quinta-feira, 25 de novembro de 2010

América Latina: avançar em bloco

Texto publicado em: Agência Carta Maior

A vitória de Dilma nas eleições presidenciais acena para o sonho dos libertadores latino-americanos: Simon Bolívar, José Artigas, San Martin, Tupac Amaru, El Cura Hidalgo, Bernardo O'Higgins, Tiradentes. Ou seja, para um nacionalismo que não se fecha ensimesmado sobre si mesmo numa atitude belicosa frente aos países vizinhos, senão que procura a integração através do intercâmbio político, econômico, social e cultural. Tal é o caminho para consolidar e aprofundar a democracia no continente. O artigo é de Ronaldo Zulke e Luiz Marques.

Ronaldo Zulke e Luiz Marques

Alguns observadores classificam os governos de (centro-) esquerda da América Latina, eleitos após o fracasso das políticas de ajuste fiscal, privatização do patrimônio público, desregulamentação estatal, desindustrialização e desemprego em massa produzidos pelo neoliberalismo, fruto de uma inserção subordinada na chamada Nova Ordem Mundial, de “reformadores” e “refundadores”. Aos últimos pertenceriam os governos que refizeram o pacto político-jurídico em suas respectivas pátrias votando outra Carta Magna, como a Venezuela e a Bolívia. A diferença diz respeito à correlação de forças entre as classes sociais e às possibilidades constitucionais existentes para viabilizar pontos programáticos de interesse das maiorias, como a desconcentração de terras para atender os reclames represados pela reforma agrária. A subdivisão analítica entre governos reformadores e refundadores, contudo, não significa uma distinção ideológica do tipo “reformistas” e “revolucionários”, até porque nenhuma Constituição na AL questiona a propriedade privada dos meios de produção, base do capitalismo.

Propósitos
Mais que as diferenças procedimentais, chamam a atenção as semelhanças de propósitos entre os governantes que emergiram da onda democrática desde el fin de siglo. Onda que, se não é linear como comprovou-se no Chile recentemente, é densa o suficiente para alterar a geopolítica do território que já foi tido como uma simples extensão dos Estados Unidos.

“A dependência econômica ainda é um fato, mas politicamente a AL é cada vez mais livre. Washington jamais voltará a exercer a influência que tinha antes”, observou historiador Eric Hobsbawm (FSP, 15/09/09). Mas, mesmo a dependência econômica, precisaria ser relativizada em função da sofisticada diversificação de parcerias comerciais atualmente. O Brasil, por exemplo, tem hoje na Ásia o destino de 25,8% de suas exportações, na AL e no Caribe 23,3%, na União Européia 22,2% e no Mercosul 10,3%. Se os EUA somados a China e a Argentina representam um terço das exportações brasileiras, a União Européia, a AL e o Caribe contabilizam 45,5% (Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior, 2009). Os dados revelam uma complexidade nas relações internacionais que já não se coaduna com a proverbial e pejorativa metáfora do “quintal”. O tempo passou, e há quem ainda não viu.

O fortalecimento do Mercosul, em contraposição à Alca, contribuiu também para o processo de independentização econômica em curso fazendo as exportações intra-regionais saltarem de U$ 4 bilhões para U$ 33,5 bilhões e, as exportações da região para o mundo, de U$ 46 bilhões para U$ 222 bilhões nos últimos anos (fonte: idem). Setores da economia, sem compromisso com o empoderamento da soberania nacional e continental, lamentam o rompimento do antigo cordão umbilical. “O Mercosul foi um dos projetos que mais sofreu com a partidarização da política externa brasileira. A visão de mundo do PT, a prioridade para criar um contrapeso aos EUA e a inclusão da Venezuela como membro pleno do Mercosul alteraram profundamente os rumos do processo de integração subregional”, acusou o presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, o desembargador tucano Rubens Barbosa (O Globo, 27/04/10).

“Despartidarizar” significaria flexibilizar as regras em vigor para tornar possíveis tratados individuais de livre comércio: a Alca, claro, para intensificar os laços com a grande potência. Serra reiterou essa disposição entreguista e subserviente às vésperas da derrota (Zero Hora, 22/10/10). Tem-se uma idéia, assim, da dimensão internacional da disputa político-eleitoral que se encerrou.

Libertadores
A vitória de Dilma nas eleições presidenciais acena para o sonho dos libertadores latino-americanos: Simon Bolívar, José Artigas, San Martin, Tupac Amaru, El Cura Hidalgo, Bernardo O'Higgins, Tiradentes. Ou seja, para um nacionalismo que não se fecha ensimesmado sobre si mesmo numa atitude belicosa frente aos países vizinhos, senão que procura a integração através do intercâmbio político, econômico, social e cultural. Tal é o caminho para consolidar e aprofundar a democracia no Continente, como em várias ocasiões partidos políticos e movimentos sociais debateram no Fórum de São Paulo. Vale sublinhar que uma cláusula do Mercosul advoga a entrada no bloco apenas às nações que vivam sob regime democrático. Com idêntica preocupação, o Parlamento do Mercosul elabora informes anuais sobre os direitos humanos na região, o que atualiza o tema da cidadania na agenda pública. Uma forma de recrudescer as defesas da civilização contra os ataques da barbárie que tantas vezes supliciou os povos da AL, abrindo-lhes as veias sob tortura com a cumplicidade ativa e vergonhosa das “elites”.

Em continuidade ao trabalho do governo Lula, Dilma incrementará o Mercosul inclusive para enfrentar em melhores condições a guerra fiscal que os EUA insuflam com a desvalorização competitiva do dólar, à guisa de “política econômica” para sair da crise provocada pela bolha imobiliária gerada pelos próprios. No intuito de aumentar a competitividade de suas exportações desconsideram os efeitos colaterais devastadores que jogam sobre o “sistema-mundo”, na sintomática expressão do sociólogo Immanuel Wallerstein. O artifício estadunidense (e chinês, diga-se de passagem) foi o principal foco de tensão sobre os líderes do G-20 na reunião de Seul, que tirou um documento com indicativos para evitar o desequilíbrio global nas taxas de câmbio e o protecionismo comercial. Se o tensiômetro funcionará é outra conversa.

Ações concretas
Priorizar o vetor de relacionamento Sul-Sul é uma questão fundamental, para a saúde da economia e da política por assegurar o crescimento com soberania na AL. A criação do BANCO DO SUL, em 2007, avalizada conjuntamente pela Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Venezuela, com capital inicial (U$ 20 bilhões) formado por parte das reservas monetárias internacionais dos países membros para financiar planos de obras em infraestrutura e de comércio regional, foi uma iniciativa importante para vertebrar financeiramente a coletiva declaração de independência face ao neocolonialismo imperial. “Devemos trazer nossas reservas depositadas no hemisfério Norte, que eles usam para dar crédito a nós mesmos”, demarcou o entusiasta presidente Hugo Chávez à época.

Os critérios para a autorização de empréstimos ficaram definidos por meio de uma fórmula mista de cálculo sobre a cota de poder de decisão atinente à cada sócio, nessa ambiciosa empreitada que se apresenta como uma alternativa ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ao Banco Mundial (Bird).

Na mesma ótica inscreveram-se: a TELESUR (www.telesurtv.net), uma emissora televisiva vinculada às causas populares que dá voz e imagem aos latino-americanos e se opõe à ditadura do monopólio direitista e golpista dos meios de comunicação, não à toa sediada em Caracas; a PETROSUR, uma empresa petroleira para fomentar mecanismos de cooperação e complementariedade na AL para el mejoriamento socioeconómico de sus pueblos; o GASODUTO DO SUL, com cerca de 8000 km de encanamentos que se estendem do Caribe ao Pampa para atender às demandas energéticas do presente e do futuro, tendo como pilar a questão social; a UNIVERSIDADE DE INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA (UNILA), localizada na fronteira trinacional de Foz do Iguaçu, cuja primeira unidade foi emblematicamente o Instituto Mercosul de Estudos Avançados, e que contempla linhas de formação ligadas à Ecologia e à Biodiversidade, à Economia e ao Desenvolvimento Integrado, à Engenharia de Energias Renováveis e à Engenharia Civil de Infraestruturas, acrescidas de seminários sobre a Sociedade, o Estado e a Política na AL.

Que a mídia nativa não noticie as ações integradas e integradoras praticadas pelos governos reformadores ou refundadores compreende-se: contrariam o senso comum sedimentado e alastrado na esteira do neoliberalismo, contraditam o silêncio imposto pelos pretensos donos da opinião pública, recuperam o valor da dignidade e da autonomia.

Avançar em bloco
Continuar a avançar em bloco é a maneira correta para sobreviver na selva capitalista contemporânea. Trata-se, não da realização da profecia de Leon Trotsky sobre a União das Repúblicas Socialistas da América Latina, mas de prospectar novos horizontes e ampliar os espaços de autodeterminação do Brasil e da AL na construção de um destino com justiça social e participação popular. Nenhum país, fale português ou espanhol, conseguirá erguer os alicerces do Estado de Bem Estar-Social isoladamente. Nessa luta, a primeira mulher eleita para o Palácio do Planalto, a Presidenta Dilma, não estará sozinha. Com certeza.

(*) Ronaldo Zulke é deputado federal eleito do PT-RS; Luiz Marques é professor de Ciência Política da UFRGS.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Eduardo Guimarães: imprensa gerou ódio contra nordestinos em SP

A campanha que os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, a revista Veja e a Rede Globo, entre outros, empreenderam junto aos paulistas visando eleger José Serra presidente da República foi a verdadeira responsável por incitar o ódio contra nordestinos que se viu nas redes sociais no último domingo, após a confirmação da vitória de Dilma Rousseff.

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania

Na verdade, para fazer justiça à campanha de Serra, não se tem maior conhecimento de ações suas no sentido de caricaturar o eleitorado de Dilma Rousseff – bem como o de Lula, sobretudo em 2006 – como sendo “nordestino”, “ignorante”, “desinformado” e “comprado” pelo “Bolsa Família”.

O bombardeio midiático sobre a população paulista começou no limiar de 2006, quando o presidente Lula passou a ostentar índices crescentes de aprovação nas pesquisas até se reeleger ao fim daquele ano.

No final de 2005, com o escândalo do mensalão sendo martelado incessantemente pelas imprensas de São Paulo e do Rio – que espalhavam seus conteúdos por meios de comunicação regionais de todo país, só que com bem menos sucesso do que em São Paulo –, Lula chegara ao fim daquele ano em queda nas pesquisas.

Apesar de haver suspeitas sobre aquelas pesquisas, o fato é que logo depois do ano novo, já em 2006, uma pesquisa do instituto Sensus mostrava reação do presidente, tendência que só faria aumentar até que ele finalmente derrotasse o tucano Geraldo Alckmin com uma enxurrada de votos.

Naquele momento, com as pesquisas desafiando os desejos eleitorais dos barões da imprensa, esta passou a promover verdadeira lavagem cerebral em a sua “clientela”, ou seja, nos setores de classe média-alta e alta que agora se constata que chegam à irracionalidade e à delinqüência movidos pelos preconceitos que lhes foram inoculados.

A imagem que ilustra este texto – o mapa do Brasil tingido de vermelho e azul conforme as regiões do país em que venceram Dilma e Serra – coroou uma campanha midiática que durou pelo menos quatro anos e que foi empreendida através das “análises” das pesquisas pelos veículos supra mencionados.

Aquelas análises reiteravam, vez após outra, que o eleitorado de Lula e – agora – Dilma era composto por “nordestinos” de “menor instrução” e “desinformados”, como se fosse possível alguém se esconder do tsunami antipetista que inundou os meios de comunicação nos últimos anos.

Apesar de a campanha de Serra ter incitado um ódio na sociedade que gerou até enfrentamento entre partidários tucanos e petistas em mais de uma ocasião, essa mesma campanha não promoveu preconceito contra nordestinos nem em São Paulo nem em parte alguma, até porque o candidato precisava dos votos do Nordeste.

Coube à imprensa paulista-carioca realizar essa insanidade de jogar brasileiros contra brasileiros. E talvez não tenha sido nem por estratégia eleitoral – e, se foi, tratou-se de uma burrice desmedida. É forte a impressão de que a caricatura que essa imprensa fez do eleitor médio de Lula e Dilma teve origem em uma birra infantil dos barões midiáticos.

Diante da constatação da insanidade que se apossou daqueles jovens de classe média alta nas redes sociais no último domingo, um dos veículos que mais difundiu as premissas das quais partiram os degenerados juvenis teve a audácia de publicar editorial criticando o produto de seu “jornalismo”, reconhecendo que Dilma não precisaria do Nordeste para vencer.

Na última quinta-feira, quatro dias depois da explosão racista de jovens paulistas na internet, a Folha de S.Paulo publicou o editorial em questão (abaixo).

Intolerância na rede

Uma parcela minoritária de eleitores insatisfeitos com a vitória de Dilma Rousseff incentivou uma onda de mensagens preconceituosas na internet contra nordestinos -aos quais atribui o sucesso eleitoral da ex-ministra.

Ataques mais extremados vociferam desejos separatistas e propõem, numa sombria caricatura nazista, que se construam “câmaras de gás” para eliminar a população do Nordeste.

São demonstrações que vêm no rastro do discurso sectário e da disputa política desqualificada que encontram na rede de computadores fértil território para prosperar. Ataques de baixo nível, ofensas, injúrias e disseminação intencional de boatos -nada disso faltou nos palanques virtuais ao longo da campanha eleitoral.

O caráter até certo ponto ambíguo das manifestações que acontecem nas chamadas redes sociais, nas quais conversas entre pessoas e comunidades transitam numa zona cinzenta entre o público e o privado, contribui para afirmar o mito do “território livre” que acompanha a internet desde o início de sua difusão. É como se ali todos estivessem protegidos não pelas leis, mas das leis – que só valeriam para casos extremos como crimes financeiros ou sexuais.

Não é demais lembrar que há no Brasil legislação para punir manifestações de racismo, não fazendo nenhuma ressalva para quando elas irrompem na internet. É acertada, portanto, a decisão da seção pernambucana da Ordem dos Advogados do Brasil de denunciar, por racismo e incitação de crime, uma das responsáveis pelos ataques ao afirmar em sua página que “nordestino não é gente”.

No mais, embora não seja este o cerne da questão, são incorretas as informações utilizadas pelos promotores da intolerância como esteio para a sua falta de razão. Em que pese a larga margem conquistada por Dilma Rousseff sobre José Serra em Estados do Nordeste, a petista venceria o pleito mesmo se os votos da região não fossem computados.


O editorial, por razões óbvias, passa ao largo da razão pela qual surgiu essa crença equivocada desse setor da população paulista na versão de que Dilma – e, antes dela, Lula – tenha sido eleita graças ao Nordeste. Esquiva-se, de forma patética, de analisar de onde veio essa mentalidade bizarra.

O que vem acontecendo em São Paulo por conta desse noticiário incitante ao preconceito racial, geográfico, cultural e político já fugiu ao controle outras vezes. Logo após o primeiro turno, este blog denunciou um inédito “bullying eleitoral” entre crianças na escola, prova de que começa cedo a doutrinação racista entre os setores mais abastados da população paulista.

A deformidade social que estes fatos revelam, portanto, precisa desencadear uma discussão sobre os limites entre a liberdade de imprensa e a pura e simples inoculação de ódios e preconceitos variados na sociedade. A imprensa deve ser livre para difundir idéias que resultem em confrontos sociais?

Não se pede que os fatos sejam omitidos, mas quando a interpretação deles é enviesada e imprecisa – pois Dilma e Lula sempre tiveram amplo apoio mesmo entre os setores mais ricos e escolarizados, ainda que, em alguns momentos, um pouco menor do que os adversários – as conseqüências podem ser nefastas.

A experiência induz à crença de que nos próximos anos esses meios de comunicação persistirão na prática de insuflar o Sul e o Sudeste contra o Norte e o Nordeste, como que responsabilizando-os por uma conjuntura política adversa para os grupos políticos que apóiam. A grande questão é sobre até que ponto farão esse ódio crescer.

sábado, 6 de novembro de 2010

Ranking do IDH desconsidera avanços recentes na área de educação

Texto publicao em: Portal Vermelho

O ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado esta semana pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), não reflete os avanços obtidos pelo Brasil nos últimos anos no campo da educação. A opinião é de três especialistas da área ouvidos pela Agência Brasil.
Apesar de apontarem problemas e defenderem a necessidade de mais investimentos no setor, os três acreditam que o país será mais bem avaliado nos próximos levantamentos, graças às políticas públicas colocadas em prática nos últimos quatro anos. No último levantamento, o país foi o que mais avançou, saltando da 77ª posição para a 73ª.

O desempenho, contudo, teria sido melhor se não fosse a revisão, pelo Pnud, dos critérios para avaliar a qualidade da educação, setor no qual o Brasil teve sua pontuação reduzida de 0,813 para 0,699, numa escala que varia de 0 a 1. O índice varia de 0 a 1 e, quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento humano.

Segundo o conselheiro do Movimento Todos pela Educação e professor da Universidade Federal de Pernambuco, (Ufpe), Mozart Neves Ramos, observando a evolução do índice é possível constatar “uma melhora acentuada” da educação brasileira, ainda que persistam problemas históricos como as altas taxas de repetência e a evasão escolar.

“Os investimentos aumentaram nos últimos três anos e os reflexos disso ainda não foram capturados pelo IDH. Mas a situação brasileira, de fato, ainda é delicada e temos muito o que fazer, principalmente se nos compararmos aos países vizinhos”, disse Ramos, elencando como prioridades para o próximo governo garantir que todas as crianças até 8 anos de idade saibam ler e escrever; criar um indicador nacional de alfabetização nessa faixa etária e valorizar os professores, procurando atrair jovens qualificados para o magistério.

O membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) Cesar Callegari também acredita que o ranking global não reflete a atual realidade do ensino brasileiro, embora a nova metodologia empregada seja melhor, na avaliação dele. Em vez de levar em consideração a taxa de analfabetismo e o número de matrículas nos três níveis de ensino, o Pnud passou a apurar a média de anos de estudo e a expectativa de escolaridade.

“A nova metodologia é mais fidedigna porque mede alguns valores que não vinham sendo levados em consideração, mas há algumas políticas recentes que ainda não foram avaliadas nesse índice, principalmente no tocante ao financiamento do sistema”, disse Callegari. “Por outro lado, os indicadores não revelam um problema de nossa educação, que são as desigualdades regionais”. Para ele, o próximo governo também deve dar especial atenção à melhoria da carreira do magistério.

O coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, considera que, mesmo que os novos critérios adotados pelo Pnud tenham prejudicado países em desenvolvimento (que intensificaram seus investimentos no setor nos últimos anos) como o Brasil, o índice não deixa de refletir o fato de que a educação no país é ruim e precisa melhorar urgentemente.

“A mudança, de fato, é menos sensível às políticas que o Brasil vem adotando nos últimos quatro anos. Isso é fato, mas não desabona o levantamento. A educação brasileira ainda não está bem encaminhada. Ela ainda é de uma qualidade sofrível e precisamos tomar medidas urgentes, com ações conjuntas de estados, municípios e União”, declarou Cara.

Informações Agência Brasil

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Espanha e a crise econômica global

Texto publicado em: Portal Vermelho

A crise financeira desencadeada nos Estados Unidos, e que transformou-se em uma crise econômica mundial, atingiu a Espanha mais duramente que outros países da Comunidade Europeia. A razão para isso provém, sobretudo, das debilidades estruturais da economia espanhola, que estiveram encobertas durante o longo período do Boom econômico que o país conheceu durante os anos de 1994 até 2007.

Por Holm-Detlev Köhler, Professor em Oviedo
A economia nacional espanhola – a oitava maior do mundo e a quinta da Europa, com um PIB de 1,05 trilhão de dólares americanos -, passou por uma drástica queda a partir da segunda metade de 2008, que aprofundou-se ainda mais depois. Em 2009, o PIB foi negativo (menos 3,6%), e a demanda interna teve uma baixa de 6,4%. Isso teve consideráveis efeitos sobre o mercado de trabalho: o desemprego, que em 2006 havia estado em 8,3% (em 1994, foi de 24,2%), subiu no primeiro trimestre de 2010 novamente a mais de 20%, atingindo 4,6 milhões de trabalhadores. A crise atingiu não apenas os bancos, a construção civil e a indústria, mas todos os setores e ramos da economia.

Mas o que levou a economia desse país, que mais fortemente cresceu na Europa em finais dos anos noventa e início da última década, a uma queda tão imediata e rápida?

As debilidades estruturais da economia espanhola

O crescimento da economia na Espanha na virada do milênio tem vários componentes, e alguns dos quais têm uma sólida natureza – como o desenvolvimento industrial no País Basco, em Navarra e em Valência. Porém, o núcleo do crescimento ocupacional esteve nos ramos do turismo e da construção civil, com suas atividades correlatas – hotéis, restaurantes, agências de viagem, imobiliárias, etc. Eles são, ao lado dos serviços domésticos e pessoais, o principal campo de atividades para os imigrantes. A construção civil, após uma década de crescimento contínuo, chegou a representar em 2007 o equivalente a 11% do PIB – mais do que em qualquer outro país europeu. Durante o Boom, eram construídas anualmente 100 mil novas residências, mais do que a soma conjunta da construção na França e na Alemanha. Mas em 2009, o número de novas construções teve uma queda de 80%.

Com estes dois setores pode-se identificar também os pontos fracos estruturais do modelo anterior de crescimento. Os postos de trabalho criados por eles são frequentemente precários, provocam danos à saúde e exigem pouca qualificação profissional. Os efeitos do crescimento são de curto prazo, e as consequências ecológicas são cada vez mais críticas – sobretudo na costa marítica do sul da Espanha.

Baixa produtividade, força de inovação débil e falta de investimento em pesquisa atuam como obstáculos dos produtos espanhóis nos mercados internacionais. E a concorrência cada vez maior com os novos países industrializados da Ásia e do Leste Europeu ameaçam reduzir o espaço ainda ocupado pela Espanha no comércio internacional.

A ampliação da Comunidade Europeia no leste do continente provocou o deslocamento da produção e dos serviços que exigem trabalho intensivo, além de uma redistribuição dos fundos regionais europeus, que antes haviam contribuído para o crescimento da economia espanhola – incluindo o setor da construção civil. Desde finais da década de oitenta, Bruxelas investiu cerca de 150 bilhões de euros no país, o que correspondeu de 1995 até 2005 a mais de 1% do PIB. Mas o atual orçamento da Comunidade Européia (2007 até 2013) reduz esse valor para a sua metade, e a partir de 2014 prevê-se o seu fim – em favor dos seus novos países membros.

Um outro fator que debilita a capacidade inovativa da economia espanhola é o caráter fragmentado de sua empresas: 95% das 3,35 milhões de empresas (2009) têm menos de 20 empregados, e a metade delas não possui nenhum, mas apenas o seu proprietário. Isso dificulta investimentos em produtividade e pesquisa.

Em resumo, no caso espanhol trata-se do encontro da crise econômica e financeira internacional com as debilidades estruturais de seu modelo de crescimento, o que levou ao fim de um ciclo de crescimento.

Mercado de trabalho: dinâmica e tragédia

O maior atingido pela crise na Espanha foi o seu mercado de trabalho. O país que nas décadas anteriores havia criado o maior número de postos de trabalho, os viu desaparecer rápidamente com a duplicação da taxa de desemprego em apenas um ano. Mais de 4 milhões e 500 mil pessoas estão desempregadas, o que representa mais de 20% da população. O desemprego entre os jovens de 16 a 24 anos dobrou nos dois anos de crise, e atinge o recorde mundial de 41,2%. Entre 2007 e 2009, foram eliminados na Espanha 1,64 milhão de postos de trabalho, cifra muito maior que a de outros países na Europa.

O governo espanhol foi pego de surpresa pela crise. Inicialmente, ele preparou um programa de construção civil pública prevendo a distribuição de 8 milhões de euros para as províncias e cidades. Complementarmente, anunciou um programa de incentivo a reformas de casas, edifícios, etc., mas apenas depois que o setor de construção praticamente paralisou.

Para os setores estratégicos como a indústria automobilística e de aparelhos domésticos foram introduzidos os prêmios para aquisição de novos produtos. Empresas autônomas, pequenas e médias foram apoiadas com créditos e incentivos fiscais especiais. E os desempregados que estavam prestes a perder o direito ao auxílio-desemprego, tiveram a garantia de mais seis meses de benefício. Essas medidas, porém, tiveram um efeito pontual e não foram suficientes para debelar a crise. Além disso, surgiram as dificuldades nos orçamentos das prefeituras e governos.

A atual política econômica espanhola consiste em quatro elementos: o fim do programa conjuntural, um programa de reorganização sustentada da economia, a reforma do setor bancário e a consolidação do orçamento estatal, por meio de um drástico programa de contenção de gastos públicos. Mas o futuro da economia espanhola é incerto. Mesmo havendo a recuperação da economia mundial e o aumento da demanda às empresas do país, as mencionadas debilidades estruturais continuarão presentes. Além disso, tanto a Espanha quanto os demais países da Comunidade Europeia sofrem as consequências da falta de instituições econômicas em condições de regular o euro na esfera do continente. Como muitos analistas já afirmaram, entre eles Paul Krugman, uma moeda comum só pode funcionar sem grandes turbulências com a existência de uma política econômica comum. Sem uma política monetária e financeira unitária e sem o controle do mercado de capitais, há sempre o risco de movimentos e ataques especulativos, além de uma concorrência regional que pode ter sérias consequências para os países envolvidos.

A Espanha terá que enfrentar nos próximos anos problemas fundamentais colocados pelo reordenamento de sua estrutura econômica e social, para cuja superação ela está mal equipada e preparada. Desse modo, o mais provável é que haja uma recuperação econômica muito lenta e moderada, sem a eliminação de seus graves problemas estruturais.

Fonte: Aus Politik und Zeitgeschichte, 6 setembro 2010. Tradução do alemão por Luciano C. Martorano