quarta-feira, 29 de junho de 2011

Wikileaks: China pensa que Brasil não tem capacidade para ser líder

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Segundo o ex-embaixador chinês no Brasil, a China acredita que o Brasil não tem "capacidade e influência" para ser líder e que as ambições do país excedem seu verdadeiro peso no cenário internacional. Despachos de agosto de 2008 obtidos pelo Wikileaks mostram a conversa de Chen Duqing, que ficou no cargo até 2009, com o ex-embaixador dos Estados Unidos, Clifford Sobel. As informações são da Agência Pública.

Àquela ocasião, Duqing manifestou a Sobel que o Brasil não estaria qualificado para suas aspirações de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e estava "interessado apenas em algumas áreas, e não em paz ou em segurança".

Para Paulo Vizentini, professor de Relações Internacionais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), é preciso fazer a ressalva que a afirmação foi feita em 2008, começo da grande crise financeira que catalisaria as mudanças no quadro geopolítico internacional – e o Brasil ganhou força. Porém, admite ele, "o Brasil demonstra uma série de fragilidades quanto a seu projeto. Não temos um pacto de poder mínimo que assegure uma agenda comum que sobreviva a mudanças de governos".

Conselho de Segurança

Em outro documento, os EUA ponderavam que a principal relutância chinesa quanto à reforma no Conselho de Segurança dizia respeito à possível entrada do Japão. Para os diplomatas, se a China apoiasse o Brasil em seu antigo anseio por uma inserção mais profunda no principal organismo multilateral, estaria por tabela beneficiando os rivais asiáticos. "Pode haver uma manobra chinesa no sentido de não deixar ninguém entrar. É fato que a China tem ficado incomodada com a reaproximação entre Japão e EUA", afirmou o professor.

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A questão foi parcialmente alterada este ano, quando, em viagem a Pequim, a presidente Dilma Rousseff conseguiu a inclusão, no comunicado bilateral, do apoio chinês a uma reforma no Conselho de Segurança para incluir nações emergentes. Falta obter, por parte da China, dos EUA e da própria ONU, uma defesa enfática do direito do Brasil de ingressar no órgão multilateral mais importante do mundo.

No campo interno, o embaixador chinês criticava os problemas de infraestrutura, classificando o porto de Santos como "o pior do mundo". Ele apontou na conversa com Sobel que a burocracia nacional é muito confusa e que há uma sobreposição de funções. Para Duqing, merece especial atenção o fato de o Brasil não ter consolidado suas bases para dar conta de um desenvolvimento prolongado, indicando que, sem mais crescimento econômico, não se consolidará a meta de reduzir a desigualdade social.

Parceiro importante, parceiro ocasional

Em diversos despachos, os diplomatas norte-americanos avaliam que o Brasil vê a China como um aliado fundamental, mas advertem que a relação não é marcada por reciprocidade. "O governo Lula considera a China um parceiro para contrabalancear a influência de nações mais ricas em instituições multilaterais", anota a então embaixadora Donna Hrinak em despacho de 14 de maio de 2004 no qual resume, em poucas palavras, a tônica desta relação bilateral: "Para o Brasil, mesmo um casamento de conveniência é preferível a um eterno encontro".

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Naquele momento, chamava atenção a viagem que o presidente Lula havia realizado à nação asiática acompanhado por uma enorme delegação de 400 empresários. Os documentos indicavam que a relação era desigual em termos de trocas comerciais, com envio de commodities brasileiras em troca de produtos industriais chineses.

Dados divulgados em abril pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constatam que a desigualdade se aprofundou, e atualmente 86% da exportação brasileira ao parceiro é baseada em produtos primários.

Desconfianças de parte a parte

"Este é um grupo muito heterogêneo de países com diferentes metas", anotava em 19 de fevereiro de 2010 o subsecretário-geral de política do Itamaraty Roberto Jaguaribe em conversa com o embaixador Thomas Shannon, na qual confirmava que a China não queria que o BRIC se transformasse em porta-voz das nações em desenvolvimento.

Na mesma conversa, o diplomata demonstrava surpresa com a rapidez com que a China se engajou em negócios na América do Sul, passando de um envolvimento meramente econômico a uma relação política que se aprofundava constantemente. "A China será uma forte concorrente, para os EUA e para o Brasil", advertia Shannon, segundo despacho de 22 de abril de 2008.

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