quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Recessão mundial: o Brasil que se cuide

Texto publicado em: Carta Maior

Os dados mais favoráveis exibidos pela economia norte-americana facilitam a vida eleitoral de Obama mas não podem ser confundidos com o fim da crise mundial. Levantamentos da Comissão da UE, divulgados nesta 5ª feira, mostram que na Europa, ao contrário, a dinâmica recessiva predomina e já não se restringe à agonia de países pobres, casos da Grécia e Portugal, tendo se instalado também no coração das maiores potencias do euro, a exemplo da França, Itália e Espanha. A previsão para este ano é de uma queda de 0,3% no PIB europeu.

A maré recessiva, observa Nouriel Roubini, acossa ainda os costados da Ásia, dobrando a espinha dorsal de seu eixo ordenador, a China. O mercado imobiliário chinês está em desaquecimento. Os preços das casas começaram a cair. O investimento do país em infraestrutura perde fôlego. Grandes projetos, a exemplo dos trens de alta velocidade, estão sendo engavetados.

O lento dobrar-se chinês gera ondas que arrebanham o restante do bloco asiático: Singapura teve queda de atividade no último trimestre de 2011; Taiwan entrou em recessão no mesmo período; a economia da Coréia do Sul, segundo Roubini, exibe o ritmo mais lento dos últimos dois anos; o PIB do Japão caiu mais que o esperado em 2011. Diante de tanta fragilidade, os novos picos nos preços do petróleo - US$ 123,2 o barril, nesta 4ª feira - decorrentes da tensão entre Irã/Israel, no Oriente Médio, tendem a restringir o espaço para uma efetiva retomada do crescimento.

Graças à preservação da Petrobrás como instrumento do Estado, o Brasil se mantém, há anos, relativamente imune às turbulências originárias do Oriente Médio, blindagem reforçada agora pela regulação soberana das reservas do pré-sal. Há flancos, porém, e um deles remete a eventual desaceleração das exportações aos mercados asiáticos. Mas não só. Cada vez mais, o gigantesco mercado interno brasileiro, um dos poucos em expansão no mundo torna-se o alvo cobiçado da ociosidade existente em parques fabris de todas as latitudes. Medidas protecionistas, calibradas com a maior rapidez no corte dos juros para desvalorizar o câmbio e inibir as importações ganham, assim, contornos de prioridade emergencial.

A demanda de massa, robustecida pelo ganho real do salário mínimo e das aposentadorias - a contrapelo da ladainha ortodoxa - deve ser preservada à produção nacional. Mas se as importações continuarem mais atraentes que o produto local esse trunfo se perderá: em 2011 o varejo brasileiro cresceu quase 7% enquanto a produção industrial avançou 0,3% . Em janeiro de 2012 veio o ajuste: o emprego com registro caiu 21,8% em relação ao mesmo período de 2011.

É a fatura da ortodoxia monetária só flexibilizada recentemente pelo BC. Se a política econômica se guiasse por ela não teríamos tampouco o colchão de investimentos públicos do PAC, do pré-sal e das obras associadas à Copa de 2014, com o qual o país afronta a contração mundial. Dados da Abimaq indicam que o investimento em bens de capital no governo Dilma passará de R$ 3 trilhões. Significa que o Brasil hoje está investindo mais de 11% do PIB em grandes máquinas e equipamentos, constituindo-se no 3º maior investidor do mundo numa área estratégica que gera novas fábricas e obras.

O acerto da estratégia heterodoxa em tantas frentes argui a persistência da bola de chumbo monetária, que ainda penaliza áreas essenciais, como a da saúde pública, vítima de corte de gastos para pagar juros aos rentistas do Estado brasileiro. Postado por Saul Leblon às 17:18

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Internet e Pós-Capitalismo

Texto publicado em: Outras Palavras

A convergência digital, a blogosfera e a comunicação compartilhada não ameaçam apenas a oligarquia da mídia corporativa. Também requerem um novo projeto para democratizar o jornalismo, e outros mecanismos para remunerar os produtores culturais

Por: Antonio Martins

1.Nos últimos anos, graças a certas ferramentas tecnológicas, mas especialmente a algumas mudanças de paradigma, os antigos conceitos de liberdade de informação e propriedade intelectual estão sendo superados. Em seu lugar, surgem idéias como comunicação compartilhada, inteligência coletiva, fim da passividade do receptor, direito à intercomunicação. Essas mudanças têm enormes repercussões em nossa vida social, econômica, política e simbólica. Estão, por sua vez, relacionadas a sinais de que uma outra lógica de organização das sociedades – capaz de superar a que está baseada no lucro e na competição – é possível e necessária.

2.Um dos problemas-chaves a resolver é, precisamente, a produção de símbolos — arte, comunicação, literatura — num mundo em que a vida continua sendo comprada e vendida como mercadoria. Em outras palavras: se queremos que as obras culturais circulem e sejam apropriadas e recriadas por todos; se queremos fazer de cada ser humano um criador cultural, como remunerar o trabalho do artista? Como permitir que, sendo livre seu trabalho, possa ele alimentar-se, vestir-se, habitar, viajar, equipar-se – em suma, satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos.

3.Um dos pontos essenciais para encontrar uma resposta foi oferecido em conferência pronunciada no ano passado, durante o Fórum Cultural Mundial, por Gilberto Gil. Vivemos num mundo em transição e em transe. São tão profundos quanto os que marcaram a passagem do mundo feudal à modernidade e geraram, entre outros fenômenos, o Renascimento europeu.

4. Alguns dos mecanismos sociais que marcaram a modernidade e representaram, em sua época, liberdade, transformaram-se em prisões. O ser humano medieval recuperou a moeda e ampliou os mercados para se libertar das relações obrigatórias e limitadas que o prendiam à terra, ao senhor, aos afazeres que haviam sido repetidos por seus ancentrais desde muitas gerações. A cidade e o mercado eram os espaços em que cada um podia oferecer livremente seu trabalho – ou seja, encontrar uma alternativa à obrigação de permanecer no feudo, trocando favores pessoais com o senhor, sempre subordinado, sempre sem liberdade de escolher seu próprio destino pessoal. A moeda era o que permitia a tal ser humano “livre” ganhar o mundo e comprar sua vida sem o limite dos vínculos de favor.

Quando os mercados, que o ser humano desenvolveu para se livrar do mundo feudal, passam a dominar seu criador


5. Ocorre que o mercado é, por natureza, um espaço marcado pela competição, pela desigualdade e por um tipo de alienação que leva à hipervalorização do produto e apagamento do produtor. Se produzo laranjas, ou fios de cobre mais baratos, serei o vencedor. O mercado ignora se meu vizinho é obrigado a lavrar terras mais áridas, ou se as relações sociais na fábrica em que trabalha são mais humanas. Algo muito semelhante se dava no mundo da indústria cultural, onde os padrões de belo, bom e agradável eram definidos por um sistema onde alguns grandes operadores tinham enorme poder de definir, por exemplo, que estilo de produção cinematográfica, ou que enfoque de cobertura midiática, tinham o poder de encantar ou convencer.

6.No terreno da produção simbólica, o período que vivemos é marcado por duas tendências contraditórias. Alguns fatores tendem a padronizar os produtos de forma cada vez mais intensa . Garantir a circulação de um jornal diário em papel, na escala e nos padrões de “qualidade” requeridos pelo mercado, exige investimentos de dezenas de milhões de reais. As produções cinematográficas tradicionais consomem uma parcela cada vez maior de seu orçamento com publicidade.

7.No entanto, dois fatores combinados têm servido como uma contra-tendência formidável, que questiona a própria idéia de mercantilização da produção simbólica. A primeira é tecnológica: a internet começou, a vários anos, a erodir a receita da indústria cultural. Primeiro, veio o compartilhamento de música, sem contrapartida financeira. Depois – e ainda mais interessante e transformador – surgiram as possibilidades não apenas de trocar o que já está pronto, mas de criar em conjunto, a partir de múltiplos pontos do planeta.

8. Estes enormes passos tecnológicos teriam pouco sentido e efeito se não coincidissem com um profundo mal-estar em relação aos paradigmas que marcaram a modernidade – em especial a mercantilização do mundo. Tem crescido – o Fórum Social Mundial é expressão disso – a consciência de que o mercado, embora surgisse como uma ferramenta de libertação do ser humano, se não cotrolado, domina seu criador. Já não somos o que somos, mas o que compramos. O mais interessante é que surgem, em paralelo, alternativas. Afirma-se a lógica dos direitos. Debate-se, nos Fóruns Sociais, a idéia de que certos bens e serviços, necessários para assegurar vida digna, devem ser oferecidos a todos os seres humanos do planeta, independentemente de sua capacidade de pagar por eles. Acesso à terra, água potável, eletricidade, renda básica da cidadania, saúde de qualidade, educação, internet, bens culturais. A lista vai se refinando, felizmente, e é possível vislumbrar o dia em que essa lógica se desdobrará no direito a viajar para ter contato com novas culturas, ou no direito à psicanálise.

Tecnologia é fator secundário. Conhecimento livre é movido pela busca de nova lógica social e desencanto com oligopólio das narrativas

9. É precisamente nesse contexto que surgem o direito à intercomunicação, a inteligência coletiva, o fim da passividade do receptor, o conhecimento livre. Graças à tecnologia — mais especialmente à busca de um mundo organizado segundo uma nova lógica social —, está se esfacelando um dos grandes instrumentos de dominação da era capitalista: o oligopólio das narrativas e discursos. Embora partidária do neoliberalismo, a revista Economist apontou, num estudo publicado em meados de 2006, que está se encerrando a era da comunicação de massa. Iniciada com a invenção dos tipos móveis, por Gutemberg, ela foi marcada pela produção de um volume cada vez mais maciço de bens simbólicos, por um número cada vez mais reduzidos de emissores. Em seu lugar, está surgindo a era da comunicação pessoal e participativa. Sua marca será o poder que uma parcela cada vez maior da humanidade terá para se livrar da condição de mero consumidor, e tornar-se, também, produtor de bens simbólicos. As transformações serão tão profundas que Economist chega a prever o fim do jornal diário impresso, ainda na primeira metade do século atual.

10. A mudança de paradigma, extremamente positiva, cria dois problemas complexos. O primeiro é a necessidade de recriar espaços públicos de debate, para evitar que a multiplicação dos produtores de conteúdo gere apenas um caos multifônico. O fato de cada ser humano ser um produtor de narrativas e discursos não deve significar que cada um se satisfaça consigo mesmo e dispense o diálogo. Nesse caso, estaríamos diante de uma nova forma de incomunicação e alienação. Para evitar o risco, é importante criar outros nós na grande rede, certos lugares onde os produtores de símbolos se encontram, se reconhecem e estabelecem trocas. Isso não se faz de forma piramidal, nem com base em relações mercantis, nem sob a batuta de um editor todo-poderoso – mas a partir de recortes e pontos de vista compartilhados por uma comunidade. No Brasil, um exemplo desbravador é o site de jornalismo cultural Overmundo. Centenas de leitores, muitos dos quais mantêm seus próprios blogs, ou produzem vídeo ou áudio – ou seja, já são produtores de conteúdo cultural – sentem-se atraídos para contribuir também para o Overmundo. Por que surgiu um nó, onde é possível estabelecer diálogos mais amplos. Lançado em outubro, o Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique persegue um objetivo semelhante, no terreno do pensamento crítico e da busca de alternativas políticas. Num primeiro momento, ela reunirá colaboradores já reconhecidos por sua capacidade de análise, ou por atuar em iniciativas transformadoras e refletir sobre elas. Numa segunda etapa, como em Overmundo, a participação estará aberta a qualquer leitor que se tenha pontos de vista relevantes a expressar.

Uma possibilidade radical: desmercantilizar o trabalho humano, desvinculando o direito à vida digna de um emprego assalariado


11. O segundo grande desafio é o da remuneração e sobrevivência dos novos produtores de símbolos. De certa maneira, a liberdade de conhecimento e de produção cultural é profundamente utópica, no melhor sentido do termo: o de antecipar um futuro possível. Ela aponta para a possibilidade da desmercantilização mais radical: a do próprio trabalho humano. Produzir comunicação, cultura ou arte não deve ser algo que dependa de remuneração, mas um prazer e algo inerente à própria condição humana. Outras atividades, cada vez mais numerosas, deveriam ter o mesmo status: cuidar da natureza, educar as crianças, mostrar nossa cidade a visitantes que não a conhecem. No caso de muitas outras atividades, o desenvolvimento da tecnologia poderia ser visto como um alívio, não como um drama – desde que houvesse outras relações sociais. Se novas máquinas permitem fabricar computadores empregando muito menos operários, ou se é possível automatizar a coleta de lixo, isso não deveria ser visto como ameaça de desemprego, mas como redução do tempo de trabalho, eliminação das tarefas humanas mais penosas e desagradáveis. A condição é nos dispormos a imaginar a ultrapassagem da sociedade-mercadoria e do trabalho-mercadoria. Uma decisão-chave é reconhecer que, na época em que vivemos, a garantia de uma vida digna não pode mais estar associada a um emprego remunerado. Por isso, é tão decisivo o debate sobre a criação de uma Renda Cidadã internacional – e mesmo medidas muito tímidas nesta direção, como o Bolsa-família brasileiro merecem todo apoio.

12. Mas como viveremos nós, enquanto continuarmos imersos nas relações capitalistas? Em primeiro lugar, é preciso afastar a idéia de que uma nova sociedade pode ser construída num único ato, a partir do qual as relações sociais transformam-se por encanto. Durante muito tempo, teremos de ampliar o espaço das relações de solidariedade e compartilhamento, estando, contudo, obrigados a aceitar as relações de mercado, a vender nossa capacidade de produzir bens simbólicos. Uma grande arte haverá em equilibrar esses dois aspectos de nossa vida social.

13. Isso exige, ao mesmo tempo, imaginar e testar desde agora novas relações. Se o trabalho necessário para produzir Overmundo é remunerado graças ao apoio de uma empresa pública, mediante patrocínio, devemos ter a ousadia de debater com a sociedade que se trata de uma relação muito mais avançada que vender o conteúdo do site aos que podem pagá-lo.

14. No Brasil, uma importantíssima janela de oportunidades em favor da comunicação compartilhada e de novos mecanismos de remuneração dos produtores culturais está se abrindo, há vários meses. Certas atitudes políticas adotadas quase em bloco pelo oligopólio que controla a mídia provocaram um grave desgaste de sua legitimidade, principalmente entre a parcela mais esclarecida e politizada de sua audiência. Surgiram, em paralelo, sinais de articulação embrionária entre publicações e produtores de conteúdo que atuam na blogosfera, o que poderia ser, no futuro, uma rede – horizontal e não-hierárquica – de novas iniciativas de comunicação independente.

Tiro pela culatra: o oligopólio da mídia tenta manipular duas vezes a opinião pública, e sai com credibilidade arranhada


15. Em pelo menos dois episódios, a mídia comercial tentou manipular acontecimentos importantes, servindo-se do controle que julgava ter sobre a opinião pública para produzir fatos políticos que interessavam a si própria e às correntes políticas com quem se identifica. Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, ela envolveu-se com a campanha do candidato conservador, e com setores da Polícia Federal, para produzir ilegalmente fotos, que foram apresentadas como comprometedoras de outro candidato – o então presidente da República, que acabou se reelegendo. Mais tarde, no primeiro semestre de 2007, o oligopólio tentou tirar proveito de uma tragédia – um desastre aéreo com 200 mortes – para fabricar apressadamente uma suposta causa (problemas na pista do aeroporto de Congonhas), responsabilizar o governo federal e vitaminar um movimento de oposição de direita liderado por grandes empresários, auto-denominado “Cansei”.

16. Em ocasiões anteriores, campanhas promovidas em bloco pelo oligopólio foram capazes de sensibilizar a sociedade e produzir os efeitos desejados. [1] Para ficar apenas em dois exemplos: por meio de campanhas semelhantes, o oligopólio obteve, em 2002, a inviabilização da candidatura presidencial de Roseana Sarney, então líder nas pesquisas de opinião pública; e conseguiu abortar, em 2004, a criação do Conselho Nacional de Jornalismo e da Agência Nacional de Cinema e Audivisual

[2] Vale a pena ler, em especial, a reportagem em que Raimundo Pereira (em Carta Capital) descreve a construção, pela mídia e pela candidatura de Geraldo Alckmin, de uma versão que comprometia Lula, no chamado “escândalo da compra do dossiê”.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carta do Embaixador do Equador ao O Globo com pedido de publicação

Texto publicado em: Pátria Latina

Embaixador do Equador, Sr. Horacio Sevilla Borjas envia carta ao OGlobo em nome do Diretor-Geral Sr. Marcelo Moraes com pedido de publicação, de forma a esclarecer o público leitor sobre a verdade do que ocorre no Equador.

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O massacre do povo grego

Texto publicado em: Carta Capital
Foto: Louisa Gouliamaki/AFP

A Grécia está sendo submetida a um massacre.

Ontem foi divulgado o PIB do quarto trimestre de 2011, com uma queda de 7%; no terceiro trimestre a queda foi de 5%. Em 2009 e 2010, o PIB já havia caído 3,2% e 3,5% respectivamente.


O drama grego reside em uma relação dívida/PIB da ordem de 140% e um déficit público da ordem de 8%. Desse total, apenas 1,3% se referem ao déficit primário – receitas menos despesas. O restante é juros e amortização, de empréstimos de grandes bancos internacionais que arriscaram, ganharam durante algum tempo e, agora, não querem pagar a conta.

Sua imprudência vinha da convicção de que, em qualquer hipótese, a Grécia seria bancada pela União Europeia ou pelo FMI. Ora a um ganho maior corresponde um risco maior.

Nesse ponto, há que se dividir o jogo de interesses em duas partes: os acionistas dos bancos e os investidores. O risco final, em última instância, é do investidor – especialmente do grande capital, aquele que mais se arrisca com operações de derivativos ou de empréstimos a países de alto risco.

Mas desde a eclosão da dívida, vem-se tratando a questão grega de maneira a minimizar o máximo o prejuízo do chamado grande capital.

O primeiro pacote de ajuda foi de 110 bilhões de euros, com participação do FMI e da União Europeia. Foi negociado um segundo pacote de 109 bilhões de euros, até se constatar que não haveria meio de resolver a questão da dívida sem descontos.

Em uma primeira rodada o desconto foi de 21% do valor presente do endividamento público, insuficiente para equacionar a dívida.

Em agosto do ano passado, a OCDE (conjunto das economias mais desenvolvidas do mundo) lançou um estudo sobre a situação econômica da Grécia.

O estudo dizia que “a Grécia lançou um ambicioso programa de ajuste para lidar com a profunda crise econômica, restaurando a sustentabilidade das finanças públicas, competitividade e os fundamentos para saudável e sólido crescimento a longo prazo”.

É um estudo indecente no qual, para gerar ganhos capazes de equacionar a dívida, propõe-se reduzir os benefícios previdenciários, aumentar oportunidades de trabalho para velhos e crianças, precarizar o emprego restringir gastos com saúde, reduzir substancialmente o salário mínimo.

O que esta fórmula conseguiu, de um lado, foi uma queda de 7% do PIB – e mais do que isso na arrecadação fiscal. A não ser que queiram encarcerar todos os gregos, é impossível um corte de despesas que compense queda tão acentuada do PIB. E se conseguir compensar, haverá nova queda no PIB, maior ainda.

Nenhuma nação, nenhum conjunto de países se sustenta sem a solidariedade advinda de relações ética do governante com sua população. Hoje em dia, mais do que em qualquer época, a Internet trouxe uma transparência inédita nas informações e nas relações de poder.

Qualquer cidadão global, medianamente informado, sabe que a crise grega é fruto da cumplicidade de governantes corruptos com bancos imprudentes e investidores ambiciosos.

O ponto de partida para o equacionamento do caso grego tem que ser essa identificação de responsabilidades. Caso contrário, significará jogar a União Europeia de volta à era de barbárie do pré-Segunda Guerra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Drones e a nova política bélica estadunidense

Texto publicado em: Prensa Latina

Por Luis Beatón *
Havana (Prensa Latina) O secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta, anunciou recentemente que o governo do presidente Barack Obama expandirá sua rede global de aviões sem pilotos, conhecidos como drones ou Unmanned Combat Aerial Vehicle (UCAV) com capacidade de portar armas letais.

Esta política é parte dos planos de corte d as forças convencionais como consequência do desequilíbrio fiscal que afeta a economia estadunidense nos últimos anos, comentou a esse respeito o jornal diário The Wall Street Journal.

Nos próximos cinco anos os Estados Unidos reduzirão em 92 mil o número de efetivos militares e aplicarão cortes milionários em seu orçamento, disse o chefe do Pentágono.

O país contará com menos soldados, que diminuirão de 562 mil, na atualidade, a 490 mil, ao mesmo tempo em que os infantes de marinha, também diminuirão de 202 mil a 182 mil, pontualizou.

O plano cujo orçamento será divulgado neste mês, contempla um incremento de 30 por cento da frota estadunidense de drones, segundo funcionários citados pelo Washington Post, em uma tentativa, talvez, de compensar tais reduções de efetivos.

O jornal esclareceu que nos planos do Pentágono está contemplado a mobilização destes aparelhos em bases em todo o mundo para operar em missões contra outras nações em uma "guerra remota", explicam especialistas.

Fontes do setor assinalam que mais de 30 bilhões de dólares serão orçados nos próximos 5 anos para a aquisição de aviões não tripulados, cinco bilhões durante 2012, para ampliar a compra dos aparelhos que patrulham o mundo em missões de espionagem e de combate.

Paquistão, Iêmen, Iraque, Afeganistão, Venezuela, México, Colômbia, Palestina, Somália, Líbia, Síria, Líbano e Turquia, entre outros estados, foram vítimas de incursões de espionagem ou de ataques.

A utilização desta tecnologia que remonta ao século anterior, obteve grande publicidade durante a ocupação estadunidense do Afeganistão na suposta caçada de Osama bin Laden e dos principais líderes da Al Qaeda.

No entanto, as ações mais notórias ocorreram no Paquistão, onde seu uso custou a vida de centenas de civis que o Pentágono qualifica eufemisticamente como "vítimas colaterais".

Segundo o site da internet lapistaoculta.com a CIA viola o espaço aéreo de países da América, Ásia e África a cada vez com uma freqüência maior.

Enquanto o programa militar do uso de drones sobre o Afeganistão e Iraque é supervisionado pelo Pentágono, a CIA dirige as operações em países onde não há uma guerra declarada quando considera necessário, agregou. Deste programa encoberto, Obama manteve no cargo todo o pessoal chave que tinha disposto George W. Bush quando assinou o memorando secreto que deu à CIA a autorização para assassinar membros da Al Qaeda e aliados em qualquer parte do globo, referendado pelo Congresso, indica o site.

Na atualidade, Israel é o principal exportador de drones, mas Washington almeja atingir a ponta.

Por exemplo, quando Bush lançou sua chamada política de guerra contra o terrorismo, o país contava com apenas 50 aparelhos deste tipo e na atualidade sua frota se acerca aos sete mil, assinalam analistas militares.

A General Atomics Aeronautical System, fabricante do Predator e do Reaper, une-se hoje ao Northrop Grunmann, para repartirem contratos de cerca de 25 bilhões de dólares.

Outras empresas como Lockheed Martin e General Dynamics (GD) competem também por esse mercado e esta última empresa tem em Fort Huachuca, no Arizona, o maior centro de treinamentos de drones do mundo.

Segundo fontes militares existem pistas de decolagem em Guam, Turquia, Etiópia, Colômbia, Coreia do Sul ou Quirguistão, entre outros países, e os voos são dirigidos desde a Base Aérea Beale na Califórnia; Wright-Patterson em Ohio; Grand Forks em Dakota do Norte; ou em Nevada e no Texas.

Não por gosto, nos últimos cinco anos, os drones se converteram na menina dos olhos da CIA e inclusive foram protagonistas no Iêmen do assassinato de cidadãos estadunidenses, supostamente terroristas.

Por outra parte, o anúncio de que os Estados Unidos expandirá sua rede global de aviões sem piloto é uma ratificação de que a política bélica deste país se considera acima das leis internacionais, avaliam comentaristas políticos.

Um simples análise do Protocolo Adicional I da Convenção de Genebra de 1949 assinala em seu artigo 51 que "a população civil não será objeto de ataques" como os executados contra o Paquistão.

Da mesma forma, o artigo 50 declara que "a presença entre a população civil de indivíduos que não estão incluídos nessa definição não tira à população seu caráter de civil" e o 53 condena qualquer hostilidade contra "lugares de adoração que façam parte da herança cultural ou espiritual da população".

Tudo isto foi violentado, por exemplo, em um massacre ocorrido contra os que participavam do funeral no qual, suspeitavam, participaria um líder talibã, atacado por drones.

O próprio código legal estadunidense em seu Capítulo 18, seção 2331, define como terrorismo internacional as atividades violentas, ou atos que coloquem em perigo a vida com a intenção de intimidar ou coagir a população civil, influenciar com estes atos um governo e/ou afetar os governos mediante a destruição em massa, assassinatos e sequestros.

Esta é uma definição que se encaixa perfeitamente para identificar a guerra encoberta dos drones e que os próprios estadunidenses ignoram.

O uso desta tecnologia não leva em conta que essas leis culpam os indivíduos que planejem, ordenem ou cometam ataques deliberados ou irresponsáveis, falhando em distinguir entre a população civil e os combatentes, e são responsáveis por crimes de guerra.

Jornalista da Redação Norte-americana da Prensa Latina.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Justiça reduz o IPTU de Naji Nahas. Viva Pinheirinho !

Texto publicado em: Conversa Afiada
Foto: Portal R7 - 

No programa Entrevista Record Atualidade, que vai ao ar nesta segunda feira, na Record News, às 22h15, logo após o programa do Heródoto Barbeiro, o vereador Wagner Baileiro, do PT,  mostrou documentos que mostram a evolução de parte da dívida do grande financista da Folha (*), Naji Nahas, com a Prefeitura de São José dos Campos.. 

Naji Nahas jamais pagou o IPTU.

A prefeitura, controlada há três por prefeitos, também não executou a divida.

O mais interessante é que nove dias depois do Massacre da Nova Canudos, documento da Prefeitura ratifica decisão judicial que REDUZ o IPTU de Naji Nahas sobre o terreno do Pinheirinho.

O que era uma divida de R$ 2 milhões foi gentilmente reduzido para R$ 400 mil !!!

Viva o Brasil !

Baileiro contou também que das 1.100 casas que o governador Geraldo Alckmin prometeu construir  para as vítimas do Massacre, 500 estão prometidas desde 2005.

E nesta área onde teoricamente serão construídas 500 casas,  60% ficam numa  reserva ambiental.

Ele descreveu os diversos movimentos para tentar uma negociação com desapropriação da área, ainda dias antes do Massacre.

Dessas reuniões participaram representantes do Governo de São Paulo, do Ministério das Cidades e da área em que opera o Ministro (de que ?) Gilberto Carvalho.

A prefeitura de São José dos Campos costumava ser representada nesses encontros por funcionários de terceiro escalão.

A Juíza Marcia Loureiro – veja aqui memorável entrevista em que ela considera “admirável” o papel da PM – sabia dessas negociações e de um protocolo de intenções que previa a desapropriação, assinado em 16 de janeiro, seis  dias antes do Massacre. 

Da mesma forma, a Juíza sabia do acordo assinado entre o senador Eduardo Suplicy e o deputado Ivan Valente, com advogados de Nahas e da massa falida, referendado pelo Juiz da Vara de Falências, que prorrogava a reintegração por 15 dias, para tentar um acordo.

Esse documento é de 18 de janeiro, quatro dias antes do Massacre.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Petição condena defesa de assassinatos feita por comentaristas da Globo

Texto publicado em: Carta Maior
Foto: Reprodução


"Ao divulgar a defesa da prática do assassinato como meio de fazer política, a Rede Globo dá as mãos ao fundamentalismo – não importa se de natureza religiosa ou ideológica – e abre um precedente muito perigoso no Brasil", diz petição. No dia 15 de janeiro deste ano, o jornalista Caio Blinder, da Rede Globo, defendeu abertamente no programa Manhattan Conection o assassinato de cientistas iranianos como um meio válido de fazer política.
Um grupo de jornalistas, professores e estudantes decidiu criar um abaixo-assinado 'contra a defesa explícita da prática de assassinatos como meio de fazer política, perpetrada por comentaristas da Rede Globo'. No dia 15 de janeiro deste ano, o jornalista Caio Blinder defendeu abertamente no programa Manhattan Conection o assassinato de cientistas iranianos como um meio válido de fazer política. O comentário foi apoiado por Diogo Mainardi, outro comentarista da Globo. A petição que está circulando na interne afirma:




Srs. Diretores da Rede Globo

Causa profunda surpresa, indignação e perplexidade assistir a um programa de vossa emissora em que jornalistas, comentaristas e palpiteiros assumam a defesa explícita da prática de assassinatos como meio válido de fazer política.

Isso foi feito abertamente, no dia 15.01.2012, por Diogo Mainardi e Caio Blinder, ambos empregados da Rede Globo (o trecho em questão pode ser acessado pelo link:
http://www.youtube.com/watch?v=kH3oThn1l7g&feature=youtu.be

Depois de fazer brincadeiras de gosto muito duvidoso sobre a sua suposta condição de agente do Mossad (serviço secreto israelense), Caio Blinder alegou que os cientistas que trabalham no programa nuclear iraniano são empregados de um “estado terrorista”, que “viola as resoluções da ONU” e que por isso o seu assassinato não constituiria um ato terrorista, mas sim um ato legítimo de defesa contra o terrorismo. Trata-se, é óbvio, de uma lógica primária e rudimentar, com a qual Mainardi concordou integralmente.

Parece não ocorrer a ambos o fato de que o Estado de Israel é liderança mundial quando se trata em violar as resoluções da ONU, e que é acusado de prática de terrorismo pela imensa maioria dos países-membros da entidade. Será que Caio Blinder defende, então, o assassinato seletivo de cientistas que trabalham no programa nuclear israelense (jamais oficializado, jamais reconhecido mas amplamente conhecido e documentado)?

Ambos, Caio Blinder e Diogo Mainardi - se associam ao evangelista fundamentalista estadunidense Pat Robertson, que, em abril de 2005, defendeu em rede nacional de televisão, com “argumentos” semelhantes, o assassinato do presidente venezuelano Hugo Chávez, provocando comentários constrangidos da Casa Branca.

Ao divulgar a defesa da prática do assassinato como meio de fazer política, a Rede Globo dá as mãos ao fundamentalismo – não importa se de natureza religiosa ou ideológica – e abre um precedente muito perigoso no Brasil. Isso é inaceitável.

Atenção: não defendemos, aqui, qualquer tipo de censura, nem queremos restringir a liberdade de expressão. Não se trata de desqualificar ideias ou conceitos explicitados por vossos funcionários. O que está em discussão não são apenas ideias. Não são as opiniões de quem quer que seja sobre o programa nuclear iraniano (ou israelense, ou estadunidense...), mas sim o direito que tem uma emissora de levar ao ar a defesa da prática do assassinato, ainda mais feita por articulistas marcadamente preconceituosos e racistas. Em abril de 2011, o mesmo Caio Blinder qualificou como “piranha” a rainha Rania da Jordânia, estendendo por meio dela o insulto às mulheres islâmicas. Mainardi é pródigo em insultos, não apenas contra o Islã mas também contra o povo brasileiro.

Se uma emissora do porte da Globo dá abrigo a tais absurdos, mais tarde não poderá se lamentar quando outros começarem a defender, entre outras coisas, a legitimidade de se plantar bombas contra instalações de vossa emissora por quaisquer motivos, reais ou imaginários – por exemplo, como forma de represália pelas íntimas relações mantidas com a ditadura militar no passado recente, pela prática de ataques racistas contra o Islã e o mundo árabe, ou ainda pelos ataques contumazes aos movimentos sociais brasileiros e latino-americanos.

Manifestações como essas de Caio Blinder e Diogo Mainardi ferem as normas mais elementares da convivência civilizada. Esperamos que a Rede Globo se retrate publicamente, para dizer o mínimo, tomando distância de mais essa demonstração racista de barbárie.

Agradecemos a atenção.