terça-feira, 31 de maio de 2011

A antielitização latino-americana

 Texto publicado em: Carta Maior

As elites latino-americanas enfrentam uma crise de identidade e estão vendo encurralada sua capacidade ideológica para transfigurar seus interesses privados em projetos políticos majoritários próprios ou afins. Essas elites perderam seus pontos de referência. Elas sempre se refugiaram e se legitimaram em seus vínculos com os países centrais e na promessa de trazer o exterior para o continente como modelo para a modernização do arcaico e do periférico. Mas olhar “para fora” hoje em dia não é motivo de muito entusiasmo. O artigo é de Amílcar Salas Oroño.

Amílcar Salas Oroño – Página/12

1. Boa parte das forças políticas opositoras latino-americanas evidenciam hoje uma crise de identidade. Encontram-se em um pântano de ideias, uma frustração frente a certas propostas políticas impulsionadas por alguns governos da região. Trata-se de uma situação que não é simplesmente de superfície: no fundo, ocorre que as elites latino-americanas estão vendo encurralada sua capacidade ideológica para transfigurar seus interesses privados em projetos políticos majoritários próprios ou afins. Neste sentido, um processo de antielitização latino-americana parece também estar constituindo a cena contemporânea.

2. O dilema para estas forças opositoras é que elas incorporaram quase como único e relevante princípio de ação aquilo que é indispensável para as elites: reeditar uma possível “harmonia” dos interesses sociais, tornarem-se os garantidores de uma sociedade sem conflitos na qual primem os mecanismos “naturais” de resolução de demandas, junto com as posições de privilégio. Frente às “desmedidas” dos governos, a importância prática do “equilíbrio”. Pode-se dizer que elites e forças opositoras se mimetizam, ou melhor, se complementam: os setores opositores funcionam como descarga discursiva das elites, com o apoio dos meios massivos de comunicação. Mas essa mesma pretensão do “fim dos conflitos” apresenta hoje em dia sérios problemas para relançar-se teoricamente em alguns países.

3. Não é no nível concreto da geração de riqueza ou em fatores de poder que as elites perderam terreno, mas sim em uma dimensão que também resulta fundamental para a dialética social: os imaginários coletivos. As elites não estão conseguindo atravessar e organizar discursivamente há algum tempo os diferentes níveis de linguagem das sociedades. Como dado eloquente, cabe destacar que as manchetes do Clarín e do La Nación, na Argentina, do ABC, no Paraguai, ou do Estadão e da Folha de São Paulo, no Brasil, já não geram a mesma comoção na opinião pública. Neste sentido, a capacidade das elites para promover uma extensão de seus (auto) princípios de legitimação – com seus valores, modelos de relações sociais e metas coletivas – está fortemente afetada; é como se uma brecha tivesse sido aberta entre suas interpretações e os imaginários coletivos.

Esta circunstância se deve, fundamentalmente, ao fato de que as elites periféricas perderam seus pontos de referência. Elas sempre se refugiaram e se legitimaram em seus vínculos com os países centrais e na promessa de trazer o exterior para o continente como modelo para a modernização do arcaico e do periférico. Mas olhar “para fora” hoje em dia não é motivo de muito entusiasmo: crises especulativas com prejuízos na casa dos bilhões, deslocamento forçado de contingentes de imigrantes, perseguições religiosas, modelos de sociedade baseados na redução salarial e no ataque a direitos adquiridos, ou então o avanço de valores como os que impulsionam o Tea Party, nos EUA, ou os partidos de direita na Suécia e na Hungria.

4. Esta desorientação habilita, por sua vez, o giro “antielitista”: arraigam-se outros princípios ordenadores nos imaginários latino-americanos. Há novos sentidos comuns e outras dinâmicas – e outras maneiras de descrevê-las – vinculados com as agendas públicas de certos países: se no Brasil, talvez pela primeira vez em sua história, percebe-se coletivamente a possibilidade de uma mobilidade social para os setores subalternos, isso se deve ao impacto de determinadas políticas, como a reversão da primazia do trabalho informal sobre o formal ou os milhões de novos estudantes que tiveram acesso à universidade; na Venezuela, o declarado “anti-imperialismo” cultural e institucional construiu, como mostram alguns estudos, outros tipos de interação e modelos de relações sociais, inclusive domésticas, a respeito do que implica uma sociedade do consumo; o mesmo poderia se dizer sobre o “bem viver” no Equador ou Bolívia, capítulos constitucionais que, burocraticamente, colocam reparos práticos às tentações neoextrativistas e, ao mesmo tempo, reasseguram sua particularidade política histórica: a inclusão de identidade indígena em seus projetos; ou na Argentina, onde a “democratização” de certos aspectos cotidianos, como o matrimônio igualitário ou a pluralidade da informação, reconfigura o caráter do significado do progresso pessoal.

5. Estas fórmulas, que lutam espiritualmente com outras não tão auspiciosas e também creditáveis aos governos em questão, atravessam os imaginários sociais e se incorporam aos universos simbólicos da cidadania, orientam e organizam a absorção das interpretações circulantes: de alguma maneira, constituem-se nas barreiras ideológicas que encontram as elites para impor suas ideias. Não se trata, como diz Beatriz Sarlo, de uma simples “batalha cultural”; deve reconhecer-se como um avanço político o fato de que os modelos societários das elites estejam sem possibilidades de movimento e capilaridade.

Isso não anula a debilidade e a falta de organicidade com as quais se dão as mudanças, ou que apareçam fricções no interior das coalizões governamentais: ocorre no Equador com a Aliança País e os movimentos sociais, com Dilma Rousseff e a bancada parlamentar do PMDB, ou entre o governo e a CGT na Argentina. Mas essas fricções não são em torno de outros mapas conceituais, como gostariam os meios de comunicação conservadores e as elites, mas sim no interior de um mesmo quadro de ideias – assumidos com maior ou menor honestidade pelos atores – precisamente aquele que, posto em movimento, gera uma antielitização das linguagens de baixo para cima.

6. Os imaginários sociais não são realidades secundárias: ali também se colocam questões chave para o futuro. Está claro que não há condições objetivas para uma radical “mudança de época” na América Latina. No entanto, há certas condições subjetivas, no plano dos imaginários, que parecem ter dado um salto otimista, e que são consequência da interação com certas políticas públicas; daí a crise de identidade e de perspectiva de certas elites e forças opositoras. A região apresenta uma diferença em relação a outras latitudes: ao invés de levantar muros entre comunidades, talvez seja o momento para assumir em sua verdadeira dimensão conceitual aquilo que está comprometido socialmente com a originalidade latino-americana; como insistia José Carlos Mariátegui: nem imitação, nem cópia...criação heroica.

(*) Professor do Instituto de Estudos da América Latina e Caribe, da Universidade de Buenos Aires.

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 28 de maio de 2011

Época não merece desmentido. Merece processo

Texto publicado em: Tijolaço























Os médicos Antônio Carlos Onofre de Lira, diretor técnico, e Paulo Ayroza Galvão, diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês, por solicitação da Presidenta Dilma Roussef, emitiram agora à tarde um longo e detalhado relatório sobre os atendimentos prestados a ela.


Tratam em detalhes e com absoluta transparência todo os diagnósticos e terapêuticas relativos a eles.
O assunto de interesse público – a saúde da Presidenta – foi tratado com uma transparência ímpar. Aliás, sempre foi, mesmo quando ainda candidata.

Mas não foi transparência o que fez a Época. Foi violação de documentos médicos  privados  -  e cuja divulgação só pode ser feita por autorização do paciente, segundo resolução nº1605/2000, do Conselho Federal de Medicina.

A revista teria todo o direito de formular perguntas sobre a saúde da presidente a ele ou a seus médicos. Mas está confesso nas próprias páginas da revista que “Época teve acesso a exames, a relatos médicos e à lista de medicamentos usados pela presidente da República”. Não foi, repito, informação sobre assuntos ou políticas públicas. Nem mesmo um diagnóstico ou prognóstico que, por sério, pudesse ter interesse para a sociedade. Foram detalhes personalíssimos, que a ninguém dizem respeito.
Isso é crime, previsto no Art. 154 do Código Penal. Tanto quanto é crime a violação de um extrato bancário, de qualquer pessoa. Crime para quem viola o que está sob sua guarda, seja um profissional hospitalar ou um gerente de banco, quanto para quem o divulga, sabendo que foi obtido de forma ilícita.
Não havia um crime a denunciar, um perigo a prevenir, algum direito de pessoa ou da sociedade a proteger, com a divulgação.
A intenção, prevista na lei de “produzir dano a outrem” está marcada pela fotografia “fúnebre” da capa e pela reunião maliciosa entre o uso de remédios para uma infecção – a pneumonia – com outras situações que nada têm a ver com ela – o hipotireoidismo, por exemplo – e até substâncias de uso tópico para aftas, como o bicarbonato de sódio e o Oncilon.

Isso nada tem a ver com o dever de dar informações sobre a saúde de uma pessoa pública.  Tanto que elas são e foram dadas sempre, nos boletins médicos.
A motivação foi política: gerar medo, intranquilidade e dúvida sobre sua capacidade de governar. O que se praticou foi um crime – e não apenas um violação ética, o que já é grave – e crimes devem merecer responsabilização.

Mas, aqui, no país onde o inimigo político é culpado até que prove sua inocência (e olhe lá), pretender que a imprensa aja dentro da lei é “perseguição”.

PS. Senti falta da nossa blogosfera progressista para falar deste absurdo e do assanhamento tucano em demolir o governo que o povo elegeu. Será o frio que está fazendo hoje? (Em tempo, o Azenha deu divulgação a esta maracutaia farmacêutica da Época)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Revoltas jovens começam a contagiar Europa

Texto publicado em: Outras Palavras

Por Pep Valenzuela, correspondente de Outras Palavras em Barcelona

Barcelona, 18 de maio de 2011. Estamos nos preparando para pegar o metrô em direção à praça Catalunha, centro nevrálgico da cidade. Recebemos por “sms” e Facebook, mensagens que pedem apoio aos jovens acampados na praça há duas noites. Também estão ocupadas a Puerta del Sol, no centro de Madri, e espaços em dezenas de outras cidades espanholas.

Na iminência de eleições locais e autonômicas (equivalente às estaduais, no Brasil), domingo próximo, milhares de pessoas exigem democracia real ya e gritam para os partidos do stablishment, principalmente PSOE e PP: “vocês não nos representam”, “não há pão como para comer tanto chorizo (um tipo de salame e, ao mesmo tempo, gíria para corrupto)”. Defendem também os direitos sociais e protestam contra os cortes nos orçamentos públicos, especialmente de saúde e educação. Tudo indica que os protestos não vão parar por enquanto. O movimento, muito plural e diverso, com marcante presença de jovens, espontâneo, pacífico, espelha-se nos protestos por democracia e direitos nos países do Oriente Médio, e contra a crise econômica, na Islândia.

No fim de semana passado, foram convocadas dois protestos. O primeiro, no sábado, em Barcelona, articulado por uma plataforma de dezenas de entidades, em conjunto com os sindicatos. O segundo, no domingo, em várias capitais de província espanholas, chamado pela coalizão que depois propôs realizar os acampamentos montados até agora. Na capital da Catalunha, havia mais de 50 mil pessoas. Pode ter sido a volta por cima, após anos de desmobilização diante das políticas dos governos espanhol e catalão – que seguem à risca as exigências da União Europeia e FMI. As passeatas de domingo, tiveram surpreendente participação.

Em seguida, exatamente como aconteceu na Praça Tahrir (Cairo), várias delas transformaram-se em acampamentos. O mais numeroso está armado em Madri, onde se concentraram, já no primeiro momento, em torno dos 10 mil manifestantes. Ninguém sabe nem imagina até onde pode chegar a nova forma de manifestação. Mas há algo muito destacado. O questionamento das formas atuais de democracia já assumiu a condição de tema principal. As palavras de ordem ganham adesão crescente e apoio popular. Os primeiros a serem pegos de surpresa foram, certamente, os próprios protagonistas das ações.

Nas circunstâncias e contexto, não há como não lembrar os protestos e manifestações que também marcaram as eleições legislativas do ano de 2004 depois das bombas na principal estação de trens de Madri. Naquela época, levaram ao governo espanhol, pela primeira vez, um candidato pouco cotado: José Luis Rodríguez Zapatero, desde então primeiro-ministro.

Além de acontecer no período eleitoral, a mobilização é marcada pelo espontaneidade e pela utilização maciçã das redes sociais, como meio principal de comunicação. A terceira característica comum é o protesto contra a que poderíamos chamar de “política oficial”, identificada como corrupta e antidemocrata. Uma das palavras de ordem dos jovens é: “parece democracia, mas não é”. Mais um traço comum: o protagonismo de novas gerações, que na maioria dos casos não tiveram experiências de militância política, social e ou sindical “clássica” – e que ou as rejeitam, ou simplesmente as desconhecem e desconsideram.

Longe dos programas políticos dos candidatos às eleições, as prioridades na lista do movimento são valores, dignidade e vergonha na cara – simples assim. Não adiantam discursos nem justificativas pois, acreditam os manifestantes, não pode haver pessoas sem direitos, sem presente e – pior – sem futuro. Há aqui mais um ruído: os políticos espanhois e catalão não se cansam de “alertar” que as gerações futuras viverão pior que seus pais. Esses jovens simplesmente não aceitam.

Mesmo que seu futuro seja incerto, o movimento e protestos colocam em evidência, no mínimo, que não vai ser fácil cremar o estado do bem-estar social no altar dos mercados financeiros internacionais – ao contrário do que pensam a Comissão Europeia e o FMI. Mas além dessa resistência, coloca-se, ainda que em estado latente, uma proposta alternativa de política, economia e sociedade. Um outro mundo é possível e, quem sabe, passeia pelos acampamentos nas praças do Estado espanhol.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Chomsky: "Minha reação diante da morte de Osama"

Texto publicado em: Carta Maior


Noam Chomsky - Guernica Magazine

Fica cada vez mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.

Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.

O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Portanto, Obama simplesmente mentiu quando disse na sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaeda".

Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.

Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregue Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território invadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.

O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o encarniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.

Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórida, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.

O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.

É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".

Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT. É autor de numerosas obras políticas. Seus últimos livros são uma nova edição de "Power and Terror", "The Essential Chomsky" (editado por Anthony Arnove), uma coletânea de seus trabalhos sobre política e linguagem, desde os anos 1950 até hoje, "Gaza in Crisis", com Ilan Pappé, e "Hopes and Prospects", também disponível em áudio.

Fonte: Cubadebate

“O Ensino Médio ainda está muito distante da realidade dos jovens brasileiros”

Texto publicado em: Carta Capital

Ricardo Carvalho
9 de maio de 2011 às 16:17h

Relator das novas diretrizes do Ensino Médio aprovadas na última semana pelo CNE, José Fernandes de Lima diz que medidas visam flexibilizar a grade curricular

O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, na quarta-feira 4, as novas diretrizes do ensino médio. O CNE decidiu flexibilizar o currículo desse ciclo e conferir às escolas mais autonomia, permitindo que elas montem seus projetos político-pedagógicos a partir de quatro dimensões do conhecimento: ciência, tecnologia, cultura e trabalho. Na prática, o conselho espera aproximar essa grade curricular da realidade do jovem brasileiro numa faixa-etária em que existe alto índice de evasão, 10%, de acordo com dados de 2009. Além do mais, somente 50% dos jovens entre 15 e 17 anos matriculados no ensino regular frequentam as salas do ensino médio. Os demais permanecem no ensino fundamental.

A escola poderia, desse modo, direcionar o estudo de acordo com a vocação das comunidades onde estão localizadas. Uma instituição num distrito industrial teria como centrar-se em disciplinas ligadas à tecnologia, química e física. Já em regiões turísticas, o foco poderia ser em história e geografia. O texto final ainda está na fase de revisão técnica e precisa ser aprovado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. O relator do documento, conselheiro José Fernandes de Lima, diz que as diretrizes vão além da dicotomia entre conhecimento científico e ensino técnico. Em entrevista a CartaCapital, ele diz que o objetivo principal é conferir uma identidade ao ciclo, o que refletirá diretamente na diminuição dos índices de evasão. Confira os principais pontos da entrevista.

CartaCapital: Quais as razões da discussão de novas diretrizes para o Ensino Médio?
José Fernandes de Lima: O que motivou o documento foram as transformações sociais e tecnológicas dos últimos anos. Isso pressionou fortemente as escolas para uma aproximação com a realidade do jovem. No Ensino Médio, o jovem espera encontrar na escola programas que tenham a ver com seus projetos de vida, e isso não acontece hoje.

CC: Por que?
JFL: É uma explicação histórica. O Brasil demorou muito para investir no Ensino Médio. Somente em 1931 instalou-se o Ensino Secundário, e a ampliação da oferta do Ensino Médio é dos últimos 20 anos. Por muitos anos, esse ciclo sempre foi tratado de forma excludente, não conseguíamos trazer os alunos para a escola. Então houve um grande esforço do País nos últimos anos no principal ponto, o acesso. No final da década de 90, para se ter uma ideia, tínhamos a metade do número de matriculas no ensino médio do que temos hoje.

CC: Qual é esse número?
JFL: Cerca de 8,3 milhões de pessoas no ensino regular. Mais 1,6 milhão matriculado no Educação de Jovens e Adultos (EJA).

CC: É correto afirmar que é uma tentativa de tornar um Ensino Médio mais próximo do Ensino Técnico?
JFL: Não. Acreditamos que o Ensino Médio não deve preparar apenas para a continuidade do estudo no ensino superior. Ele também tem que preparar o aluno para a vida. Afinal de contas, trata-se da etapa final da Educação Básica. Entretanto, a escola não pode abrir mão de aprofundar o ensino científico. Propomos que, além da parte teórica, ela aposte no trabalho como princípio educativo, explorando as relações do trabalho e momentos de trabalho coletivo. Propomos que a escola explore as novas tecnologias e articule-se em torno de áreas como artes e cultura. As novas diretrizes para o Ensino Técnico estão sendo trabalhadas separadamente. Mas é importante ressaltar que as diretrizes não são receitas prontas, as escolas devem debater com as comunidades para fazer as adaptações na grade curricular.

CC: Quais as alterações que as diretrizes propõem para as aulas em período noturno?
JFL: Nesse ponto também entra a questão de dar uma identidade ao ciclo. Para que o Ensino Médio chegue a toda a população nessa faixa-etária, as escolas devem usar de criatividade e flexibilidade. Se há dificuldades para cumprir as 2,4 mil horas em três anos, porque muitos trabalham durante o dia, o jovem poderia concluí-lo em três anos e meio ou quatro anos. Também abrimos a possibilidade para que no ensino noturno até 20% das aulas sejam não presenciais.

CC: Propor um Ensino Médio menos tradicional não prejudicaria a questão do acesso à universidade, predominantemente marcado por vestibulares?
JFL: Colocamos nas diretrizes que as avaliações, inclusive os vestibulares, devem levar em consideração esse novo modelo. Nesse sentido, a reformulação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já foi um avanço. Mas na medida em que formos avançando na implementação das diretrizes, novas formas de avaliação podem ser discutidas.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

IBGE explica por que a elite odeia Lula

Texto publicado em: blog da Cidadania

Foi uma luta para encontrar dados que mostrassem a evolução do índice de Gini do Brasil entre 1995 e 2010. A mídia esconde esses dados porque mostram um fato que destrói a versão que vem sendo alardeada após a divulgação da maior queda de concentração de renda no Brasil durante os últimos 50 anos, de que ocorreu nos governos FHC e Lula.

Em primeiro lugar, o noticiário deixa claro um fato sobre o qual pouco se fala: a ditadura militar (1964-1985) foi implantada para concentrar renda, ou seja, para tornar os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres. Em 1960, antes da ditadura, o índice de Gini era de 0,537 e, em 1995, estava em 0,600. A concentração de renda foi brutal, no período.

Mas o fato mais contemporâneo também é surpreendente e pode ser bem constatado no gráfico acima: durante o primeiro mandato de FHC, a desigualdade permaneceu praticamente intocada e só caiu um pouco a partir do segundo mandato. Já no governo Lula, a queda foi impressionante, fazendo o índice de Gini cair a 0,530 – quanto mais próxima de zero, menor é a concentração de renda.

O IBGE também explica por que os estratos superiores da pirâmide social odeiam tanto Lula. Entre os 20% mais ricos, que se concentram no Sul e no Sudeste, a escolaridade aumentou 8,1% e a renda cresceu 8,9%. No recorte dos 20% mais pobres, que ficam no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, a escolaridade aumentou 55,6%, e foi acompanhada de um aumento de renda de 49,5%.

Por etnia, os negros também experimentaram aumento de renda muito maior do que os brancos, vale dizer. Sobretudo porque negros e descendentes de negros são muito mais numerosos no Norte e no Nordeste.

O governo FHC é tão defendido pelos ricos, que também são donos da mídia, porque foi o que puderam conseguir em termos de, se não aumentar a concentração de renda, ao menos retardar a sua queda. Lula virou as costas para a elite e promoveu a maior distribuição de renda da história deste país. Por isso a elite branca do Sul e do Sudeste o odeia com tanto fervor.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Matar Bin Laden, ressuscitar a Al-Qaeda

Texto publicado em: Caros Amigos

Por Santiago Alba Rico, para o Rebelión

Uma das maiores surpresas nos levantes populares no mundo árabe é que eles deixaram momentaneamente fora de cena todas as forças islâmicas e, especialmente, a mais extremista Al-Qaeda - marca comercial obscura e altamente instrumentalizada para embasar ditadores, reprimir todo tipo de dissidência e desviar a atenção dos verdadeiros campos de batalha.

Com indicações de caráter geral, tais como a aspirina, Bin Laden reaparecia sempre que necessário para alimentar a "guerra ao terrorismo"; foi mantido vivo para sacudir encruzilhadas eleitorais ou justificar leis de exceção e emergência. Desta vez, a situação era grave demais para não usá-lo pela última vez, numa orgia midiática que ofusca até mesmo o casamento do príncipe William e introduz efeitos muito preocupantes no mundo todo.

Quando parecia relegada ao esquecimento, finalmente encurralada pelos próprios povos que deveriam apoiá-la, a Al-Qaeda reaparece. Um grupo de desconhecidos, em nome dessa patente, assassina Arrigoni na Palestina (pacifista italiano pró-Palestina). Dias depois, no auge dos protestos anti-monarquia no Marrocos, uma bomba explode na praça Jamaa Fna, em Marrakech. E, agora, Bin Laden reaparece, não vivo e ameaçador, mas em toda a glória do martírio adiado, estudado, cuidadosamente encenado, e um pouco improvável.

"A justiça se fez", disse Obama; mas a justiça exige tribunais e juízes, procedimentos de inquérito, e não uma sentença independente. George Bush foi mais sincero: "É a vingança dos EUA", disse ele. "É a vingança da democracia", acrescentou, e milhares de democratas estadunidenses vibraram de alegria em frente à Casa Branca, saltando com bárbara euforia sobre esqueletos.

Mas, democracia e vingança são tão incompatíveis como pedagogia e infanticídio. Os Estados Unidos gostam de linchamentos, sobretudo aqueles feitos pelo ar, sabendo que são mais poderosos do que os princípios. "O mundo está aliviado", disse Obama, mas, ao mesmo, alertou sobre "ataques violentos ao redor do mundo após a morte de Bin Laden". Atenção?! Alerta?! Promessa?! Que alívio pode produzir um assassinato que, declaradamente, ao mesmo tempo ameaça aqueles que, presumivelmente, se quer salvar?

Este era o momento. A Al-Qaeda volta a dominar a cena; a Al-Qaeda volta para saturar o imaginário ocidental. Enquanto o suposto cadáver de Bin Laden é lançado ao mar, Bin Laden assume, de forma fantasmagórica, todas as lutas e todo o desejo de justiça. Será cumprida a profecia de Obama: haverá ataques violentos por todos os lados e o mundo árabe-muçulmano voltará a ser um apanhado de fanatismos e decapitações, querendo ou não suas populações. Entre democracia e barbárie, é evidente que os EUA não tem dúvida: a barbárie se ajusta muito melhora ao "American Dream" (“sonho ameriaco”) e, claro, ao delírio de Israel.

Nós não sabemos se realmente assassinaram Bin Laden; o que fica claro é que o esforço para ressuscitar a todo o custo a Al-Qaeda pretende matar os processos de mudança que começaram há quatro meses no mundo árabe.