nas semanas que se seguiram ao 11/Ser ofereceram-se (através dos canais diplomáticos) para entregar Osama bin Laden ao sistema judicial dos EU. O presidente George W. Bush recusou a oferta do governo talibã, alegando que a América "não negoceia com terroristas".

A NATO entrou em guerra invocando o Artigo Cinco do Tratado de Washington: um acto de guerra contra um membro da NATO é considerado um acto de guerra contra todos os membros da NATO ao abrigo da doutrina da segurança colectiva].

Apesar do êxito inicial, por uma série de razões, esta guerra demorou mais do que o inicialmente previsto. Em 2002, bin Laden e os seus lugares-tenentes escaparam pela fronteira e estabeleceram um porto seguro no Paquistão. A América passou quase oito anos a travar uma outra guerra no Iraque. E os aliados extremistas da al Qaeda no seio dos talibãs travaram uma brutal insurreição.
[O paradeiro de Osama bin Laden foi sempre bem conhecido dos serviços secretos dos EUA. O presidente Obama transmite a ilusão de que as forças dos EUA-NATO e os seus operacionais de informações não conseguiam encontrar bin Laden. Nas palavras do antigo secretário da Defesa, Donald Rumsfeld (2002), "é como procurar uma agulha num palheiro".

O presidente Obama também sugere que os operacionais do Al Qaeda, equipados com mísseis Stinger e Kalashnikovs, tinham conseguido superar a máquina militar de muitos milhões de milhões de dólares dos EUA-NATO].

Mas nos últimos três anos, a maré mudou. Quebrámos a dinâmica dos talibãs. Montámos fortes forças de segurança afegãs. Destruímos a liderança da al Qaeda, eliminando 20 dos seus 30 líderes de topo. E há um ano, a partir duma base aqui no Afeganistão, as nossas tropas lançaram a operação que matou Osama bin Laden.
[Muito se tem escrito sobre esta questão. Não há provas quanto à identidade da pessoa que foi alegadamente morta pelas Forças Especiais SEAL. Nas palavras de Paul Craig Roberts, "A história do governo dos EUA sobre bin Laden foi tão mal cozinhada que não demorou 48 horas a ser alterada profundamente…" ]

A meta que estabeleci – derrotar a al Qaeda e impedir qualquer hipótese de ela se reconstituir – está agora ao nosso alcance.
[Há muitos indícios de que a Al Qaeda, enquanto "trunfo secreto" patrocinado pelos EUA está "viva e a mexer-se". Desde 11 /Set, a Al Qaeda evoluiu para uma entidade multinacional com "filiais" em diversos lugares quentes geopolíticos por todo o mundo.

Na Líbia e na Síria, brigadas da Al Qaeda são os soldados de infantaria da aliança militar EUA-NATO.

Onde quer que o aparelho militar e de informações dos EUA esteja instalado, a Al Qaeda está presente:

A Al Qaeda no Iraque, a Al Qaeda na Península Arábica (AQAP), o Grupo de Combate Islâmico da Líbia (GCIL), o Al Shaabab (Somália), a Al Qaeda no Magreb Islâmico, o Jaish-e-Mohammed (JEM) (Exército de Maomé) (Paquistão), a organização Jemaah Islamiya (JI) (Indonésia), o Movimento Islâmico do Uzbequistão, etc. (Ver Organizações Terroristas Estrangeiras do Departamento de Estado dos EUA, Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lista de indivíduos, grupos, empresas e outras entidades associadas com a Lista de Sanções Al-Qaida ).

Ironicamente, em todos estes países, os serviços de informações dos EUA coordenam abertamente as actividades dos grupos filiados da Al Qaeda. Oficialmente, o contraterrorismo consiste em combater a jihad islâmica. Não oficialmente, por meio de operações secretas, os serviços secretos ocidentais apoiam os seus "trunfos" incluindo entidades terroristas da lista do Departamento de Estado dos EUA .

Além disso, estas diversas organizações terroristas estão hoje a ser usadas em operações militares secretas EUA-NATO contra países soberanos (por ex: Líbia e Síria). Segundo fontes dos serviços de informações israelenses:

"Entretanto, na sede da NATO em Bruxelas e no supremo comando turco estão a ser traçados planos para o seu primeiro passo militar na Síria, que é armar os rebeldes com armas para combater os tanques e os helicópteros com a intenção de dissolver o contestado regime de Assad. Em vez de repetir o modelo líbio de ataques aéreos, os estrategas da NATO estão a pensar mais em termos de injectar grandes quantidades de foguetões anti-tanques e anti-aéreos e metralhadoras pesadas nos centros de protesto para vencer as forças blindadas do governo". (DEBKAfile, NATO vai fornecer aos rebeldes armas anti-tanque, 14/Agosto/2011)]



Ronald Reagan conversa com combatentes Mujahideen pela Liberdade.



Quem é ou era Osama?

Um "trunfo dos serviços secretos", nomeadamente um instrumento da CIA para justificar a "Guerra Global contra o Terrorismo".

Vale a pena recordar que a 14 de Setembro de 2001, tanto a Câmara como o Senado adoptaram a resolução histórica que autorizou o presidente a "perseguir" países que " ajudaram os ataques terroristas [de 11/Set]".
O presidente está autorizado a usar toda a força necessária e adequada contra as nações, organizações, ou pessoas que considerar que planearam, autorizaram, praticaram, ou ajudaram os ataques terroristas que ocorreram a 11 de Setembro de 2011, ou albergaram essas organizações ou pessoas, a fim de impedir quaisquer actos futuros de terrorismo internacional contra os Estados Unidos por essas nações, organizações ou pessoas.

Actualmente, em 2012, há amplos indícios de que:

1) A Al Qaeda não esteve por detrás dos ataques do 11/Set ao World Trade Centro e ao Pentágono.

2) Também há indícios pormenorizados de que organismos do governo dos EU e da NATO continuam a apoiar e a "albergar essas organizações" [a Al Qaeda e suas organizações afiliadas]. Na Líbia, os rebeldes "pró-democracia" foram liderados por brigadas paramilitares da Al Qaeda sob a supervisão das Forças Especiais da NATO. A "Libertação" de Tripoli foi levada a efeito por "antigos" membros do Grupo de Combate Islâmico da Líbia (GCIL). Os jihadistas e a NATO trabalharam de mãos dadas. Essas "antigas" brigadas afiliadas da Al Qaeda constituem a espinha dorsal da rebelião "pró-democracia ".

3) Há indícios crescentes de que as torres do WRC foram deitadas abaixo através de demolição controlada, levantando a hipótese de cumplicidade e encobrimento no seio do governo dos EU, dos serviços secretos e militares. (Ver os escritos de Richard Gage, Undisputed Facts Point to the Controlled Demolition of WTC 7 , Global Research, Março 2008. Ver também o vídeo, Richard Gage Controlled Demolitions Caused the Collapse of the World Trade Center (WTC) buildings on September 11, 2001, Global Research)

Quem é Obama?

Um mentiroso político e um criminoso de guerra.

Os discursos escritos de Obama são distorções descaradas. As realidades são viradas de pernas para o ar. Os actos de guerra são apregoados como operações de paz…

Ironicamente, o texto da resolução do Congresso de 14 de Setembro de 2001 (ver acima) não exclui acção judicial e investigação criminal dirigida contra patrocinadores dos EUA-NATO de terrorismo internacional, incluindo o presidente Obama, que utilizaram os trágicos acontecimentos do 11/Set como pretexto para travar uma "guerra sem fronteiras" ao abrigo da bandeira humanitária da "Guerra Global contra o Terrorismo".


Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

domingo, 6 de maio de 2012

De Atenas a Paris: uma primavera europeia?

A vitória de François Hollande nas eleições francesas e sua oposição ao pacto fiscal será a primeira derrot das políticas que a chanceler alemã Angela Merkel e os tecnocratas da União Europeia impuseram a Europa. No entanto, o resultado das eleições gregas pode ter uma importância simbólica maior ainda. As placas tectônicas da sociedade e da política grega estão se movendo. É a primeira vez que aparece na Europa a possibilidade real de um governo de esquerda radical. O artigo é de Costas Douzinas.

Costas Douzinas - SinPermiso
Texto publicado em: Carta Maior



O dia 6 de maio pode ser o princípio da “primavera europeia”. A esperada vitória nas eleições francesas e sua rejeição ao pacto fiscal será a primeira derrota das políticas que a senhora Merkel e os inúteis tecnocratas da União Europeia impuseram a Europa. No entanto, o resultado das eleições gregas pode ter uma importância simbólica maior ainda.

As eleições marcam o final do segundo ato da tragédia grega, com a saída pela direita do cenário do elenco de partidos e políticos até agora dominantes. O primeiro ato terminou em novembro passado com a demissão do governo Papandreu como resultado da oposição popular e o medo de Merkozy de um referendo para decidir a permanência da Grécia no euro. Papandreu era um “pobre homem” de Tony Blair, assessorado por burocratas do partido toda a vida e por um pequeno grupo de “especialistas” neoliberais, conhecidos como “os jardineiros”. Este clã de mediocridades, que deviam seus cargos ao clientelismo feudal de Papandreu, afirmava que poderia “salvar” a Grécia dos desastres causados por seus governos. Evangelos Venizelos, que substituiu Papandreu na direção do Pasok, é uma espécie de Gordon Brown tagarela que, como ministro da Economia, supervisionou o catastrófico segundo pacote de austeridade, sepultando com ele no cemitério dos sonhos despedaçados suas aspirações de toda uma vida de se converter em primeiro ministro.

Na semana passada, a OCDE anunciou que a renda média grega caiu 25,3% em 2011, uma redução sem precedentes em qualquer parte do mundo em tempos de paz (os britânicos caíram 2% no mesmo período), com um desemprego de 21% e um desemprego entre os jovens de 50%. No entanto, o segundo empréstimo do resgate, assim como as receitas tributárias pelo imposto de renda, ingressaram em uma conta bloqueada para pagar a dívida antes que os salários e as pensões. O Pasok se autodenomina socialista, mas, ao contrário de Hollande, aceita as medidas de austeridade sem negociação nem objeções, sacrificando os jovens, os idosos e os pobres como se fossem modernas Ifigênias para salvar a pele dos Agamenons econômicos e políticos.

George Samaras, o líder populista e nacionalista da Nova Democracia, votou contra a primeira série de medidas de austeridade para diferenciar seu partido do Pasok. Mas, passado o mês de novembro, a Nova Democracia voltou ao seu berço ideológico, aceitou o segundo pacote e se uniu ao governo Papademos. Lukas Papademos, o tecnocrata que dirige a coalizão, foi diretor do Banco da Grécia, quando o país ingressou na zona do euro graças a uma contabilidade criativa, a chamada “estatística grega”. É uma ironia da história que, em 2001, o governo Simitis, do Pasok, mentisse para ser admitido no clube, o que acabaria provocando a queda do país e do partido no abismo.

O governo de Padameos é uma coalizão do Pasok e da Nova Democracia, os partidos dinásticos que governaram a Grécia durante os últimos 40 anos e que conduziram o país a sua triste situação atual. Sua campanha eleitoral foi surrealista. O massivo rechaço das medidas do FMI e da União Europeia obrigaram os partidos que governam a argumentar contra as políticas que aplicam. Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião desastrosas (que deram 20% para a Nova Democracia e 15% para o Pasok, que recebeu 44% em 2009) e a desesperada tentativa de polarizar a partir de diferenças inexistentes, fazem com que se despedacem entre si com uma ferocidade retórica sem precedentes. Apesar de o sistema eleitoral oferecer uma incrível vantagem de 50 cadeiras ao partido mais votado, nenhum deles alcançará uma maioria suficiente. A única maneira de os grandes partidos seguirem aplicando a desastrosa política de austeridade, ordenada por Berlim e Bruxelas, será formar um novo governo de coalizão no dia 7 de maio, se conseguirem somar 151 cadeiras. Enquanto isso, ainda que os insultos pessoais tenham dominado a campanha, é evidente que a campanha dos partidos majoritários oferece “dois pelo voto de um”.

Um dos aspectos mais preocupantes é o giro à direita dos políticos tradicionais que, imitando Sarkozy, competem para mostrar quem é mais xenófobo. Os ministros da coalizão, como Michalis Chrysochoidis e Andreas Loverdos, aumentaram o pânico acusando os imigrantes de ser criminosos e portadores de enfermidades infecciosas e defendendo que eles deveriam ser encerrados em campos de detenção já preparados para conter esta “ameaça”. A Anistia Internacional denunciou esta proposta como “profundamente preocupante” e “discriminatória”. O prefeito de Atenas, como Chrysochoidis, chamou os imigrantes de “lixo” e organizou uma campanha para “limpar” Atenas de estrangeiros, enquanto que a coalizão governista planeja levantar um muro anti-imigrantes na fronteira greco-turca. É uma tentativa de mobilizar com a política do medo os “condenados da terra”, que o diktat europeu lança, esgotados e famintas, às ruas gregas. Neste ambiente, o partido neonazista “Aurora Dourada”, que organiza ataques contra os imigrantes, pode entrar no Parlamento, lembrando aos europeus os últimos dias de Weimar. Será uma amarga ironia no país que teve maior êxito em sua resistência contra a ocupação nazista.

A tragédia, a farsa e a depressão conformam a imagem de um sistema à beira do ataque de nervos. Maio de 2012 será um caso de manual sobre como uma elite todo-poderosa se suicida com a crença delirante de que o serviço aos interesses privados promove a virtude pública. No entanto, sua queda poderia se converter no começo do terceiro ato da tragédia que leva a seu fechamento catártico. A Coalizão da Esquerda Radical (Syriza) e seu carismático e jovem líder Alexis Tsipras prometem por fim às políticas de austeridade e negociar uma redução da dívida, priorizando o crescimento e a reforma das políticas da União Europeia. Tsipras propõe formar um governo de partidos de esquerda apoiados na mobilização popular. As pesquisas de opinião parecem estar de acordo. Um governo deste tipo seria a opção mais popular, e os três partidos de esquerda – Syriza, comunistas e a Esquerda Democrática, somaram cerca de 40% nas pesquisas. Os outros dois partidos, no entanto, esquecendo a história da frente popular, rechaçam a proposta. A direção comunista converteu a Syryza no principal objetivo a derrotar. De uma maneira esquizofrênica, os comunistas participam da política parlamentar, mas afirmam que não estão interessados em governar a menos que tenham todo o poder para abolir o capitalismo. A pró-europeia Esquerda Democrática apoia criticamente a UE e serve de alternativa para os dissidentes do Pasok que estão abandonando seu partido.

A lógica desta proposta é a seguinte. É provável que a Nova Democracia seja o partido mais votado neste domingo, somando as 50 cadeiras adicionais atribuídas pela lei eleitoral neste caso. O Pasok espera chegar em segundo e a Syryza em terceiro. Segundo a Constituição grega, a Syryza, como terceiro partido, poderia tentar formar um governo se os dois primeiros partidos obtiverem conjuntamente menos de 150 deputados. Se for assim, os partidos de esquerda, os verdes e a centro-direita anti-austeridade ser verão pressionados a participar ou ao menos dar um voto de confiança a um governo de esquerda.

As placas tectônicas da sociedade e da política grega estão se movendo. É a primeira vez que aparece na Europa a possibilidade real de um governo de esquerda radical. As milhares de pessoas que ocuparam Syntagma, em Atenas, e as praças da Grécia no ano passado careciam de líderes, partidos ou ideologias comuns. Mas os velhos sindicalistas e os militantes de sempre, juntamente com os novos dissidentes e os indignados mudaram as regras da política. Agora, tem a oportunidade de levar a sua versão da democracia direta e a solidariedade social à uma representação parlamentar forte. O colapso da elite política bipolar colocará no Parlamento seis novos partidos, criados originalmente ou resultado de dissidências. Mas o que está em jogo nestas eleições é a redefinição no longo prazo do mapa político com a substituição do Pasok pela esquerda.

Depois da guerra civil, a Grécia exilou, encarcerou e perseguiu a esquerda, marginalizando seus partidos em uma oposição testemunhal e ineficaz. Está situação está chegando ao fim na medida em que está surgindo um bloco hegemônico multicolor, que combina a defesa da vida, a democracia e a independência, reunindo pessoas que historicamente se encontravam em lados opostos. À medida que o rechaço popular à austeridade supera a negatividade do “já basta!” e começa a avançar uma proposta radical de governo, emerge um novo modelo de democracia que pressiona os partidos de esquerda para que não percam esse encontro marcado com a história. Se no dia 6 de maio, a França elege um presidente socialista e a esquerda grega obtém um bom resultado, um vento novo levará a fragrância da primavera de Paris a Atenas. Os franceses e os gregos não estão votando apenas o futuro de seus próprios países, mas sim de toda a Europa.

(*) Costas Douzinas é filósofo, autor de Resistência e filosofia na crise, publicado no início deste ano pela Alejandria Press, Atenas.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

terça-feira, 1 de maio de 2012

A crise do PSDB

O PT aumentou sua influência na direita ao conquistar a confiança dos ricos com a promessa de não mexer nas fortunas e dos conservadores de baixa renda ao se comprometer com a reforma social. Mas foram os programas sociais que cimentaram a predominância petista. Tal situação gerou uma crise colossal no PSDB e no DEM

por Lincolm Secco
Texto publicado em: Le Monde diplomatique Brasil

Fundado em 1988, às vésperas da promulgação da Constituição, o PSDB era uma dissidência à esquerda do PMDB e contra as “oligarquias decrépitas”, como rezava seu programa político.

Embora o símbolo partidário fosse um tucano, para se aproximar de uma imagem naturalmente brasileira, o partido apresentava orientação e pretensão social-democrata tipicamente europeia. Seu programa expressava uma leve linguagem socialista: “A propriedade privada dos meios de produção constitui a base do sistema econômico brasileiro, devendo ser garantida na medida em que atenda ao princípio da sua função social e se harmonize com a valorização do trabalho e do trabalhador. Nem por isto se pode desconhecer a multiplicidade das formas de organização da produção, mesmo no setor privado da economia, como é o caso das formas cooperativistas, que merecem reconhecimento e estímulo” (Diário Oficial da União, 6 jul. 1988).

Embora o novo programa de 2007 apresente leve inclinação à direita, ele é só um programa. No Brasil, raramente somos tentados a levar a sério o que os partidos escrevem. Em sua origem, o PSDB apresentava-se, em verdade, bifronte: uma face voltada à questão social e à social-democracia dos intelectuais que aderiam ao partido; outra voltada à reforma do Estado e ao liberalismo desenfreado. Naquela época se costumava dizer que um verdadeiro Estado social-democrata moderno (de terceira via à laBlair) deveria ser economicamente mínimo e socialmente máximo. Era um prenúncio da combinação de privatizações de empresas estatais e políticas sociais compensatórias.

O aglutinamento dos tucanos originais se deu também por questões meramente conjunturais. Lideranças paulistas como Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso perdiam espaço para Orestes Quércia no PMDB e divergiam quanto ao aumento do mandato do presidente José Sarney.

A natureza bifronte do PSDB leva a uma infinda discussão sobre se ele nasceu neoliberal ou se tornou depois. Se ele estava no espectro de centro-esquerda ou já era de direita. A discussão perde sua importância quando situamos a evolução partidária na história. Nenhum programa partidário é uma camisa de força. Os tucanos apresentavam um conjunto de valores que os aproximava de parcelas do PT: uma direção com pessoas oriundas da luta (armada ou não) contra a ditadura; defesa da democracia; discurso contra a corrupção; modernização do Estado.

É preciso lembrar que, até 1994, setores (minoritários) do PT (como José Genoino, Eduardo Jorge, Augusto de Franco) defenderam abertamente a aproximação com o PSDB e alguns até abandonaram o partido, apoiaram a ideologia liberal e praticaram privatizações como símbolo da “modernização do Estado”. Esse foi o caso de Antonio Palocci como prefeito de Ribeirão Preto (mas não só ele).

A tensão interna do PSDB levou, por outro lado, figuras gradas de sua direção a optar pela moda liberalizante que tomava conta da América Latina já no mandato de Fernando Collor de Mello. É sabido o quanto Mário Covas atuou para impedir a aproximação de Fernando Henrique Cardoso com o governo. Este teve a fortuna de só ser impelido para a máquina federal no governo de Itamar Franco. Ungido pela estabilização monetária, fez-se presidente da República.

É no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso que ocorreu a conversão formal do PSDB ao neoliberalismo e sua passagem à direita. Primeiro ao aliar-se ao Partido da Frente Liberal (PFL) e, depois, ao comandar políticas públicas de viés claramente privatista e liberalizante sem freios. É verdade que, por ser um partido de “estrutura organizacional fraca” (como revelou uma pesquisa de Celso Roma), a cúpula pôde impor seu liberalismo ao conjunto de um partido que acalentava valores originalmente de centro-esquerda.


Pós-neoliberalismo

O fracasso socialdo neoliberalismo aos olhos da maioria da população latino-americana levou às sucessivas vitórias de candidatos de oposição, como Luiz Inácio Lula da Silva. O que veio depois foi rotulado com o afixo “pós”, já que ninguém ousou definir um período que não é idêntico ao anterior, posto que dirigido por novas forças políticas; e que também não se apresentou como uma ruptura.

Ao chegar ao governo, Lula encontrou problemas de várias idades históricas que não podiam ser resolvidos por uma simples decisão política. Os dinamismos internos de uma economia estrutural e funcionalmente subordinada ao capital oligopolista internacional não podiam ser alterados a curto prazo.

O ex-presidente foi sagaz o suficiente para manter o essencial da política econômica liberal do governo anterior, embora isso seja discutido ainda hoje. Ele herdou uma situação de grave dependência externa do Brasil aos capitais voláteis, ao mercado financeiro em geral e ao FMI. Como um líder operário, ele provocava o medo dos investidores e a esperança de seus eleitores. Daí seu lema: “A esperança precisa vencer o medo”. Mas essa dura realidade o obrigou a manter as metas de déficit primário impostas pelo FMI e sacrificar investimentos sociais e recursos que deveriam ser dirigidos à reforma agrária, por exemplo. O que o Brasil pagou de juros da dívida interna é infinitamente maior do que os gastos sociais que alçaram a popularidade de Lula aos píncaros da glória eleitoral.

Assim, o PT se credenciou pela primeira vez a representar o povo em lugar de querer representar uma classe. Mas não esqueceu os que mais precisam. Programas como Bolsa Família e ProUni se tornaram tão importantes quanto a geração de emprego e salário mínimo. O governo petista unificou os programas Bolsa Escola, Gás e Cartão Alimentação já existentes. Mas eles atendiam 3,6 milhões de pessoas, enquanto Lula quase quadruplicou o número de beneficiados. Além disso, suas políticas promoveram a habitação popular, o salário mínimo, a predominância da mulher no acesso a benefícios estatais, a eletrificação rural e tantas outras medidas que compuseram uma rede social ampla e reconhecida pela população mais pobre.

Mas note-se que, simultaneamente a tais políticas sociais, a primeira reforma importante que Lula fez não foi a tributária, mas a da Previdência. Não visou confrontar o capital. Mas o trabalho. Tais táticas eram compreensíveis. Um governo que pudesse causar temor nos investidores precisava ser mais realista que o rei e manter os juros altos para debelar a inflação que se anunciava.

O movimento fundamental do governo Lula foi, portanto, o de amparar as classes desprotegidas sem incomodar as classes de cima. Ao ser bem-sucedido no atendimento de carências sociais básicas e que “custavam pouco”, ele não deixou de alimentar a voracidade dos especuladores. Foi por isso que Lula e o PT passaram a ocupar um novo espaço político ampliado à esquerda e à direita.

Hegemonia

No espectro esquerdista, o PT já havia obtido suas credenciais ao longo de vinte anos de hegemonia nos movimentos sociais e nos principais sindicatos. No campo direitista, o partido aumentou sua influência ao conquistar a confiança dos mais ricos com a promessa de não tomar medidas contra as grandes fortunas e dos conservadores de baixa renda ao se comprometer com a reforma social sem rupturas com a ordem. Ajudou-o nessa tarefa a proximidade com valores conservadores católicos e a aproximação mais recente com setores evangélicos. Mas foram especialmente os programas sociais de Lula que cimentaram a predominância do PT.

Tal situação gerou uma crise colossal no PSDB e, mais recentemente, no DEM (Democratas). Eles perderam espaço programático. Quando criticaram o Bolsa Família em 2006 como se fosse uma “esmola” para pessoas que não trabalham, eles só mantiveram o apoio dos setores médios que já os apoiavam e perderam definitivamente a população mais pobre, que se viu ofendida e ameaçada por um hipotético governo tucano. O DEM isolou-se na extrema direita ideológica e abriu espaço para que seus políticos descontentes e oportunistas buscassem no PSD de Gilberto Kassab uma saída eleitoralmente viável.

Se foi louvável a atitude de lideranças “democratas” assumirem uma posição ideológica explícita, elas cometeram suicídio político a médio prazo. O Brasil não gosta de extremos, mesmo à direita. O DEM mimetizou um partido montanhês(ainda que de sinal trocado) quando sua base no Congresso era o pântano. Isso para remeter o leitor à “geografia política” da Revolução Francesa.

Depois de 2006, a oposição a Lula cometeu seu segundo e mortal erro. Passou a criticar o PT por ter lhe roubado sua política econômica. Mais recentemente vimos uma retomada da mesma ladainha quando a grande imprensa ligada ao PSDB atacou as privatizações de aeroportos no governo Dilma Rousseff. Ora, nessa lógica de raciocínio, se o PT é socialmentemais eficiente e ainda por cima mantém o que de “melhor” o PSDB tinha (a estabilidade da moeda), por que deveriam os eleitores escolher os tucanos?

Se aprofundarmos o argumento, o próprio eleitorado tradicional dos tucanos deveria escolher o PT, já que a melhoria social dos mais pobres deveria levá-los a imaginar maior paz social. Mas é claro que a política é mais o reino irracional da paixão do que da razão. Embora seja fundamentalmente o reino dos interesses materiais.

O PSDB reduziu-se a um partido de classe(média). Os grandes cartéis e trustes não têm partido e apoiam qualquer governo que não toque neles.

O PT tentou firmar-se ao longo de sua história como um partido de classe (trabalhadora, é claro). E tornou-se um partido de massas policlassista. Já o PSDB, que recentemente propôs uma nova central sindical, fracassou nesse campo e era uma agremiação que tendia a ser um “partido pega tudo”. Hoje, o PSDB é muito mais um partido regionalmente concentrado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste e socialmente baseado em áreas de classe média tradicional, pequena burguesia do campo e clientela do agronegócio. Além de ter algum respaldo na indústria nacional pequena e média e numa gigantesca massa de profissionais liberais do mundo corporativo, embora não de funcionários públicos. É claro que me refiro às bases sociais, e não aos membros do partido.

Curiosa inversão. Nas eleições para a prefeitura paulistana de 2012, o candidato do PT, Fernando Haddad, foi escolhido pela tradicional forma mexicana do “dedaço”. Lula acabou com as prévias e impôs seu candidato. Curiosamente, o PSDB resolveu fazer prévias para escolher seu candidato, ainda que elas tenham se tornado incertas com a entrada de José Serra na disputa. Embora em 1992 o PSDB paulistano tivesse realizado prévias para escolha de seu candidato à prefeitura, o partido nunca teve instâncias internas democráticas.

Mas a inversão é uma forma de aparência. É claro que o PT continua mais democrático; tem maior vida interna fora de períodos eleitorais; maior vínculo com movimentos sociais; e é mais orgânico e “ideológico”.


Pequena política

O PT exerce uma hegemonia aparente. No plano eleitoral, sua direção política parece imbatível pelas razões já expostas. Ele fez sacrifícios corporativos ao deixar de lado algumas demandas importantes dos movimentos sociais e sindicatos. Mas não em nome de alianças em torno de seu programa político. Logo, sua hegemonia não é uma direção intelectual e moral sobre os aliados. Ele não mudou valores fundamentais e abdicou de uma grande política.

Quando Antonio Gramsci falou em grande política, ele imaginava ações estratégicas que visavam mudar estruturas da sociedade civil. Mas ele também concebeu a possibilidade de um grupo “fingir” deter-se na pequena política (aquela dos cargos, das querelas parlamentares e das questões menores) para obrigar o adversário a limitar o alcance estratégico de suas aspirações. Ora, dizia Gramsci, isto é, em verdade, fazer a grande política. Logo, esta pode servir para manter intocadas as estruturas, e não para mudá-las.

A política do PT no governo não é a do partido que se construiu por longos anos na luta social. É óbvio que muita coisa que o PT queria se realizou ou tem sido feita. Mas basta pensar na tutela militar, na estrutura agrária, na igualdade de gêneros no mercado de trabalho, no problema ambiental e na questão da Previdência para lembrarmos demandas radicais parcialmenteabandonadas pelo partido.

Se não é o PT, então quem faz a grande política? Convido o leitor a imaginar quais grupos sociais se mantiveram intocados antes e depois de Lula. Se tal classe ou conjunto de classes puder ser identificado, a resposta terá sido achada. A novidade de nosso tempo é que as classes dominantes (ou seus setores centrais) não aparecem nem precisam ter seus interesses verbalizados pelos órgãos de comunicação de massa ou partidos. É melhor que não apareçam, pois enquanto a polarização política se estabelece em torno do PT, do apetite fisiológico de seus “aliados” no Congresso e da oposição, as autênticas polarizações sociais adormecem sob uma democracia eleitoral que gira em falso e não muda a sociedade.

É claro que podemos invocar todas as inúmeras diferenças entre Lula e Fernando Henrique Cardoso. E elas são reais e importantes. Mas a conciliação operada pelo petista só terá sucesso enquanto as lutas de classes puderem ser amortecidas por crescimento econômico e benefícios sociais. Se os ganhos do pré-sal forem reais e significativos, a hegemonia dos donos do poder econômico poderá persistir intocada por muitos decênios, qualquer que seja o governo.

Para os interesses imediatos dos mais pobres continuará sendo mais importante que esse governo seja do PT ou de alguma alternativa à sua esquerda. Além disso, não é impossível (embora seja improvável) que a militância petista volte a ter algum poder de veto sobre a cúpula partidária.

O PSDB enquanto partido social-democrata já deixou a cena histórica. Seu futuro (assim como o do PT, é claro) dependerá da disputa dos valores da nova classe trabalhadora (ou média?). Fernando Henrique Cardoso defendeu o abandono do “povão” em favor da velha classe média. E como bem sabe o sociólogo da USP, não há escolha. O “povão” é que o abandonou há muito tempo.

Lincolm Secco

Professor de História Contemporanêa na Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, Cotia-SP, 2011)



Ilustração: Rodrigo Leão