quarta-feira, 8 de junho de 2011

Milhares marcham pela liberdade em São Paulo

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Mais de 5 mil pessoas participam de marcha contra a repressão e pela liberdade de expressão no sábado, 28 de maio, passando por cima de censura do TJ

Por Gabriela Moncau

Cerca de 5 mil pessoas se reuniram na Av. Paulista no dia 28 de maio para protestar contra a violência policial e pela liberdade de expressão. Artistas, organizados, independentes, feministas, negros, homossexuais, palhaços, maconheiros, escritores, antiproibicionistas, estudantes, trabalhadores, bicicleteiros, professores, políticos, anarquistas, comunistas. A lista dos que foram às ruas diante da constatação de que a liberdade está cada vez mais escancaradamente sendo privada da população é extensa.

O estopim foi a violenta repressão policial na Marcha da Maconha de São Paulo, dia 21 de maio, que diante de uma liminar assinada pelo desembargador Teodomiro Mendez, teve sua realização proibida. Mesmo censurando os cartazes e mudando o caráter da marcha para liberdade de expressão, os manifestantes foram duramente reprimidos pela Tropa de Choque da Polícia Militar e pela Guarda Civil Metropolitana. Saldo final? Muitos feridos, 9 detidos, dois tenentes afastados pelo Geraldo Alckmin que teve de dar alguma explicação pública diante da indignação da população em geral. Mas mais que isso: uma revolta que se espalhou e encontrou eco em uma série de coletivos, movimentos e pessoas que também não mais aguentam a naturalização da porrada por parte do Estado a cada vez que a sociedade civil ocupa os espaços públicos para se manifestar a respeito de qualquer assunto. Nasce daí a Marcha da Liberdade.

Como reivindicações principais a Marcha da Liberdade levanta a defesa pela regulamentação do uso de armas menos letais (bala de borracha, spray de pimenta, bomba de efeito moral, etc.) pela polícia em manifestações sociais; liberdade de organização e expressão; contra a repressão e a violência policial em qualquer âmbito da sociedade; contra o fascismo que tomou conta do estado de São Paulo (por parte do Estado, da polícia e de grupos neonazistas que têm aparecido com mais frequência). A partir dessas pautas centrais, a marcha abriu espaço para que cada indivíduo, organização, movimento, etc., incluísse suas reivindicações específicas.

Por incrível que pareça, no entanto, proibiram também a liberdade. No final da tarde de sexta-feira, 27 de maio (um dia antes da Marcha da Liberdade), o Tribunal de Justiça de São Paulo soltou um mandado de segurança proibindo a realização da marcha, sob alegação de que seria uma Marcha da Maconha disfarçada. O processo era o mesmo da liminar que proibiu a manifestação pela legalização da erva, e o pedido para essa segunda proibição foi feito pelo mesmo promotor, Walter Tebet Filho. O desembargador que assinou o mandado dessa foi vez foi Paulo Antonio Rossi. Teodomiro Mendez, apesar de ser um dos juízes responsáveis pela análise do processo, não colocou seu nome ao final do despacho – nome esse um tanto quanto desgastado de umas semanas para cá, desde que a imprensa tornou pública sua condenação por espancamento em 1999, pela qual sua pena prescreveu.

Citando a famosa frase de Cecília Meireles, “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta / não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, os organizadores da Marcha da Liberdade soltaram um comunicado reiterando que a concentração no MASP às 14h estava mantida: “Para a infelicidade dos promotores e desembargadores responsáveis pelo mandado de segurança, o movimento político que se constituiu em torno da Marcha da Liberdade é forte, e não silenciará sua revolta – cada vez mais justificada – frente ao cerceamento das liberdades por parte do poder público”.

“Não perderemos tempo explicando que somos um movimento muito mais amplo do que a Marcha da Maconha, pois certamente não só toda a sociedade sabe disso como também o sabem os desembargadores que proíbem o evento na mais pura má fé. Não reivindicaremos a Constituição, a livre expressão nem a reunião que acordou a realização da Marcha com a Polícia Militar na quinta feira, com presença de diferentes setores do poder público”, afirmaram, terminando com uma certeza: “O autoritarismo será respondido. Estaremos nas ruas, que são nossas, de forma pacífica e firme. Governador Geraldo Alckmin e comando da PM, a possibilidade de evitar uma violência que não interessa a ninguém (talvez apenas aos desembargadores) está em suas mãos. O país todo estará pronto para cobrá-los”.

De fato, o governador não tinha interesse que houvesse mais uma pancadaria em uma manifestação pacífica para deixá-lo mais uma vez em má situação, um ano antes das próximas eleições. Ao mesmo tempo, não poderia publicamente ir contra uma medida judicial. Cartazes como “A ditadura foi revelada”, “Libertar o direito de pensar”, “Marchar contra a repressão é um dever cívico”, “Nada pueden bombas donde sobra corazón” e “É proibido proibir” demonstraram que a proibição do TJ só alimentou a indignação dos que ocuparam as ruas para gritar basta. Duzentos e cinquenta policiais militares e um contingente da Tropa de Choque foram mobilizados para a Av. Paulista na manhã do dia 28.

Na negociação entre os organizadores da Marcha da Liberdade e o Major Félix (responsável pela operação policial), foi mantido o acordo que havia sido feito três dias antes em reunião entre os mesmos. Os manifestantes marchariam ocupando as ruas, os policiais fariam a proteção e o trajeto estava mantido. “Que fique claro que não estamos desrespeitando nenhuma ordem judicial”, reiterou o Major algumas vezes. A argumentação da PM foi de que desde que não houvesse nenhum material fazendo alusão a drogas, o mandado de segurança estava sendo considerado.

Diferente da semana passada, quando um acordo praticamente idêntico foi feito com a polícia minutos antes do choque avançar sobre a manifestação, a Marcha da Liberdade aconteceu com tranquilidade. Pequenos incidentes como quando integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) estenderam uma grande faixa no Conjunto Nacional com os dizeres “o aumento do ônibus continua um roubo / Tribunal de Justiça faça justiça social já / Impugnação do aumento” e foram repreendidos pelos seguranças do prédio e quando dois punks agrediram o carro da Rede Globo e foram levados ao 4º DP foram os únicos casos de registro de algum tipo de tensão durante a manifestação.
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Ao passar em frente ao cemitério da Consolação, os manifestantes emudeceram seus tambores e gritos de ordem, levantaram seus dedos e isqueiros e fizeram um minuto de silêncio em homenagem aos mortos pela violência policial, bem como a José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, lideranças do projeto agroextrativista em Nova Ipixuna (PA) assassinados dia 24 de maio, e Adelino Ramos, sobrevivente do Massacre de Corumbiara (RO) assassinado em uma emboscada dia 27 de maio.

Os temas dos gritos de ordem passaram pela legalização das drogas, do aborto, repúdio ao veto do kit anti-homofobia, contra o código florestal, repúdio ao aumento do ônibus, respeito aos ciclistas, entre outros. Frases como “Kassab sem vergonha, o busão tá mais caro que a pamonha”, “O busão é uma droga, vamos fumar o busão”, “Direito ao próprio corpo, legalizar o aborto”, “Puta que pariu, 2011 tem censura no Brasil”, “Chega de polícia que mata”, “Dilma, que traição, trocou o kit pela corrupção”, “Sou veada e sou negra, sou comunista e maconheira”, “Vem pra rua, vem, contra a censura” foram algumas das que se ouviram no trajeto do MASP até a praça da República, no Centro.

O movimento já marcou nova manifestação. O dia 18 de junho foi tirado como data nacional para marchas da liberdade. Em menos de 24h ela já começou a ser organizada em Brasília, Belém, Fortaleza, Belo Horizonte e Bauru. Em São Paulo, a próxima reunião organizativa da Marcha da Liberdade será domingo (5), às 15h no Centro Cultural São Paulo, e é aberta.

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