quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PT se acovarda diante da mídia


Texto publicado em: FNDC

Por Maurício Caleiro
Blog Cinema & Outras Artes

Determinada pela presidência do PT, a decisão do deputado Odair Cunha (MG), relator da CPI do Cachoeira, de deixar de indiciar cinco jornalistas suspeitos de ligação com o crime organizado – entre eles Policarpo Júnior, editor-chefe da Veja – e de abdicar da sugestão de que o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, seja investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público tem causado indignação entre a militância petista, apoiadores do governo e cidadãos preocupados com o atual estágio das relações entre política, mídia e Justiça no Brasil.

Instalada a duras penas, a CPI representou uma rara oportunidade de promoção de uma investigação séria sobre as ligações entre mídia e crime organizado no país, a partir das para lá de suspeitas relações entre o criminoso condenado "Carlinhos" Cachoeira e a revista Veja. Tal oportunidade está perdida, e, embora a responsabilidade por tal retrocesso deva ser repartida com os demais membros da aliança governista – o PMDB, notadamente -, ele corrobora uma constatação que se difunde entre um número cada vez maior de pessoas: a de que, não importa o que a mídia apronte, o PT está acovardado e não reagirá.

Reação corporativa

Além da saraivada de ataques disparados pela imprensa, nos últimos dias, contra o indiciamento dos jornalistas – categoria profissional que, no Brasil, parece estar acima das leis – e do corporativismo extremado do Ministério Público em defesa de Gurgel, rondam o recuo petista ameaças menos ou mais veladas advindas do potencial supostamente explosivo da divulgação da correspondência entre o ex-presidente Lula e ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, indiciada na última sexta-feira pela Polícia Federal, com estridente alarde, mesmo para os padrões brasileiros.

Ainda que remota, a possibilidade de que Lula venha se candidatar a governador de São Paulo em 2014, com grandes chances de estabelecer hegemonia petista no município, no estado e no país, tem levado a mídia corporativa, linha-auxiliar do tucanato, a recrudescer as manifestações de ódio contra o ex-presidente, num exemplo claro do conflito de classes e de disputa de poder – e da posição que, neles, a mídia, que idealmente deveria buscar a imparcialidade, assume. Isso inclui, como índice de baixeza operacional da mídia, o desprezo pelo tratamento discreto da vida afetiva dos ex-presidentes da República, norma rigidamente seguida em relação a Fernando Henrique Cardoso, mas que as presentes insinuações em relação a Lula e Rosemary mandam às favas. Neste momento, reside no fuçar de e-mails e telefonemas entre eles a "grande esperança branca" do conservadorismo brasileiro – uma aposta, a meu ver, fadada ao fracasso.

O caso Rosemary
Dadas as condições materiais tipicamente de classe média de Rosemary e a vagueza das acusações de tráfico de influência - ainda mais contra uma agente radicada em São Paulo, longe do poder concentrado no Planalto Central - não se deve descartar a hipótese de que, assim como ocorreu com Erenice Guerra, com Luiz Gushiken e com Orlando Silva, trate-se, ao final, de mais um factoide para abastecer a mídia de manchetes escandalosas contra Lula e o PT. O modo como os jornais têm tratado as perfeitamente aceitáveis duas viagens oficiais ao ano efetuadas pela ex-secretária na última década– chamando-as de "a volta ao mundo de Rosemary" – sugere exatamente isso.

Já vimos esse filme várias vezes, e a sensação de déjà vu é inevitável: se, ao final, a acusada for proclamada inocente, como aconteceu com os personagens citados, uma notinha escondida na página 11 será a compensação pela enxurrada de manchetes e reportagens televisivas. Os danos morais, a desqualificação pessoal, o tratamento como criminoso dispensado a quem é apenas suspeito, o direito de resposta, o ouvir o outro lado? São detalhes que, naturalmente, não requerem o instrumento anacrônico da Lei de Imprensa, que a sapiência e o espírito democrático reinantes no STF extinguiram. Deixemos tudo à autorregulação, como sugeria o saudoso Ayres Britto.

Ufanismo fora de lugar
Os entusiastas do governo nas redes sociais dedicam horas e horas, diariamente, a prognosticar um golpe de Estado iminente, a destilar seu ódio contra o STF e a rebater todas as bobagens tendenciosas que Ricardo Noblat e Reinaldo Azevedo escrevem – o que dá mais audiência a tais "blogueiros", provocadores profissionais a soldo dos interesses da plutocracia mediática. Se esses internautas direcionassem uma pequena parte de sua energia a fins mais concretos – como pressionar o governo que apoiam a confrontar a mídia venal e a cumprir os compromissos assumidos em campanha -, não só aspossibilidades de ruptura institucional tornar-se-iam mais remotas, mas, entre outras áreas, seria outra a situação da saúde, da segurança pública e da educação (onde, conforme anunciado ontem, o Brasil ficou em 39o. lugar entre 40 países concorrentes no ranking do Índice Global de Habilidades Cognitivas e Realizações Profissionais, evidencia que desmistifica de contraria o discurso ufanista predominante nessa área durante as administrações petistas). Além disso, poderíamos ao menos vislumbrar a possibilidade de regular a ação da mídia de acordo com parâmetros éticos

Ao invés disso, temos um cenário em que, como resume um dos maiores estudiosos da mídia no país, Venício A. de Lima, "Apesar do trabalho desenvolvido há décadas por pessoas e/ou entidades da sociedade civil, e apesar do inegável aumento da consciência coletiva sobre a centralidade da mídia na vida cotidiana, não tem havido resposta correspondente dos poderes da República no sentido da proposta e/ou implementação de políticas públicas que promovam a universalização do direito à comunicação em nosso país".

Paz sem voz não é paz, é medo
O fato de a arena comunicacional do país ser dominada por uma mídia corporativa que age de forma parcial e partidarizada, tendo como métodos rotineiros a desqualificação agressiva, o escândalo e a mentira é uma herança do capitalismo selvagem e do patrimonialismo que por décadas vigeu no país – açulados, na última década, pela perda progressiva de poder e pelo ódio de classes.

Já o fato de tal distorção antidemocrática permanecer ativa e impune durante uma década de administração federal petista é resultado da omissão, pusilanimidade e covardia - e, quem sabe, de interesses não confessos – que têm caracterizado a inação do Partido dos Trabalhadores no que concerne à sua relação com a mídia, na qual não se limita a apanhar calado: continua a encher as burras das editoras e corporações midiáticas que, suspeitas de conluio com o crime organizado, o atacam e à democracia.

Como assinala Saul Leblon, em artigo de leitura obrigatória, o petismo no poder parece resignado apés assinar uma "pax branca que concede ao conservadorismo o pleito da hegemonia intocável na esfera da comunicação. Esse conformismo, que hoje desqualifica reputações, envenena o jogo político e deturpa o debate democrático, pode vir a ter consequências ainda mais graves, institucionalmente traumáticas, para o partido e, pior, para o país. E fica cada vez mais evidente que o PT nada fará contra o inimigo que alimenta.

Foto: Internet
Odair Cunha - Relator da CPI do Cachoeira

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A CPMI de Cachoeira e o papel da mídia


Testo publicado em: FNDC

Luis Nassif
Advivo


O papel moderno da imprensa, no mundo, tem dois divisores de água.

O primeiro, legítimo, o episódio Watergate, no qual um jornal (The Washington Post), com um jornalismo rigoroso e corajoso, logrou derrubar o presidente da República da

maior Nação democrática do planeta.

O segundo, tenebroso, o processo ao qual foi submetido o magnata da mídia, Rupert Murdoch, depois de revelados os métodos criminosos do seu tabloide, "The Sun", para obter reportagens sensacionalistas.

O crime do The Sun foi ter se envolvido com baixos e médios escalões da polícia para atentar contra o direito à privacidade de cidadãos ingleses.

***

O relatório da CPMI de Cachoeira, traz dados muito mais graves do que os crimes do "The Sun". Mostra ligações diretas entre jornalistas e o crime organizado.

A acusação maior é contra a revista Veja e seu diretor em Brasília, Policarpo Jr. O relatório mostra, com abundância de detalhes, como Policarpo era acionado para derrubar autoridades e servidores públicos que incomodassem Carlinhos Cachoeira, atacar concorrentes do marginal e como encomendava dossiês a ele, muitos obtidos por métodos criminosos.

***

Já em 2008, a série "O caso de Veja" - que publiquei na Internet - mostrava os resultados dessa parceria.

Um esquema aliado de Cachoeira havia sido afastado dos Correios pelo esquema Roberto Jefferson. Jairo (o araponga de Cachoeira) armou um grampo em cima de um diretor, Maurício Marinho, recebendo propina de R$ 3 mil. A gravação foi entregue a Policarpo, que a considerou insuficiente. Providenciou-se outra gravação, aprovada por Policarpo.

Divulgado o grampo, caiu toda a estrutura montada por Jefferson e entrou a de Cachoeira. Veja compactuou com o novo grupo, mesmo sendo Policarpo conhecedor íntimo do esquema criminoso por trás dele.

Dois anos depois, a Polícia Federal implodiu o novo esquema. E a revista manteve-se em silêncio, preservando Cachoeira.

***

Nos estudos sobre as chamadas OrgCrim (organizações criminosas), em nível global, identificam-se braços nos três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - e também na mídia. O relatório descreve bem as funções da organização de Cachoeira no país.

Cachoeira ajudou a eleger o ex-senador Demóstenes Torres. Veja transformou-o em uma figura política poderosa, com sucessivas matérias apontando-o como o paladino da luta contra a corrupção. Com o poder que se viu revestido por Veja, Demóstenes transitava em repartições, junto a Ministros do Supremo, aumentando o poder de lobby da quadrilha de Cachoeira.

***

Veja é um ponto fora da curva no jornalismo brasileiro. Mas não ficou sozinha nessa parceria com o crime.

Um levantamento sobre as premiações do jornalismo investigativo nas últimas décadas vai revelar como fontes, em muitos casos, lobistas e criminosos da pior espécie.

Não apenas isso. Poderiam ser utilizados como fonte e suas informações servirem de ponto de partida para investigações mais aprofundadas. Mas eram utilizadas a seco, sem passar sequer pelo teste da verossimilhança, sem nenhum filtro, fuzilando reputações e, principalmente, atentando contra o próprio exercício do jornalismo.

Tudo ao contrário

Texto publicado em Carta Capital: Tudo ao contrário


O diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Jr., e o contraventor Carlinhos Cachoeira, que acaba de ser condenado por formação de quadrilha e tráfico de influência, mantiveram uma longa relação baseada na troca de favores. Verdade factual.


Há provas irrefutáveis de que Cachoeira executou grampos a pedido de Policarpo Jr. e organizou a operação para monitorar os movimentos de José Dirceu, cujos resultados geraram uma capa da semanal da Abril. Provado está também que o ex-senador Demóstenes Torres ganhou as célebres páginas amarelas de Veja, prontas a apresentá-lo como um varão de Plutarco, em atenção a uma solicitação de Cachoeira. Investigações da Polícia Federal revelaram que, durante a feliz parceria, o profissional e o contraventor mantiveram mais de 200 conversações pelo telefone.

Situações similares em outros países provocaram a expulsão de jornalistas não somente de suas redações, mas também, e sobretudo, das próprias entidades da categoria. Por ter formulado acusações falsas, um diretor de redação italiano pagou recentemente pela culpa do seu jornal e foi condenado a alguns anos de reclusão. No Reino Unido, Rupert Murdoch teve de sair do país por ter praticado façanhas muito parecidas com aquelas cometidas pela Veja de Policarpo Jr.

No Brasil, causa surpresa, se não espanto, o fato de que o deputado Odair Cunha, relator da CPI do Cachoeira, peça o indiciamento do diretor da sucursal abriliana entre o de outros cidadãos sob suspeita, encabeçados pelo governador Marconi Perillo. Solicita também investigação a respeito do procurador-geral da República Roberto Gurgel. Ao todo, 46 nomes, e muitos jornalistas, embora sem a ressonância de Policarpo Jr. Donde já me apresso a preparar meu coração e meus ouvidos para a tradicional ladainha, a denunciar o assalto à liberdade de imprensa. Como é do conhecimento até do mundo mineral esta, nas nossas latitudes, corresponde à liberdade dos barões midiáticos e dos seus sabujos de agirem como bem entendem. Manipulam, omitem, mentem.

Quando a verdade factual dos comportamentos de Policarpo Jr., e portanto da Veja e da Abril, veio à tona faz meses, até um Marinho se moveu do Rio no rumo de Brasília para um encontro com o vice-presidente da República, Michel Temer, a fim de alertá-lo sobre os riscos que a mídia da casa-grande sofreria caso o parceiro de Cachoeira fosse chamado a depor na CPI. Logo, uma figura graúda da Abril seguiu-lhe os passos para reproduzir o alerta. Se havia um plano de convocar Policarpo Jr., este abortou. Temer sabe mexer seus pauzinhos.

De todo modo, a mídia está de prontidão. Alinhados, como sempre do mesmo lado, os jornalões agora acusam o relator da CPI de ter cedido às pressões do seu partido, o PT, que dúvida! Ora, ora, acabamos de viver, nós, de uma forma ou de outra privilegiados, as consequências do processo do chamado “mensalão”. Vimos o Supremo Tribunal Federal, representante do terceiro poder da nossa democracia, perpetrar desatinos jurídicos sem conta, ao usar, inclusive, uma interpretação inaplicável nas circunstâncias. Tratou-se de um julgamento eminentemente político. Nele o STF curvou-se às pressões da mídia em vez de atentar para os sentimentos da maioria da população, desinteressada do êxito da demanda. Nesta edição leiam, a propósito, a instrutiva coluna de Marcos Coimbra.

Não pretendo afirmar, com isso, que o PT no poder não se portou como os demais partidos. Chegou ao cúmulo de imitar os tucanos dos tempos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Sim, portou-se e imitou, mas a maioria dos brasileiros está mais atenta aos resultados dos governos Lula e Dilma. Para a mídia, entretanto, só pesam os interesses da casa-grande, e a determinação apoia-se com firmeza inaudita na desfaçatez e na prepotência, de sorte a me arriscar a um vaticínio: o pedido de indiciamento de Policarpo Jr., este no mínimo, vai naufragar no oblívio. Donde, as raposas podem sossegar.

Há coisas que não entendo. Consta que a história é escrita pelos vencedores, no entanto, na hora de vazar as informações básicas a respeito do seu relatório, o valente Odair Cunha, que, aliás, começou a fraquejar no dia seguinte à divulgação do relatório, entregou o ouro ao Jornal Nacional da Globo. O qual, está claro, nada falou a respeito de Policarpo Jr. No fundo, até os senhores do poder petista, salvo exceções, gostam de aparecer no vídeo global ou nas páginas amarelas de Veja.

Observem: houvesse eleições presidenciais hoje, Dilma Rousseff esmagaria qualquer competidor da oposição. E Lula ganhou anteontem a parada paulistana ao levar Haddad à prefeitura contra o cada vez mais preparado José Serra. Não consigo escapar ao costumeiro diálogo com os meus botões. Será que, neste singular, insólito, quem sabe único país chamado Brasil, os vencedores atuam como perdedores e vice-versa?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A birra de ‘O Globo’ com os pobres


Texto publicado em: Carta Capital

Por:
Luis Nassif


Não se entende onde o jornal O Globo pretende chegar com sua série “Os mercadores da miséria”, criticando os programas sociais, especialmente Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria.


Foto: Governo do Piauí
Na chama da série, o jornal promete:

“(…) O Brasil Sem miséria, programa criado pela presidente Dilma para erradicar a pobreza extrema, tem sido alvo frequente de fraudes, revelam Alessandra Duarte e Carolina Benevides numa série de reportagens que O GLOBO inicia hoje”.

***

Qualquer realidade complexa – uma grande empresa, um organismo estatal ou privado, um programa de governo – pode ter grandes virtudes e pequenos defeitos; ou grandes defeitos e pequenas virtudes.

Se o veículo for mal intencionado, basta dar destaque aos pequenos defeitos (quando for para denunciar) ou às pequenas virtudes (quando for para enaltecer). E esquecer que existe a estatística para avaliar o peso tanto de um quanto de outro.

***

Se quisesse criticar o modelo de concessão de aeroportos, as dificuldades do PAC (Plano de Ação Continuada), a barafunda burocrática, os desperdícios da administração pública, o jornal teria um bom material jornalístico.

Mas a birra do jornal é com programas voltados aos mais necessitados.

***

A principal “denúncia” de O Globo, manchete principal, foi do gato que recebia como beneficiário e de dono de Land Rover que seria beneficiário de R$ 60,00 por mês.

O que deixou de contar:

- O fato ocorreu em 2009, muito antes da criação do Brasil Sem Miséria.

- Toda família matriculada em programas sociais precisa submeter as crianças a exame médico. Quando a família não apareceu, o médico foi atrás da criança e descobriu tratar-se de um gato.

- Descoberto o golpe, pelos próprios mecanismos do programa, o dono foi denunciado à polícia, está respondendo por dois crimes, inclusive pelo crime de falsidade ideológica.

Tal fato ocorreu há 4 anos e foi objeto de inúmeras reportagens na época. De lá para cá passaram três ministros e dois presidentes pelo programa. Qual a razão de ludibriar assim os leitores requentando uma notícia velha?

***

A outra denúncia, sobre o dono do Land Rover, além de antiga, foi apresentada de forma incorreta. O tal empresário registrou laranjas no BF. Tratava-se de um explorador, que foi identificado e processado.

Outra “denúncia” foi o de uma senhora que afirmou não receber mais o benefício. Vai-se conferir, ela deixou de atualizar seu cadastro. Exige-se a atualização de cadastros justamente para evitar fraudes. Mas o jornal condena o programa por ter gato, e condena por não ter gato.

***

A maioria absoluta dos episódios de fraude relatados foi desvendada pelos próprios sistemas de controle do Bolsa Família. Mesmo que tivessem sido levantados por terceiros, ainda assim são estatisticamente irrelevantes.

Qual a intenção de levantar meia dúzia de casos para desacreditar um programa que assiste a milhões de miseráveis?

Intenção eleitoral, não é. As eleições de 2012 já aconteceram e o BF já está assimilado pelos eleitores. Tanto assim, que o PT não se deu bem no Nordeste. Quem quiser coração e mentes desses eleitores, até o governo, daqui para frente terá que oferecer outros benefícios.

Só pode ser birra com pobre.

domingo, 4 de novembro de 2012

As milionárias doações privadas para as campanhas eleitorais nos Estados Unidos

Quem financia as campanhas de Obama e Romney?

Candidato republicano registra maior volume de doações

Mary Stassinákis, no Monitor Mercantil



Bruxelas - As eleições presidenciais norte-americanas deste ano são, seguramente, as mais caras na história, com os dois candidatos básicos tendo desde o início definido altíssimos alvos de fluxo de recursos e os capitais dos riquíssimos doadores têm inundado os super PACs (Political Action Commitiees), as conhecidas comissões independentes de ação política.

Os doadores individuais (pessoas físicas) dos candidatos à Presidência dos EUA podem contribuir com até US$ 2.500 para os vários comícios dos candidatos nos estados norte-americanos e mais US$ 2.500 para as eleições finais. Contudo, os grupos independentes denominados Super PACs não têm limites quanto ao volume que poderão arrecadar de pessoas físicas, jurídicas (empresas) e sindicatos de trabalhadores.

Desde que foi criado e adotado o sistema público de financiamento, nenhum candidato aceitou mais recursos públicos para as eleições gerais ou os limites de despesas a serem pagos.

Antes desta decisão, havia sido tornado claro quão profundamente tem sido mudado o ambiente do financiamento da campanha pré-eleitoral com a decisão da Suprema Corte dos EUA e da Comissão Federal Eleitoral. Um tribunal dividido aprovou por 5 a 4 votos que o governo não pode proibir as doações políticas independentes realizadas por empresas, assim como por sindicatos de trabalhadores e outras organizações para os candidatos das eleições. E em junho deste ano, a Suprema Corte dos EUA confirmou esta decisão.

A campanha das eleições intermediárias de 2010 resultou na ascensão dos Super PACs, ou comissões de ação política. Nicholas Confessore, articulista do The New York Times, especializado em questões econômicas das campanhas pre-eleitorais, definiu o Super PAC como uma comissão política cujo objetivo principal é de influenciar as eleições e que poderá receber ilimitadas doações de empresas, sindicatos ou ricos particulares, desde que os recursos arrecadados sejam gastos independentemente da campanha do candidato.

Em consequência, os riquíssimos doadores (pessoas físicas) canalizaram centenas de milhões de dólares este ano para as eleições do Congresso dos EUA, recursos estes que, em sua maioria, foram direcionados a apoiar os republicanos. Nas primeiras sete semanas deste ano, cerca de duas dúzias de pessoas, casais ou empresas doaram US$ 1 milhão ou mais cada um aos Super PACs republicanos, resultando que o total das doações totalizou (naquela época) mais de US$ 50 milhões. De acordo com os últimos dados, o total de doações aos PACS republicanos totaliza hoje mais de US$ 110 milhões.

No início de fevereiro deste ano, o presidente Barack Obama sinalizou aos riquíssimos doadores do Partido Democrata que gostaria que começassem contribuindo em um grupo externo que apoia sua reeleição, revertendo uma posição prolongada sua, porque já estava enfrentando um profundo déficit econômico de vital importância, em relação com seu adversário, Mitt Romney.

Assim, aos poucos, seus conselheiros e membros de destaque da campanha pré-eleitoral começaram a programar discursos de Obama em eventos filantrópicos do Priorities USA, o maior Super Pac democrata, cujas arrecadações de recursos já foram superadas pelo Super PAC republicano.

Assim, até setembro deste ano conseguiram atrair as doações dos ríquíssimos doadores que haviam apoiado os republicanos. E, de acordo com últimos dados, o total das doações já atingiu US$ 50 milhões. Aliás, o megainvestidor George Soros doou US$ 1 milhão à Priorities USA no final de setembro passado.

Quais são estes superdoadores?

Na relação da Comissão Federal Eleitoral dos EUA são encontrados nomes bastante conhecidos de riquíssimos doadores, grandes hedge funds, empresas private equity, empresários e até atores e diretores de Hollywood.

Super PAC Restore Our Future

Apoia Mitt Romney

Total de recursos arrecadados, de acordo com dados da Comissão Federal Eleitoral até o final de setembro passado: US$ 110,5 milhões

Doadores e doações

- Bob Perry - empresa que foi um importante doador do Swift Boat Veterans For Truth, grupo que ajudou a minar o candidato dos democratas John Kerry em 2004. Doação: US$ 10 milhões.

- Sheldon Adelson - multimilionário, construtor do hotel Venetian, assim como o homônimo cassino em Las Vegas. Doação: US$ 5 milhões.

- Mirian Adelson, mulher de Sheldon. Doação: US$ 5 milhões.

- Bill Koch - irmão dos conservadores doadores David e Charles Koch. É proprietário da empresa Oxbow Carbon, a qual é também doadora, e divide sua direção com Huron Carbon. Total de doações: US$ 4 milhões.

- Steven Lund - proprietário da Nu Skin, empresa de produtos para tratamento da pele e cosméticos. Doação: US$ 3 milhões.

- Julian Robertson - O mais famoso do setor de hedge funds e administrador da Tiger Management. Doação: US$ 1,3 milhão.

- Crow Holdings - empresa de investimentos. Total de doações: US$ 1,3 milhão.

- Harold Simmons - milionário banqueiro e CEO da Contran Corp. Doação: US$ 1,3 milhão.

- Frank Vander Sloot - empresário do setor de cosméticos. Doação US$ 1,1 milhão.

- The Villages of Lake Sumter - Comunidade de 13 empresas na Flórida. Doação: US$ 1,7 milhão.

- Kenneth Griffin - administrado de hedge fund em Chicago e, CEO da empresa Citadel LLC. Doação US$ 1.1 milhão.

- Bob Parsons - bilionário e fundador do web hosting Go Daddy. Doação: US$ 1 milhão.

- Jim Davis - presidente da New Balance - Doação: US$ 1 milhão.

- Stanley Herzog - CEO da Herzon Corp. Doação: US$ 1 milhão.

- Bruce Kovner - administrador do hedge fund da Caxton Alternative Management. Doação: US$ 1 milhão.

- Rocco Ortenzio - fundador da Select Medical Corp. Doação: US$ 1 milhão.

- John Chils - fundador da empresa private equity JW Childs Associates LP, em Flórida. Doação: US$ 1 milhão.

- Edward Conard - megainvestidor em Nova York. Doação: US$ 1 milhão.

- John Kleinheinz - administrador do hedge fund da Kleinheinz Capital Partners: Doação: US$ 1 milhão.

- J.W Marriott Junior - presidente e CEO da Marriott Internacional. Doação: US$ 1 milhão.

- Robert McNair - proprietário de time de futebol. Doação: US$ 1 milhão.

- Robert Mercer - hedge fund manager da Renaissance Technologies. Doação: US$ 1 milhão.

- John Paulson - hedge fund manager da Paulson & Co. Doação: US$ 1 milhão.

- Paul Singer - hedge fund manager. Doação: US$ 1 milhão.

- Rooney Holdings Inc. - proprietário da Manhattan Construction. Doação: US$ 1 milhão.

- Paul e Sandra Edgerly - proprietários da Paul Edgerly. Doação: US$ 1 milhão.

- Steven Webster - executivo da private equity Avista Capital. Doação US$ 1 milhão.

- Robert Brockman - executivo da revenda de automóveis Reynolds and Reynolds. Doação: US$ 1 milhão.

- Miguel Fernandez - presidente da MBF Healthcare Partners. Doação: US$ 1 milhão.

- Ranco Group Inc. - do bilionário, Ira Rennert. Doação: US$ 1 milhão.

- Odyssey Re Holdigns Corp. Empresa de resseguros. Doação: US$ 1 milhão.

Super PAC: Priorities USA Action

Apoia Barack Obama

Total de recursos arrecadados até o final de setembro deste ano: US$ 50,1 milhões.

Doadores e doações:

- James Simons - hedge fund manager da Renaissance Technologies. Doação: US$ 3,5 milhões.

- Fred Eychaner - Fundador da Newsweb Corp. Doação: US$ 3 milhões.

- Jet Katzenberg - CEO da Dream Works Animation. Doação: US$ 3 milhões.

- Steve Mostyn - Advogado. Doação: US$ 2 milhões.

- Irwin Mark Jacobs - Ex-CEO da Qaulcomm. Doação: US$ 2 milhões.

- Jon Stryker - Ativista político e administrador da empresa de serviços médicos de seu avô. Doação: US$ 2 milhões.

- Anne Cox Chabers - filha do milionário James M. Cox, fundador da Cox Enterprises. Doação: US$ 1.5 milhão.

- National Air Traffic Controlers Association. Doação: US$ 1.5 milhão.

- Daniel Abraham - bilionário e presidente da Abraham Center For Middle East Peace. Doação: US$ 1,2 milhão.

- Barbara Stefel - aposentada da Coral Gables. Doação: US$ 1.1 milhão.

- Kareen Ahmed - CEO da Landmark Medical Management. Oação: US$ 1 milhão.

- David Boies Jr. - Advogado. Doação: US$ 1 milhão.

- Morgan Freeman - Ator de cinema. Doação: US$ 1 milhão.

- Amy Goldman - Escritora e herdeira da fortuna de Sol Goldman. Doação: US$ 1 milhão.

- Franklin Haney - CEO da FHL. Doação: US$ 1 milhão.

- Bil Maher - Ator de stand-up. Doação: US$ 1 milhão.

- Mel Heifetz - Milonária e executiva do setor de ativos imóveis. Doação: US$ 1 milhão.

- Michael Snow - Advogado. Doação: US$ 1 milhão.

- Steven Spielberg - Diretor de cinema. Doação: US$ 1 milhão.

- An Wyckoff - Milionária. Doação US$ 1 milhão.

- Service Employees International Committee on Political Educacion - Doação: US$ 1 milhão.

- Associação Nacional dos Técnicos e Aprendizes Hidráulicos - Doação: US$ 1 milhão.

Bônus querem Obama e ações, Romney

A reeleição do presidente dos EUA, Barack Obama, semana que vem será positiva para os bônus, enquanto uma vitória de seu adversário republicano, Mitt Romney, será melhor para as ações, de acordo com pesquisa do Barclays no âmbito de investidores institucionais.

Esta pesquisa , que foi realizada entre investidores profissionais que administram recursos totalizando mais de US$ 10 trilhões, chegou no momento quando os dois candidatos preparam-se para os últimos dias de suas campanhas pre-eleitorais, em uma muito dura - conforme tem sido revelada - luta e, com as pesquisas mostrando que seus percentuais são muito próximos. Quem será o eleito?

Mitt Romney, multimilionário e co-fundador da Bain Capital, tem sido caracterizado como o candidato preferido das empresas para as eleições da próxima terça-feira, enquanto se Barack Obama conquistar uma segunda gestão como presidente, os investidores preferirão os bônus, mas são divididos sobre a direção que tomarão as ações, conforme mostrou a pesquisa.

Muitos prevêem um pequeno e curto sell-off nas ações se Obama vencer ou, talvez, uma pequena corrida se Romney conseguir acertar o passo rumo à Casa Branca. A vitória de Obama seria provável ser interpretada como manutenção do status quo - segundo o Grupo de Análise do Barclays - enquanto, como acrescenta, uma vitória de Romney é bem provável que possa propor uma mudança de direção aos investidores institucionais, por intermédio de melhores perspectivas em torno do crescimento.

Seja quem for o vencedor estará diante de um iminente abismo fiscal no início do ano que vem, quando os automáticos cortes de gastos e o encerramento das reduções tributárias da época de Bush Jr atingirão a economia em cheio.

Um beco sem saída para o Congresso dos EUA, o qual poderia afetar a capacidade do governo para conseguir um acordo a fim de evitar uma evolução assim, dirá respeito aos investidores que apostam, principalmente, em vitória de Obama, de acordo com o Grupo de Análise do Barclays. Se Romney vencer, as maiores preocupações serão em torno de se ele dará um fim na mais flexível política monetária que desenvolve o Federal Reserve (Fed).

Romney já declarou sua oposição ao último turno da flexibilização quantitativa do Fed, conhecido como QE3 e, ao presidente do Fed, Ben Bernanke, o qual, deseja um terceiro turno, destacando que, pode convocar uma mudança na política do Fed.

A flexibilização da política monetária já ganhou muitos pontos na preferência geral, porque tem, claramente, ajudado a manter a economia norte-americana longe da queda com duplo fundo (double dip), embora, seus críticos sustentam que, no final, submete a maior risco o balanço do Fed.

Estas preocupações sobre a influência de Romney sobre o Fed, podem explicar o motivo dos investidores que preferem esperar o sell-off nos mercados de bônus após uma vitória de Romney, ou uma corrida, se Obama conseguir uma segunda gestão.

sábado, 3 de novembro de 2012

Revolução Bolivariana constrói o poder popular


Texto publicado em: Pátria Latina


O povo venezuelano constituiu 44.196 conselhos comunais em todo o país, como parte da política de fortalecimento do poder popular que a Revolução Bolivariana desenvolve, informou na quarta-feira (31) a ministra para as Comunas e Proteção Social, Isis Ochoa. A ministra ressaltou que a política do presidente Hugo Chávez deu protagonismo à organização comunal, com o que garante o exercício da democracia plena.

Em entrevista transmitida pelo canal privado Venevisión, Ochoa pontuou que às organizações de base são transferidos não apenas recursos, como os 89 milhões de bolívares aprovados na última terça-feira (30) no Conselho de Ministros para comunidades do estado de Lara, mas que são fornecidos também meios de produção, acompanhamento técnico, formação e metodologia.

A Lei Orgânica sancionada en 2009 define os conselhos comunais como instâncias de participação, articulação e integração entre os cidadãos e as diversas organizações comunitárias, movimentos sociais e populares, que permitem ao povo organizado exercer o governo comunitário e a gestão direta das políticas públicas e projetos orientados a corresponder às necessidades, potencialidades e aspirações das comunidades.

Ochoa explicou que o objetivo da política de apoio ao povo organizado é planificar a gestão do público com a comunidade e que são ações previstas no artigo 158 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, relativo à descentralização. "Estamos aproximando as dinâmicas de trabalho à comunidade para restituir o poder ao povo", agregou.

"Há um nível de decisão na prática e no exercício da democracia, fundamental, que é a comunidade, onde está a vida da coletividade. Esse nível estava oculto. Recordemos que nossa democracia era representativa e se dizia que seu único exercício era através do voto", expressou.

Ochoa ressaltou que hoje em dia existe uma democracia participativa, protagonista e revolucionária, que "implica a participação da comunidade nas decisões da vida cotidiana".

Do mesmo modo, enfatizou que esta política não implica o desaparecimento das prefeituras e recordou que a Carta Magna, em seu artigo 173, atribui aos municípios a possibilidade de criar condições para gerar entidades locais dentro de seu território.



Sem discriminação

Ochoa explicou que os conselhos comunais começaram a ser formados em particular "nos territórios com condições sociais adversas, com maiores índices de pobreza extrema. O governo comunal consegue chegar no território onde a arquitetura e o desenho do Estado burguês neoliberal não tinha chegado".

A ministra descartou que exista discriminação política na constituição destas instâncias e precisou que sua conformação obedece a "um trabalho metodológico que aborda o território segundo as necessidades fundamentais".

"Não se pede a ninguém uma carteira do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) para verificar as necessidades da comunidade", pontuou.

"Há comunidades às quais foi negado o acesso à água potável. Agora o poder popular entregará recursos para garantir a distribuição efetiva nas comunidades", ressaltou a ministra.

A autoridade governamental destacou ainda que graças ao apoio de mais de dez mil conselhos comunais, desde há três anos se desenvolve o plano de férias comunitário, que fez com que quase um milhão de crianças dos bairros mais pobres tenham acesso à recreação, "que é uma mercadoria no modelo neoliberal e na lógica capitalista".



Controle social

Ochoa recordou que existe uma Lei de Controle Social para garantir o bom uso dos recursos em mãos dos conselhos comunais. Este instrumento jurídico exige a prestação de contas destes grupos, ao que se soma a unidade de acompanhamento técnico integral do ministério para todos os projetos produtivos.

"O fato de que sejam transferidos recursos não significa que o governo se desprende da responsabilidade de desenvolver acompanhamento técnico para que o planificado seja executado com efetividade e deixe um saldo organizativo", acrescentou.

Igualmente, a ministra assinalou que existem mais de oito leis para o acompanhamento de organizações de base no país.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Nova bolha imobiliária está em gestação nos EUA, diz analista

Poderemos ver, em breve, um aumento da atividade econômica no setor habitacional nos Estados Unidos, à medida que os bancos dispuserem dos 40 bilhões de dólares mensais jogados no mercado como subsídios do FED para fazer a coisa funcionar e emprestar loucamente, de novo. O mercado financeiro está chantageando o governo. Os bancos estão dizendo que não farão novas hipotecas enquanto não tiverem o que querem. E o que eles querem é imunidade legal e não ficar com aconta nas mãos quando o sistema financeiro explodir mais uma vez. O artigo é de Mike Whitney.


Nova bolha imobiliária está em gestação nos EUA, diz analista
Poderemos ver, em breve, um aumento da atividade econômica no setor habitacional nos Estados Unidos, à medida que os bancos dispuserem dos 40 bilhões de dólares mensais jogados no mercado como subsídios do FED para fazer a coisa funcionar e emprestar loucamente, de novo. O mercado financeiro está chantageando o governo. Os bancos estão dizendo que não farão novas hipotecas enquanto não tiverem o que querem. E o que eles querem é imunidade legal e não ficar com aconta nas mãos quando o sistema financeiro explodir mais uma vez. O artigo é de Mike Whitney.
Mike Whitney - CounterPunch

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É possível que Richard Cordray seja hoje o homem mais poderoso nos Estados Unidos e você provavelmente nunca ouviu falar dele. Como dirigente da nova Agência de Proteção Financeira ao Consumidor dos EUA [CFPB na sigla em inglês], Cordray pode efetivamente voltar o relógio para 2005 e inflar uma outra gigantesca bolha imobiliária sem esforço algum. Tudo o que ele tem de fazer é definir o termo “hipoteca qualificada”, seguindo os critérios dos grandes bancos e – rapidamente – 40 bilhões de dólares por mês começarão a fluir em novas hipotecas. É simples assim. Eis a história contada pela Bloomberg:

Credores estadunidenses podem obter forte proteção contra ações judiciais relativas às hipotecas regulamentadas pelas regras mantidas pela Agência de Proteção Financeira ao Consumidor, de acordo com fontes ligadas à política de direito do consumidor do país.

As assim chamadas regulamentações de hipotecas qualificadas dariam a bancos, inclusive ao JP Morgan, ao Chase & Co. (JPM) e o Wells Fargo & Co. (WFC) garantias contra ações legais oriundas dos processos de subscrição de seguros, de acordo com fontes que falaram com a condição do anonimato, porque as discussões a respeito não são públicas (a agência Bloomberg noticiou assim: “A Agência de Proteção Financeira ao Consumidor dos EUA afirma que dará mais proteção aos credores”).

Então, é por isso que os bancos não têm intensificado a criação de suas hipotecas, mesmo que o FED [Banco Central dos EUA] tenha dito que comprará 40 bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas via o programa QE3 [1]? É porque querem assegurar a imunidade legal frente a ações judiciais de proprietários de imóveis que venham a ser executados injustamente. Mas por que é que Cordray os está ajudando? Por que ele está tornando mais difícil paras vítimas processarem os meliantes que as expulsam de seus lares? Seu trabalho não é proteger consumidores? Em vez disso, ele está sob o comando dos bancos. Aqui, mais do que a Bloomberg diz:

A agência do consumidor, que está negociando as regras como parte de uma ampla revisão do controle do financiamento habitacional, revelou seus planos num encontro com outras agências reguladoras ontem (17/10). Em torno de 80% dos empréstimos segurados pelo Fannie Mae (FNMA), Freddie Mac ou seguradoras governamentais, como a Federal Housing Administration Housing Administration, estariam se qualificando para dispor de um porto seguro contra ações judiciais, de acordo com dados da Agencia de Administração do Financiamento Habitacional.

Então está feito, é isso? Eles só precisam fazer um pouquinho, antes do grande anúncio. Mas preste atenção nos detalhes: “80% dos empréstimos... seriam qualificados para dispor de um porto seguro contra ações judiciais nos planos da agência”. Que piada. Fannie [Mae] e Freddie [Mac] já seguram 90% de todas as novas hipotecas, agora se vai garantir imunidade legal para contratos de hipoteca de que eles já detêm a titularidade, gratuitamente? É um grande brinde para os bancos, você não acha? Por que não dar-lhes logo as chaves do Fort Knox agora mesmo e era isso? O fato é que Cordray não deveria estar fazendo concessão alguma. A coisa toda é ridícula. Mais da Bloomberg:

As proteções cobririam empréstimos feitos com taxas de juros para os mutuários cujo endividamento não ultrapasse 43% de sua renda total.

Por quanto tempo você acha que será capaz de manter a sua cabeça acima da água se 43% do seu salário desapareceu antes mesmo que você ponha a mão nele? Não muito, eu apostaria. Na verdade, os especialistas acham que pagamento de financiamento imobiliário jamais deveria ultrapassar 33% da renda total. Então, o que isso nos diz? Diz que Cordray fez um acordo que custará ao contribuinte um pacote para cobrir as hipotecas novas que os bancos farão assim que as tintas promocionais [do anúncio do QE3] secarem. Mas tudo bem, certo, porque ao menos os bancos farão um bolo e cortarão pedados desse lixo em partes seguradas e as venderão ao FED com o dólar nas alturas. Que truque!

Pense a respeito, por um minuto. Se o FED está dizendo que comprará 40 bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas por mês, então o dinheiro da finança irá dragar contratos de hipoteca o suficiente para vender ao adquirente, certo? Porque você precisa de hipotecas para segurar hipotecas. Bem, adivinhem, os bancos não dão a mínima se os novos candidatos a obterem hipotecas pagam ou não. Por que eles se preocupariam? À medida que consigam inscrever essas hipotecas nas novas definições, eles obterão seu recurso segurado de todo jeito. Eles querem apenas ter certeza de que estarão protegidos quando Joe quebrar (porque foi atraído para um contrato de hipoteca que ele claramente não poderia pagar). Querem uma garantia de que ele não poderá processá-los alegando cláusulas frouxas para fornecimento de crédito. Agora, Joe terá de matar no peito e pagar um aluguel barato em algum lugar, porque o senhor Cordray o vendeu para os gângsters do sistema financeiro. Obrigado, Rich.

E ainda há mais: porque os bancos não estão somente buscando carta branca nas garantias de seus contratos bumerangues de hipotecas. Eles também querem estar assegurados de que não terão de arcar sequer com 1% das suas novas hipotecas-lixo. Eles acham que poderão criar tanto crédito quanto quiserem, sem qualquer risco para si mesmos ou para os seus acionistas. É uma arrogância levada ao extremo. Eis um trecho de uma segunda página no Whashington Post, do economista Mark Zandi, que explica o que está acontecendo:

Uma segunda decisão que está para ser tomada, com grandes implicações para o crédito hipotecário envolve algo chamado de regra da “hipoteca residencial qualificada”. Embora o nome seja similar, é bem diferente da definição de hipoteca qualificada, e está desenhada para coibir maus empréstimos ao forçar os credores a arcarem com uma parte dos riscos dos contratos mais arriscados de hipotecas.

Sob a lei Dodd-Frank, um credor deve arcar com 5% de qualquer empréstimo que não seja uma “hipoteca residencial qualificada” (QRM na sua sigla em inglês), de modo que, se esta for executada, o credor também perde algo. Isso em princípio faz sentido, mas, assim como no caso da regra da hipoteca qualificada, o diabo mora nos detalhes. E estes são bastante complicados, refletem os medos de regulação que os credores trabalharão duro para contornar. Mas complexidade acrescenta custos, e como resultado, empréstimos que não sejam “QRM” correm o risco de ter um custo significativamente mais elevado dos que os “QRM”. (“Definindo uma ‘hipoteca qualificada’, Marz Zandi, Wahsington Post).

Certo, isso também é complicado para você entender, Senhor Contribuinte, então vamos ao seu negócio e deixe conosco, os experts, para resolver o seu problema. Nós “cuidaremos de tudo”. Ah, por favor, Zandi, ninguém entende desse troço. Os bancos simplesmente não querem arcar com capital suficiente para cobrir o seu lixo. É isso, não é? Eles querem poder criar mais títulos tóxicos em seus falsos balanços, mas não mantêm dinheiro suficiente para pagar aos investidores quando o barco afundar. A isso se chama “retenção de risco” e não é diferente em nada de se requerer das companhias de seguro que tenham reservas o bastante para pagar os segurados em caso de sua casa incendiar. Aqui tem mais de Zandi:

Na medida em que a lei Dodd-Frank estipula que os empréstimos feitos pelas agências federais são hipotecas residenciais qualificadas, por definição o modo como as QRM são definidas ajudará a traçar o papel das agências federais no mercado de hipotecas. Se a definição for muito estreita, credores privados não poderão competir, dada a alta taxa de juros com que terão de arcar para compensar o risco excessivo. O governo deve então continuar a dominar o mercado de crédito de hipotecas no curto prazo. Por outro lado, se o Fannie Mae e o Freddie Mac vierem a ser privatizados, uma definição estreita de QRM encolheria significativamente o papel do governo no mercado hipotecário, potencialmente ameaçando a existência dos empréstimos hipotecários por 30 anos.

Ah, por favor! Esqueça o papel do governo no mercado habitacional; isso é completamente irrelevante. Aquilo em que estamos interessados é que os bancos tenham alguma grana a mais em caixa para recuperarem suas ações lixo quando o próximo zeppelin cair. Isso também é perguntar muito? O fato é que capitalismo requer capital, é simplesmente assim que funciona. Você não pode simplesmente continuar girando empréstimos sem garantia suficiente para reavê-los mesmo quando o menor dos desvios no mercado envie o sistema financeiro para o esquecimento. Credores precisam ter lastro suficiente para cobrirem as suas perdas potenciais e para evitar outro derretimento que requeira trilhões do governo para preencher o buraco negro que eles (os bancos) criaram.

Você consegue ver o que está errado aqui? Por trás de toda essa conversa barroca, os mercados estão é chantageando o governo. Eles estão dizendo que não farão novas hipotecas enquanto não tiverem o que querem. E o que eles querem é um porto seguro (imunidade legal) e não mais custos regressivos. (Hipotecas que os bancos foram forçados a refazer porque contêm “substantivas subscrições e deficiências documentais” em seus contratos.) Em outras palavras, eles não querem ficar com a conta nas mãos quando o sistema financeiro explodir, de novo. Isso significa que o modo como Cordray define “hipoteca qualificada” importa muito, porque determinará se os bancos emprestarão em padrões baratos, se aumentarão a originação de hipotecas, se estimularão o crédito para aplicações paralelas, e se darão conta do sonho de [Ben] Bernanke de inflar uma nova bolha imobiliária. É isso o que está em jogo. A definição de hipoteca qualificada pela Agência de Proteção Financeira ao Consumidor pode implicar um profundo impacto na direção da economia, então tem muita coisa em jogo, aqui.

Infelizmente, parece que Cordray tem cedido em todos os aspectos, o que significa que poderemos ver, em breve, um aumento da atividade econômica habitacional, à medida que os bancos dispuserem dos 40 bilhões de dólares mensais jogados no Mercado como subsídios do FED para fazer a coisa funcionar e emprestar loucamente, de novo.

Não parece que estamos cometendo os mesmos erros, mais uma vez?

NOTA
[1] Terceira rodada de “Quantitative Easing”, lançado pelo FED. É um programa que visa a, ao menos nominalmente, injetar dinheiro no mercado para prover o fluxo de crédito, lançado há poucos dias, pelo atual presidente do FED, Ben Bernanke.

Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O MONOPÓLIO MIDIÁTICO NA AMÉRICA LATINA

Por Fernando Arellano Ortíz, no sítio da Adital

"Não há erro: os meios de comunicação simplesmente são grandes conglomerados empresariais que têm interesses econômicos e políticos. Na América Latina, os monopólios midiáticos têm um poder fenomenal que vêm cumprindo na função de substituir os partidos políticos de direita que caíram em descrédito e que não têm capacidade de chamar a atenção nem a vontade dos setores conservadores da sociedade”. Assim o politólogo e cientista social argentino Atilio Boron caracteriza a denominada canalha midiática.

Nesse sentido, explica, "cumpre-se o que muito bem profetizou Gramsci há quase um século, quando disse que diante da ausência de organizações da direita política, os meios de comunicação, os grandes diários, assumem a representação de seus interesses; e isso está acontecendo na América Latina”. Em praticamente todos os países da região, os conglomerados midiáticos converteram-se em "operadores políticos”.



A crise do capitalismo e o triunfo de Chávez

Boron, que dispensa apresentação por ser um importante referente da teoria política e das ciências sociais em Iberoamérica, foi um dos expositores principais do VI Encontro Internacional de Economia Política e Direitos Humanos, organizado pela Universidad Popular Madres de la Plaza de Mayo, que aconteceu em Buenos Aires, entre os dias 4 e 6 de outubro.

Tópicos como a crise estrutural do capitalismo, o fenômeno da manipulação dos monopólios midiáticos e o que significa para a América Latina o triunfo de Hugo Chávez foram tratados com profundidade por esse destacado politólogo, sociólogo e investigador social, doutorado em Ciências políticas pela Universidade de Harvard e, atualmente, diretor do Programa Latino-americano de Educação a Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini, na capital argentina.

Para aprofundar sobre alguns desses temas, o Observatorio Sociopolítico Latinoamericano (www.cronico.net) teve a oportunidade de entrevistá-lo no final de sua participação em dito fórum acadêmico internacional.



Rumo ao projeto pós-capitalista

No desenvolvimento de sua exposição no encontro da Universidad Popular de Madres de la Plaza de Mayo, Boron analisou o contexto da crise capitalista.

"Hoje em dia é impossível referir-se à crise e à saída da mesma sem falar do petróleo, da água e das questões meio ambientais. Essa é uma crise estrutural e não produto de uma má administração dos bancos das hipotecas subprime”.



Recordou que, recentemente, foram apresentadas propostas por parte dos Prêmios Nobel de Economia para tornar mais suave a débâcle capitalista. Uma, a esboçada por Paul Krugman, que propõe revitalizar o gasto público. O problema é que os Estados Unidos estão quebrados e o nível de endividamento das famílias nos Estados Unidos equivale a 150% dos ingressos anuais. "Krugman propõe dar crédito ao Estado para que estimule a economia. Porém, os Estados Unidos não têm dinheiro porque decidiram salvar os bancos”.

A outra proposta é de Amartya Sem, que analisa a situação do capitalismo como uma crise de confiança e é muito difícil restabelecê-la entre os poupadores e os banqueiros devido aos antecedentes desses últimos. Por isso, essas não deixam de ser "pseudo explicações que não levam à questão de fundo. Não explicam porque caem os índices do PIB e sobem as bolsas. Ambos índices estariam desvinculados e as bolsas crescem porque os governos injetaram moeda ao sistema financeiro”.

A crise capitalista serviu para acumular riqueza em poucas mãos, uma vez que "o que os democratas capitalistas fizeram no mundo desenvolvido foi salvar os banqueiros, não os endividados, ou seja, as vítimas”.

Exemplificou com as seguintes cifras: enquanto o ingresso médio de uma família nos Estados Unidos é de 50.000 dólares ao ano, o daqueles de origem latina é de 37.000 e o de uma família negra é de 32.000, o diretor executivo do Bank of America, resgatado, cobrou um salário de 29 milhões de dólares.

Então, é evidente que cada vez mais há uma tendência mais regressiva de acumular riqueza em poucas mãos. Em trinta anos, o ingresso dos assalariados foi incrementado em 18% e o dos mais ricos cresceu 238%.

"No capitalismo desenvolvido houve uma mutação e os governos democráticos transformaram-se em plutocracias, governos ricos”. Porém, além disso, "o capitalismo se baseia na apropriação seletiva dos recursos”.

Por isso, citando o economista egípcio Samir Amin, Boron afirma sem medo que "não há saída dentro do capitalismo”.

Como alternativa, Boron sustenta que "hoje, pode-se pensar em um salto para o modelo pós-capitalista. Há algo que pode ser feito até que apareçam os sujeitos sociais que darão o ‘tiro de misericórdia’ no capitalismo. O que se pode fazer é desmercantilizar tudo o que o capitalismo mercantilizou: a saúde, a economia, a educação. Assim, estaremos em condições de ver o amanhecer de um mundo mais justo e mais humano”.



A reeleição na Venezuela

Sobre a matriz de opinião que os monopólios midiáticos da direita têm tentado impor no sentido de que a reeleição do presidente Chávez é um sintoma de que ele quer se perpetuar no poder, a análise de Boron foi contundente:

"Há um grau de hipocrisia enorme nesse tema, porque os mesmos que se preocupam com o fato de Chávez estar por 20 anos no governo, aplaudiam fervorosamente a Helmut Kohl, que permaneceu no poder por 18 anos, na Alemanha; ou Felipe González, por 14 anos, na Espanha; ou Margaret Thatcher, por 12 anos, na Inglaterra”.

"Há um argumento racista que diz que somos uma raça de corruptos e imbecis; que não podemos deixar que as pessoas mantenham-se muito tempo no poder; ou há uma conveniência política, que é o que acontece ao tentarem limar as perspectivas de poder de líderes políticos que não são de seu agrado. Agora, se Chávez instaurasse uma dinastia onde seu filho e seu neto herdassem o poder, eu estaria em desacordo. Porém, o que Chávez faz é dizer ao povo que eleja; e, em âmbito nacional, por um período de 13 anos, convocou o povo venezuelano para 15 eleições, das quais ganhou 14 e perdeu uma por menos de um ponto; e, rapidamente, reconheceu sua derrota. Então, não está dito em nenhum lugar serio da teoria democrática que tem que haver alternância de lideranças, na medida que essa liderança seja ratificada em eleições limpas e pela soberania popular”.



Confira a entrevista:

A canalha midiática assume a representação dos interesses da direita



Hoje, no debate da teoria política, fala-se de "pósdemocracia”, para significar o esgotamento dos partidos políticos, a irrupção dos movimentos sociais e a incidência dos meios de comunicação na opinião pública. Que alcance você dá a esse novo conceito?

Eu analiso como uma expressão da capitulação do pensamento burguês que, em uma determinada fase do desenvolvimento histórico do capitalismo, fundamentalmente a partir do final da I Guerra Mundial, apropriou-se de uma bandeira -que era a da democracia- e a assumiu. De alguma maneira, alguns setores da esquerda consentiram nisso. Por quê? Bom, porque estávamos um pouco na defensiva e, além disso, o capitalismo havia feito uma série de mudanças muito importantes. Por isso, a ideia de democracia ficou como se fosse uma ideia própria da tradição liberal burguesa, apesar de que nunca houve um pensador dessa corrente política que fizesse uma apologia do regime democrático. Estudavam sobre isso, possivelmente, a partir de Thorbecke ou de John Stuart Mill; porém, nunca propunham um regime democrático; isso vem da tradição socialista e marxista. No entanto, apropriaram-se dessa ideia; passaram todo o século XX atualizando-a.

Agora, dadas as novas contradições do capitalismo e ao fato de que as grandes empresas assumiram a concepção democrática, a corromperam e a desvirtuaram até o ponto de torná-la irreconhecível, perceberam que não tem sentido continuar falando de democracia. Então, utilizam o discurso resignado que diz que o melhor da vida democrática já passou; um pouco a análise de Colin Crouch: o que resta agora é o aborrecimento, a resignação, o domínio a cargo das grandes transnacionais; os mercados sequestraram a democracia e, portanto, temos que nos acostumar a viver em um mundo pós-democrático. Nós, como socialistas, e, mais, como marxistas jamais podemos aceitar essa ideia. Creio que a democracia é a culminação de um projeto socialista, da socialização da riqueza, da cultura e do poder. Porém, para o pensamento burguês, a democracia é uma conveniência ocasional que durou uns 80 ou 90 anos; depois, decidiram livrar-se dela.

Mesmo em uma situação anômala mundial e levando-se em conta que a propriedade dos grandes meios de comunicação está concentrada em uns poucos monopólios do grande capital, como você analisa o fenômeno da canalha midiática na América Latina? Parece que, paulatinamente, vão perdendo a credibilidade...?

O que bem qualificas como canalha midiática tem um poder fenomenal, que vem substituindo os partidos políticos da direita que caíram no descrédito e que não têm capacidade de prender a atenção nem a vontade dos setores conservadores da sociedade. Nesse sentido, cumpre-se o que, Gramsci muito bem profetizou há quase um século, quando disse que diante da ausência de organizações da direita política, os meios de comunicação, os grandes diários, assumem a representação de seus interesses e isso está acontecendo na América Latina.

Em alguns países, a direita conserva certa capacidade de expressão orgânica, creio que é o caso da Colômbia; porém, na Argentina, não, porque nesse país não existem dois partidos, como o Liberal e o Conservador colombianos; e o mesmo acontece no Uruguai e no Brasil. O caso colombiano revela a sobrevivência de organizações clássicas do século XIX da direita que se mantiveram incólumes ao longo de 150 anos. É parte do anacronismo da vida política colombiana que se expressa através de duas formações políticas decimonônicas [do século XIX], quando a sociedade colombiana está muito mais evoluída. É uma sociedade que tem uma capacidade de expressão através de diferentes organizações, mobilizações e iniciativas populares que não encontram eco no caráter absolutamente arcaico do sistema de partidos legais na Colômbia.

Com essa descrição que encaixa perfeitamente na realidade política colombiana, o que poderíamos falar, então de seus meios de comunicação...

Os meios de comunicação naqueles países em que os partidos desapareceram ou debilitaram-se são o substituto funcional dos setores de direita.

O que significa para a América Latina o triunfo do presidente venezuelano Hugo Chávez?

Significa continuar em uma senda que se iniciou há 13 anos, um caminho que, progressivamente, ocasionado algumas derrotas muito significativas ao imperialismo norte-americano na região, entre elas, a mais importante, a derrota do projeto da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), que era a atualização da Doutrina Monroe para o século XXI e isso foi varrido basicamente pela enorme capacidade de Chávez de formar uma coalizão com presidentes que, não sendo propriamente de esquerda, eram sensíveis a um projeto progressista, como poderia ser o caso de Lula, no Brasil e de Néstor Kirchner, na Argentina. Ou seja, de alguma maneira, Chávez foi o marechal de campo na batalha contra o imperialismo; é um homem que tem a visão geopolítica estratégica continental que ninguém mais tem na América do Sul.

O outro que tem essa mesma visão é Fidel Castro; porém, ele já não é chefe de Estado, apesar de que eu sempre digo que o líder cubano é o grande estrategista da luta pela segunda e definitiva independência, enquanto que Hugo Chávez é o que leva as grandes ideias aos campos de batalha, e, com isso, avançamos muito. Inclusive, agora, com a entrada da Venezuela ao Mercosul, conseguiu-se criar uma espécie de blindagem contra tentativas de golpe de Estado. Caso a Venezuela permanecesse isolada, considerado um Estado paria, teria sido presa muito mais fácil da direita desse país e do império norte-americano. Agora, não será tão fácil.

Você vê algumas nuvens cinzentas no horizonte do processo revolucionário da Venezuela?

Creio que sim, porque a direita é muito poderosa na América Latina e tem capacidade de enganar as pessoas. E os grandes meios de comunicação têm a capacidade de manipular, enganar, deformar a opinião pública; vemos isso muito claramente na Colômbia. Boa parte dos colombianos compraram o bilhete da Segurança Democrática com uma ingenuidade, como aqui na Argentina compramos o bilhete de ganhar a Guerra das Malvinas. Portanto, temos que levar em consideração que, sim, existem nuvens no horizonte porque o imperialismo não ficará de braços cruzados e tentará fazer algo como, por exemplo, impulsionar uma tentativa de sublevação popular, tentar desestabilizar o governo de Chávez e derrubá-lo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ato na USP: "Haddad é resposta da civilização à barbárie"


Texto publicado em: Carta Maior

No ato "São Paulo quer Mudança", promovido pelo Coletivo de Estudantes em Defesa da Educação Pública, professores da Universidade de São Paulo manifestaram apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT). Nas falas, a eleição de Haddad foi apontada como uma possibilidade de mudança, uma resposta da civilização à barbárie. Para Marilena Chauí, Haddad aparece para São Paulo como uma passagem do medo, vindo da atual gestão, para a esperança no resgate da imagem cidadã da cidade.

Por
Caio Sarack

Marilena Chauí
São Paulo - O Coletivo de Estudantes em Defesa da Educação Pública promoveu terça-feira, às 17h, na USP, o ato “São Paulo quer Mudança”. O evento contou com professores da instituição que resolveram se colocar no debate das eleições de segundo turno. Marilena Chauí, André Singer, Homero Santiago, Deisy Ventura, Amélia Cohn, Ismail Xabier, Leda Paulani e outros intelectuais colocaram-se a favor da eleição do candidato Fernando Haddad (PT). Nabil Bonduki, vereador eleito e também professor da USP, compareceu para dar apoio ao que o evento chamou de "única possibilidade de mudança".

Estas eleições têm o potencial de ampliar a participação direta da população nas decisões públicas, afirmou o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, Ricardo Abramovay. O ato promovido na USP nesta terça, 23, pretendeu ser justamente um espaço de participação e debate sobre o segundo turno da eleição paulistana.

Nas falas, o mote foi bastante definido: a eleição de Haddad é uma possibilidade de mudança, uma resposta da civilização à barbárie. O projeto de cidade do petista foi elogiado e posto como paradigmático. Homero Santiago, professor de Filosofia da universidade, elogiou a maneira petista de governar e a contrapôs à maneira tucana de governar, "No transporte, o bilhete único mensal foge da lógica da discussão de planilhas de tarifa tucana. Dá direito a vida social e democrática, o deslocamento na cidade é uma questão da democracia", disse Homero. O professor fez o contraste com a gestão tucana, segundo ele, um projeto higienista e sem consulta ao povo. "Votar contra Serra é uma espera quase moral", finalizou.

Amélia Cohn, socióloga aposentada pela universidade, concordou. "São modos de governar radicalmente distintos. Uma, tecnocrática e se reduz a uma questão contábil, outra de transformação civilizada e apropriação do espaço público". Para a socióloga, Haddad é opção até dentro do PT, vem como um paradigma para o próprio partido e um entusiasmo de retomada da cidade. Saído do departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais (FFLCH-USP), Haddad foi comparado com o também egresso da USP, Fernando Henrique Cardoso. "Saiu daqui a escola neoliberal que governou o país, mas agora sai alguém de esquerda," afirmou o professor Sérgio Cardoso.

A elaboração de um projeto sério para a economia também é importante, "A Alemanha vai bem porque 60% do seu PIB está nas mão das pequenas empresas e não na economia de escala dos oligopólios. O projeto do Haddad tenta dar uma saída para essa tendência econômica", disse o especialista em Economia das Organizações Paulo Feldmann. 

O voto em Haddad despontou no ato como única opção possível de mudança, Leda Paulani, economista e professora também da universidade, disse que a democracia participativa é opção que nos sobrou, que já está ultrapassada e morta, no entanto é o que nos dá abertura para a democratização do acesso e do espaço público. 

"A cidade no século XIX tinha relação estreita com o conceito de civilização, no século XX a cidade tem se confundido com a barbárie. Temos a possibilidade de um processo de desbarbarização, somos uma cidade ocupada", afirmou Ismail Xavier da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP). A reflexão sobre um projeto de cidade que a afaste de uma gestão higienista e tecnocrática aparece com urgência, segundo Xavier. A urgência deste debate e de achar uma saída que dê vazão ou espaço de movimentação democrática faz a esquerda se colocar a favor do petista. 

Deisy Ventura, do Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP), aposta em Haddad como a oportunidade de recolocar a universidade no debate sobre um governo de esquerda. "No segundo turno não temos um candidato ideal, isto é crença. Mas não estamos no ambiente da crença, sim no ambiente da política", concluiu Deisy.

"Há três maneiras de impedir a prática e participação políticas. A concepção teológica do poder, da escolha divina; a concepção moralista que vira as costas para a prática do mundo concreto e a submissão à ideologia da classe dominante, submissão ao monopólio da imagem que domina o corpo e o espírito da nossa sociedade", disse Marilena Chauí no final do evento. Para ela, Haddad aparece para São Paulo como uma passagem do medo, vindo da atual gestão, para a esperança no resgate da imagem cidadã de São Paulo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ley de Medios argentina é modelo, diz relator da ONU

Texto publicado em: Carta Maior

“A Argentina tem uma lei avançada. É um modelo para todo o continente e para outras regiões do mundo”, afirmou Frank La Rue, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Liberdade de Opinião e de Expressão, ao se referir à Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual. "Eu a considero um modelo e a mencionei no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. E ela é importante porque para a liberdade de expressão os princípios da diversidade de meios de comunicação e de pluralismo de ideias é fundamental”, defendeu.

Página 12

Buenos Aires - “A Argentina tem uma lei avançada. É um modelo para todo o continente e para outras regiões do mundo”, afirmou Frank La Rue, relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Liberdade de Opinião e de Expressão, ao se referir à Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, logo após reunir-se com Martín Sabbatella, titular da Afsca (Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual). “Falamos da importância da aplicação plena desta lei”, assinalou Sabbatella após o encontro que manteve com o funcionário guatemalteco da ONU na sede portenha da Afsca.

Durante a reunião com Sabbatella, La Rue voltou a expressar seu especial interesse na implementação da chamada “Ley de Medios” da Argentina. “Essa é uma lei muito importante. Eu a considero um modelo e a mencionei no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. E ela é importante porque para a liberdade de expressão os princípios da diversidade de meios de comunicação e de pluralismo de ideias é fundamental”, defendeu o relator da ONU após o encontro na Afsca.

“Eu venho de um país multicultural, muito pequeno, mas com 22 idiomas indígenas, onde essa diversidade de meios e esse pluralismo de expressão, assim como o manejo dos serviços de comunicação audiovisual, desempenham um papel muito importante para garantir essa riqueza cultural”, disse o guatemalteco, para quem “neste sentido a lei argentina é realmente muito importante”.

Por sua parte, Sabbatella destacou ao término da reunião que “para os argentinos e as argentinas é um orgulho ter uma lei modelo e é extremamente importante o acompanhamento de Frank La Rue, uma pessoa que tem um forte compromisso com a liberdade, a pluralidade, a diversidade e a democratização da palavra”.

“La Rue tem uma profunda valoração da lei e expressou em várias oportunidades a importância de sua aplicação. Contar com sua atenção sobre o andamento desse processo é fundamental”, acrescentou o titular da Afsca, destacando que foi discutida com o relator da ONU “a importância da aplicação da lei”.

O funcionário da ONU se mostrou interessado pelas medidas que a Afsca deve tomar no dia 7 de dezembro, quando vence o prazo fixado pela Corte Suprema para a medida cautelar com a qual o Grupo Clarín paralisou a implementação da lei, durante três anos, após sua aprovação no Congresso. Assim como o cabo de guerra no Conselho da Magistratura, onde a oposição impede a nomeação de um juiz titular no tribunal que deve resolver a questão da inconstitucionalidade defendida pelo grupo quanto ao artigo 161 da lei, que obriga as empresas a abrir mão das licenças que superam o limite estabelecido pela nova legislação para evitar práticas monopólicas.

La Rue, que foi a Argentina para participar de um congresso mundial sobre direitos da infância em San Juan, também assinalou que logo após sua passagem pela Argentina visitará o Uruguai onde, destacou, “vem ocorrendo uma discussão parecida com a que ocorreu aqui (sobre a ‘ley de medios’ audivovisuais), mas ainda não foi aprovada a lei, o que eu gostaria muito que acontecesse”. O relator da ONU também se mostrou disposto a promover fóruns em toda a América Latina para debater a lei implementada pela Argentina.

Tradução: Katarina Peixoto

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A grande mídia brasileira e Hugo Chávez


Texto publicado em: FNDC

Francisco Fernandes Ladeira
Observatório da Imprensa

No domingo (7/10), Hugo Chávez foi reeleito presidente da Venezuela pela terceira vez. Em um pleito disputado, conforme já indicavam as pesquisas de intenção de voto, Chávez, candidato do PartidoSocialista Unido da Venezuela, obteve 54,66% dos votos, enquanto seu principal adversário, Henrique Capriles, apoiado por uma ampla aliança de partidos de direita, recebeu 44,73% dos votos. Os demais candidatos (Reina Sequera, Luís Alfonso Reyes, Maria Josefina Bolívar e Orlando Chirinos) não atingiram 1%. Em um país onde o voto não é obrigatório, somente 19% do eleitorado não compareceu às urnas.

No poder desde fevereiro de 1999, Chávez passou por diversas intempéries ao longo de seu mandato presidencial: enfrentou uma ferrenha oposição da elite venezuelana, foi ridicularizado pela mídia local, sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2002 e enfrentou um grave câncerde próstata, diagnosticado há pouco mais de um ano.

Hugo Chávez é certamente o líder latino-americano mais polêmico da atualidade. É admirado por uns, odiado por outros. De acordo com o jornalista Saul Leblon, “Chávez fez da Venezuela a sociedade menos desigual da América Latina”. Já o editorial de um partido político da esquerda brasileira aponta que “os logros dos programas sociais implementados por Chávez são indiscutíveis. O percentual de pobres passou de 50,4% da população para 31,6% e o de pessoas vivendo na pobreza extrema de 20,3% para o 8,5%. A expectativa de vida subiu de 72,16 para 74,30 anos e o número de moradias de 2 milhões para 8,2 milhões. O desemprego diminuiu de 16,6% para 7,9%. A renda per capita passou de US$ 8.500 para US$ 12.700”.

O “vencedor moral”

Por outro lado, entre os ferrenhos opositores do presidente venezuelano está a mídia hegemônica brasileira (leia-se famílias Marinho, Civita, Saad e Frias). Desde a primeira eleição de Chávez há uma ostensiva campanha da nossa imprensa conservadora para deturpar a imagem do líder bolivariano no Brasil. Segundo uma matéria da revista Veja, publicada em maio de 2005, “por três razões principais, Chávez representa perigo para a democracia e ameaça à estabilidade na América Latina. A primeira é que, claramente, ele não se contenta em infernizar a vida do próprio venezuelano e começa a lançar pseudópodes por toda uma crescente área de influência no continente americano. Segundo, porque tem a mover seu expansionismo o dinheiro fácil dos petrodólares oriundos da riqueza do subsolo venezuelano. Terceiro, Chávez está semeando insurreição e instabilidade em países que ainda lutam para solidificar suas instituições políticas e jurídicas e suas bases econômicas de progresso material”. Para Arnaldo Jabor, cronista da Rede Globo, Hugo Chávez é um ditador fascista que ainda vai criar uma guerra na América Latina.

Sendo assim, logo após o anúncio da vitória chavista, a mídia hegemônica brasileira, como era de se esperar, despejou todo o seu ódio contra o líder venezuelano. “Na Venezuela de Hugo Chávez, a eleição de domingo nada mudou. O caudilho venceu a oposição de novo [...]. Diante de um Executivo que faz uso irrestrito de cadeias de rádio e TV para cultuar a própria personalidade e da renda do petróleo para multiplicar programas assistencialistas, Capriles teve bom desempenho”, apontou o editorial da Folha de S.Paulo. Já o portal Terra ressaltou que a vitória de Chávez frustrou milhares de venezuelanos que moram no exterior. “Chávez, reeleito, pode apertar o cerco à liberdade de imprensa, às liberdades individuais, às liberdades das empresas privadas”, afirmou Veridiana Morais, da BandNews. “Quase metade dos venezuelanos deixou um claro recado nas urnas: não está satisfeita com o governo, que considera centralizador. Chávez ganhou, mas dessa vez não como invencível. Mais de seis milhões de venezuelanos votaram contra o governo do bolivariano. Ou seja, não estão de acordo com as políticas estatizantes, o exercício do poder e a condução dos programas sociais”, asseverou a repórter Delis Ortiz, da Rede Globo. Segundo o cientista político Carlos Romero, entrevistado pelo Jornal Nacional, “Chávez foi castigado pelas urnas, o que o obriga a considerar a força da oposição. O presidente terá que optar por uma abertura econômica e política”. Seguindo essa linha de raciocínio, para Caio Blinter, apresentador do programaManhattan Connection, Henrique Capriles, apesar de eleitoralmente derrotado, foi o “vencedor moral” do pleito venezuelano: “Parabéns a Henriques Capriles por sua vitória moral contra Hugo Chávez. Nunca seria fácil para este David sul-americano derrotar o Golias bolivariano (a metáfora bíblica marcou a campanha eleitoral). Mas Capriles fez bonito com sua campanha vibrante, moderna e pragmática contra um aparato de poder fossilizado, corrupto e aparelhado, comandado pelo Hugolias Chávez. [...] Chávez tem câncer e Capriles tem vigor. Claro que o sistema pode inventar um fisiologismo para se preservar se Chávez não conseguir terminar o seu mandato. Em tese, caso o presidente morra durante os primeiros quatro anos do seu mandato, devem ser convocadas novas eleições”. Por fim, a revista Veja destacou, em seu website que o “ditador” e “caudilho” Chávez poderá “estender seu reinado para vinte anos”.

Democracia passa pelo fim do coronelismo midiático

Ora, pelo que consta, Chávez (como todos os governantes progressistas da América do Sul) chegou ao poder pela via eleitoral e está sustentado por uma Constituição recém-construída e aprovada pela ampla maioria dos venezuelanos. Como bem destacou Angelo Kirst Adami, em seu trabalho Hugo Chávez, o ditador: o discurso da revista Veja sobre o presidente da Venezuela, “o presidente Hugo Chávez foi eleito e reeleito em eleições democráticas, avalizadas por observadores internacionais e dentro das normas constitucionais; há eleições diretas tanto para o Poder Legislativo quanto para o Executivo; é garantido o direito de voto para todos os cidadãos maiores de idade, sem distinção; e é observado o princípio da maioria numérica. Não se vislumbra, portanto, a existência de um regime ditatorial na Venezuela”.

Diante dessa realidade, cabe aqui uma pergunta capciosa: por que, para a mídia brasileira, governos eleitos pelo voto popular, mas contrários aos interesses estadunidenses, são considerados antidemocráticos; e, por outro lado, as atrocidades de regimes aliados à Washington (Arábia Saudita, Bahrein e Colômbia, por exemplo) são escamoteadas? Ademais, o que se pode esperar de uma imprensa que criminaliza movimentos sociais, que já tentou manipular um processo eleitoral (contra Leonel Brizola em 1982) e contribuiu para a eleição de um presidente altamente corrupto (Fernando Collor em 1989)? Não obstante, é preciso questionar o porquê de a grande mídia brasileira apresentar quase sempre uma visão unidimensional da realidade. Apenas determinado ponto de vista tem espaço nas maiores emissoras de televisão e nos principais jornais e revistas do país. Opiniões divergentes ao status quo são peremptoriamente ignoradas.

Sendo assim, é preciso democratizar os meios de comunicação para que os diferentes setores sociais tenham a oportunidade de defender os seus valores políticos. Em última instância, uma verdadeira democracia passa, inexoravelmente, pelo fim do coronelismo midiático.

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[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Rupert Murdoch, magnata da mídia, declara apoio a Romney nos EUA

Texto publicado em: FNDC

Agência Jovem de Notícias
Observatório do Direito à Comunicação

No dia 17 de outubro adolescentes e jovens em mais de 15 cidades brasileiras, nas cinco regiões do país, vão soltar a voz pela democratização da comunicação no DIA “C” – Dia da Juventude Comunicativa. A ideia, encabeçada pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicador@s – RENAJOC, é chamar a atenção para a necessidade de mudanças no atual Código Brasileiro de Telecomunicações, que em agosto completou 50 anos carregando consigo um histórico de concentração dos meios de comunicação nas mãos de pouquíssimos grupos privados, que juntos comandam mais de 600 meios de comunicação no país.

A RENAJOC entende que esse domínio dos meios de comunição por grupos privados comandados por famílias ricas e poderosas ferem a liberdade de expressão e especialmente o acesso de adolescentes e jovens à informação e à participação na produção da comunicação no país. Por isso, além de usarem o DIA “C” para falar desse assunto nas redes sociais, com hasdhtag #peloDiretoaComunicacao, os integrantes da RENAJOC vão realizar oficinas e intervenções urbanas nas suas cidades.

Em Fortaleza, por exemplo, com o apoio da organização Catavento, jovens vão ocupar uma praça pública fazendo talkshows e dando oficinas de rádio com a temática “democratização da comunicação”. Já em Natal e em Brasília, coletivos jovens vão organizar Conferências Livres sobre Direito à Comunicação e criar propostas de políticas que contemplem a participação da juventude na produção das informações. Na cidade de São Mateus, no Espírito Santo, a praça da cidade vai ser tomada por oficinas de fanzine, jornal mural, desenho, fotografia e intervenções de grafite. Em São Paulo e Rio de Janeiro, adolescentes e jovens vão promover intervenções urbanas por ruas movimentadas das capitais.

Esses são apenas alguns exemplos das ações, que serão relatadas ao longo do dia 17 no blog da RENAJOC – renajoc.org.br – e nas redes sociais da Rede e de seus parceiros. O DIA “C” conta com o apoio da ONG Viração Educomunicação, do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, a Fundação Friedrich Ebert Stiftung – FES e a Fundação Luterana de Diaconia.

#paraexpressaraliberdade

Após o DIA “C”, os adolescentes e jovens da RENAJOC continuam suas mensagens junto com a campanha “Para expressar a liberdade – uma nova lei para um novo tempo”. Organizada por dezenas de entidades civis que atuam na área de comunicação e liberdade de expressão, a campanha propõe cobrar uma nova legislação brasileira para a comunicação, contemplando a participação da sociedade e a diversidade de grupos que atuam na produção dos conteúdos.

Ao longo do dia a campanha vai realizar um twitaço com a hashtag #paraexpressaraliberdade e algumas ações vão acontecer pelo país, dando continuidade à mensagem do DIA “C”, cobrando a democratização dos meios de comunicação e a liberdade de expressão. Mais informações no site: www.paraexpressaraliberdade.org.br

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

PIVÔ DO MENSALÃO TUCANO PODE TER PENA PRESCRITA

Texto publicado em: Brasil 247

Walfrido dos Mares Guia, que coordenou a campanha à reeleição de Eduardo Azeredo, em 1998, completará 70 anos e poderá requerer a prescrição; recursos de estatais mineiras alimentaram o valerioduto, no que foi o laboratório do mensalão; Joaquim Barbosa engavetou o processo

247 – No dia 24 de novembro deste ano, um dos pais do que se convencionou chamar de mensalão poderá estourar o champanhe. Walfrido dos Mares Guia, que coordenou a campanha à reeleição do tucano Eduardo Azeredo em 1998, completará 70 anos e poderá requerer a prescrição dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, dos quais é acusado.

Em 1998, Azeredo utilizou as agências de Marcos Valério, a DNA e a SMPB, para financiar suas campanhas. Estatais mineiras, como a Cemig e a Copasa, carrearam recursos para um evento de motociclismo conhecido como “Enduro da Independência”, que simulou gastos com publicidade. Na relação de sacadores do mensalão mineiro, ou mensalão tucano, consta até o nome do senador mineiro Aécio Neves, que teria recebido R$ 110 mil e se elegeu deputado, antes de se tornar presidente da Câmara dos Deputados, assim como João Paulo Cunha.

Diferentemente do mensalão petista, o caso de Minas Gerais não foi para o Supremo porque os réus não foram denunciados por formação de quadrilha. É por isso que Walfrido, diferentemente de Delúbio Soares e muitos outros personagens que não têm foro privilegiado, está sendo julgado em primeira instância. E, em Minas Gerais, o caso não andou.

No Supremo Tribunal Federal, estão apenas os réus do mensalão mineiro que têm foro privilegiado, como é o caso de Eduardo Azeredo. Mas, ainda que o caso seja anterior ao do PT, ele ficou engavetado. O ministro Joaquim Barbosa, que deveria ser o relator, comentou que não havia o mesmo interesse por parte dos meios de comunicação. Barbosa também já avisou que não levará para seu gabinete o caso de Azeredo, quando assumir a presidência da corte, em novembro. O processo, portanto, terá que ser distribuído para um novo relator.

O caso do mensalão mineiro teve sua denúncia aceita pela Justiça apenas em 2010, doze anos depois da ocorrência dos fatos, em 1998. Como o prazo superou o máximo de oito anos que manteria Mares Guia como réu no processo, ele poderá pedir sua exclusão. “É inexorável. Ele não quer, mas também não adianta não querer", disse à Folha de S. Paulo o advogado Arnaldo Malheiros Filho, que defende o ex-ministro no caso.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Vale vence prêmio de pior empresa do mundo

Texto publicado em: Caros Amigos

Mineradora disputou com a japonesa Tepco e Samsung

Da Redação

A transnacional brasileira Vale conquistou o primeiro lugar no 'Nobel' da vergonha corporativa no Public Eye Awards, que elege por voto popular a pior empresa do mundo em questões ambientais, sociais e trabalhistas. O prêmio foi criado pelo Greenpeace Suíça e Declaração de Berna e o vencedor é sempre revelado durante o Fórum Econômico Mundial, aberto nesta semana em Davos, na Suíça.

A Vale disputou o primeiro lugar com a japonesa Tepco, envolvida no desastre nuclear de Fukushima, mas superou a usina com um total de 25.041 votos. Para as entidades que indicaram a Vale ao prêmio - a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, representada no Brasil pela Rede Justiça nos Trilhos, e as ONGs Amazon Watch e Xingu Vivo para Sempre -, o fato de a Vale ser uma multinacional presente em 38 países e com impactos espalhados pelo mundo, ampliou o número de votantes.

Para os organizadora do Public Eye, um fator determinante para a entrada da Vale na disputa entre as piores foi a adesão em 2010 no Consórcio Norte Energia, que constrói a usina de Belo Monte, no Rio Xingu.

“Para as milhares de pessoas, no Brasil e no mundo, que sofrem com os desmandos desta multinacional, que foram desalojadas, perderam casas e terras, que tiveram amigos e parentes mortos nos trilhos da ferrovia Carajás, que sofreram perseguição política, que foram ameaçadas por capangas e pistoleiros, que ficaram doentes, tiveram filhos e filhas explorados, foram demitidas, sofrem com péssimas condições de trabalho e remuneração e tantos outros impactos, conceder à Vale o título de pior corporação do mundo é muito mais que vencer um prêmio. É a chance de expor aos olhos do planeta seus sofrimentos e trazer centenas de novos atores e forças para a luta pelos seus direitos e contra os desmandos cometidos pela empresa”, afirmaram representantes das entidades que encabeçaram a campanha contra a mineradora.

As demais vencedoras foram a Tepco (24.245 votos), Samsung (19.014 votos), Barclays (11.107), Syngenta (6.052) e Freeport (3.308), empresa que atua na Papua e é acusada de torturar e matar os que levantam suas vozes contra seus abusos.

Com informações do Movimento Xingu Vivo para Sempre e Public Eye Awards

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Urge uma nova educação no Chile, reclama líder estudantil

Texto publicado em: Prensa Latina


Santiago de Chile, 28 set (Prensa Latina) A educação no Chile requer hoje mudanças estruturais, para que os setores mais despossuídos não sejam cada vez mais excluídos do acesso ao ensino, considerou um renomeado dirigente estudantil.

Em entrevista a Prensa Latina, o presidente da Coordenadora Nacional de Estudantes Secundários (Cones), Cristofer Sarabia, assegurou que um dos grandes problemas na esfera dos colégios municipais.

"Estes colégios são considerados a última opção em qualidade da educação, pois estamos criando condições nas populações para que a gente segue na pobreza", refletiu o dirigente da Cones, uma das organizações que convocou à marcha desta quinta-feira a nível nacional em defesa da educação pública.

Estas escolas, precisou Sarabia, são vistas como muito marginais, inclusive alguns históricos que têm 100 anos de vida, e que estão sobrevivendo, mas os colégios da populações estão fechando pouco a pouco e estão se convertendo em particulares subvencionados, destacou o dirigente estudantil, aluno do emblemático Instituto Nacional.

"Já têm fechado 250 colégios municipais nos últimos 30 anos, e têm criado mais de dois mil 500 particulares subvencionados ou privados, de maneira que a educação pública vai em declive de matrícula", comentou.

O líder da Cones precisou que no Chile o sistema de financiamento se calcula pela assistência de alunos às aulas, de maneira que se um estudante tem que ir todos os dias à escola, o colégio recebe os 42 mil pesos (88 dólares) por aluno, mas se não vão, lhe começam a descontar gradualmente.

"Então que ocorre com os colégios públicos, aos quais muitos jovens para poder chegar até eles têm que viajar uma hora, inclusive duas ou mais por caminhos de terra nas zonas rurais, como as comunas de Valdivia, eles não podem ir a classes todos os dias", comentou Sarabia.

Por essa razão, os colégios vão-se desfinanciando, e os titulares são os de municipalidades, outro erro do sistema, na opinião do dirigente, que assegurou que manter aberto ou fechada uma escola passa por uma decisão política.

"Queremos que não se continue vendo à educação a nível de municipalidades, porque se se elege a um prefeito, ao qual não gosta da educação pública fará todo o possível por fechar os escolas, é por isso que queremos que as escolas voltem a mãos do Estado", considerou o porta-voz da Cones.

Diz-se que estão injetando recursos à educação, acrescentou, mas, essas finanças não chegam aos colégios, e se seguem fechando escolas.

O jovem destacou que essa é uma das razões pelas quais os estudantes advogam por uma mudança estrutural, que inclua uma modificação na forma de dar subvenção à demanda.

"Porque não pode ser que por ter 40 garotos sentados em um aula vão me pagar 40 por 42 mil pesos, se tenho 20 alunos sentados vão me pagar 20 por 30 mil pesos, assim os colégios que vão combinando com menos alunos se vão desfinanciando, até o momento que os prefeitos tomam a decisão política de fechar os estabelecimentos", enfatizou.

Sarabia recordou que no Chile existem três formas de acesso à educação: a privada, que cobra entre 100 mil pesos (210 dólares) e 500 mil pesos (mil 50 dólares) mensais por estudante, a subvencionada, que tem um contribua do Estado por 42 mil pesos (88 dólares), e cobra um contribuição familiar que pode chegar desde cinco mil pesos (10 dólares) até os 100 mil pesos (210 dólares), e a pública.

Entretanto, o pesadelo não conclui no ensino secundário, colaborou por sua vez o presidente da Federação de Estudantes da Universidade Católica, Noam Titelman.

Em declarações a Prensa Latina, o também diretivo da Confederação Nacional de Estudantes de Chile, precisou que uma carreira universitária custa anualmente como média uns três milhões de pesos (mais de seis mil dólares).

"E se se tem em conta que as carreiras no país duram entre seis e sete anos, estamos falando de 21 milhões de pesos (mais de 44 mil dólares), que comparado com o salário média, são os impostos mais caros do mundo", concluiu Titelman.

Nesta quinta-feira, entorno de 70 mil pessoas marcharam por ruas de Santiago do Chile em defesa de uma educação pública, gratuita e de excelência.

A manifestação realizou-se dias antes de vencer o prazo para que o Governo apresente ao Parlamento seu projeto de orçamento para 2013, que em opinião de vários líderes estudantis, provocará sérios recortes aos fundos dos colégios públicos, pelo que muitos poderiam desaparecer para fins deste ano.

ocs/et/bj
Modificado el ( viernes, 28 de septiembre de 2012 )