quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Dilma não aceita inquérito no STF e força Orlando Silva a se demitir

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Dilma Rousseff esperava que Supremo Tribunal Federal pudesse arquivar pedido de investigação e dar 'atestado de idoneidade' ao ex-ministro do Esporte, ajudando a estancar noticiário negativo. Ao anunciar saída, Orlando diz ser vítima de 'linchamento'. Acusadores evitam depor no Congresso, pois demissão teria 'esvaziado propósitos'. Em manifesto, intelectuais apontam 'macarthismo' contra PCdoB.

André Barrocal


BRASÍLIA – O ex-ministro do Esporte Orlando Silva foi forçado a pedir demissão nesta quarta-feira (26) porque a presidenta Dilma Rousseff não esperava que o Supremo Tribunal Federal (STF) abrisse inquérito para investigar denúncias de corrupção contra ele. Se o ex-ministro imaginava que o STF lhe daria um “atestado de idoneidade” no fim das apurações, Dilma queria o “atestado” já, com o arquivamento do pedido de investigação.

A apuração tinha sido solicitada pela Procuradoria Geral da República, que havia sido provocada a fazê-lo pelo próprio ex-ministro e por partidos adversários do governo. A eventual negativa do STF, no cenário desenhado pelo Palácio do Planalto, seria usada por Orlando Silva e o governo para esfriar o noticiário e a pressão oposicionista. “Não esperávamos o inquérito”, disse à Carta Maior um ministro que participou de toda a articulação política em busca de uma solução para o caso.

A permanência do ex-ministro na berlinda poderia custar estragos na popularidade de Dilma, que na pesquisa mais recente, divulgada pelo Ibope a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI), vira sua aprovação subir junto ao eleitorado na esteira de "faxinas".

Além disso, o acusado estava no centro de uma área vital para a avaliação do governo, por causa da Copa do Mundo de 2014 – a crise envolvendo o ex-ministro era notícia não só em páginas políticas, mas também em programas esportivos populares.

A paciência do Palácio do Planalto com Orlando Silva também foi mais curta do que o ex-ministro gostaria porque há a certeza de que existem falhas administrativas no controle de programas tocados pelo ministério. A equipe que toma conta do programa Segundo Tempo, principal alvo das denúncias contra Orlando, seria pequena para a função e não estaria trabalhando adequadamente.

O anúncio
Foi o próprio Orlando Silva quem anunciou a saída do governo, no início da noite desta quarta-feira (26), depois de reunião com Dilma, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e o presidente do PCdoB, Renato Rabelo.

Quando o encontro ocorreu, Dilma já havia feito chegar a Orlando Silva que tinha decidido não mais segurá-lo no cargo. Na conversa, foi acertada a forma como seria anunciada a saída dele, que insistiu que seria inocente e que não há nada contra ele além do testemunho verbal de um “meliante”. A versão vencedora foi a de “pedido de afastamento” por parte do denunciado. “Eu decidi sair do governo”, disse.

Na entrevista, o ex-ministro disse que o afastamento foi o caminho escolhido para por fim a uma “crise política criada” para atacar o governo. Afirmou ser vítima de uma “injustiça” e estar “revoltado com o linchamento público” que acredita ter sofrido por causa da “reação de dois meliantes” que lhe acusaram porque o ministério do Esporte cobra a devolução de R$ 3 milhões de um deles.

Os “meliantes” em questão são o policial militar João Dias Ferreira e um funcionário dele, Célio Pereira Soares. O primeiro disse à revista Veja que haveria um esquema de desvio de recursos em favor do PCdoB, partido de Orlando Silva, comandado pelo próprio ex-ministro. O segundo disse ao mesmo veículo que levara dinheiro vivo para entregar ao acusado na garagem do ministério.

Ambos deveriam ter ido nesta quarta (26) à tarde prestar depoimento público à Comissão de Fiscalização da Câmara dos Deputados. O testemunho havia sido combinado com partidos adversários do governo. Mas nenhum dos dois compareceu. Para Orlando, os dois “fugiram” porque não tinham prova de nada.

Em carta à comissão, o PM explicou-se dizendo que “os últimos acontecimentos esvaziaram o propósito” do depoimento. Os “últimos acontecimentos” foram a demissão do ex-ministro, que começou a ser noticiada na internet desde meados do dia.

Em nota distribuída à imprensa, o presidente do PCdoB disse que o partido e seu ex-ministro foram vítima de uma “criminosa campanha difamatória” desencadeada pelo “campo político reacionário do país e veículos do monopólio de comunicação”, cujo objetivo seria “desestabilizar” o governo Dilma.

Na véspera, um grupo de intelectuais havia divulgado um manifesto de apoio ao PCdoB. O texto diz que o partido esaria sendo vítima de uma “onda de histeria macarthista”, em referência à caça às bruxas contra comunistas ou supostos comunistas nos Estados Unidos, nos anos 50, comandada pelo então senador Joseph McCarthy.

Assinam o texto personalidades como o economista Luiz Gonzaga Beluzzo, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Márcio Pochmann, a presidente da Associação Nacional de Pós Graduandos, Elisângela Lizardo, entre outros.

Foto: Divulgação

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