terça-feira, 19 de outubro de 2010

A verdadeira história do Plano Real

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Original em inglês no:
Planet Money -http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=130329523

Como dinheiro de mentira salvou o Brasil

Chana Joffe-Walt

Esta é a história de como um economista e seus colegas conduziram o povo brasileiro a salvar o país de uma inflação galopante. Eles tinham um plano inusitado e louco, e o plano deu certo.
Vinte anos atrás, a taxa de inflação no Brasil atingia 80 por cento ao mês. Com essa taxa, se uma duzia de ovos custasse R$1,00 em um dia, custaria R$2,00 no mês seguinte. Continuando assim, em chegaria a custar R$1.000,00
Na prática, isso significava que as lojas tinham que alterar seus preços todos os dias. O cara ia pelos corredores de uma mercearia, por exemplo, colando etiquetas com os novos preços nos mantimentos. Os fregueses se adiantavam para que pudessem comprar comida com o preço do dia anterior.
O problema remontava-se à década de 1950, quando o governo imprimiu dinheiro para construir sua nova capital em Brasília. E então, lá pelos anos de 1980, o padrão da inflação estava em vigor.
Funcionava mais ou menos assim:
  1. O novo Presidente chega com um plano novo.
  2. O Presidente congela os preços e/ou as contas bancárias
  3. O Presidente falha.
  4. O Presidente perde a eleição ou sai por impeachment
  5. Repita
Os planos obtiveram sucesso em apenas uma coisa: em convencer todo e cada brasileiro que o governo era incapaz de controlar a inflação.
Existia ainda uma outra opção que ninguém sabia. Ela era sonhada por quatro sujeitos da Universidade Católica do Rio. A única razão pela qual eles entram em cena agora – ou sequer em algum momento – é porque em 1992 aconteceu que o novo ministro da fazenda não entendia nada de economia. Então o ministro chamou Edmar Bacha, o economista que é o herói de nossa estória.

“Ele disse: 'Bom, eu acabei de ser nomeado ministro da fazenda. Você sabe que não entendo de economia, então por favor venha me encontrar em Brasília amanhã'”, Bacha se lembra. “Fiquei apavorado.”
Bacha tinha esperado por esse telefonema por décadas.
Ele e seus três amigos estudavam a inflação brasileira desde que eram universitários – três rapazes no bar da faculdade discutindo sobre o porquê de ninguém mais saber como resolver isso. E agora a eles era dito: “tá bom, venham e façam do seu jeito”.

Bacha foi convidado a encontrar-se com o Presidente.

“Eu pedi um autógrafo para os meus filhos”, conta Bacha. E então o Presidente escreveu para os filhos de Bacha um recado que dizia: “Por favor, falem para o pai de vocês trabalhar rápido pelo benefício do país”.
Os quatro amigos começaram então a definir como explicariam sua ideia. Você tem que diminuir a emissão de dinheiro, explicaram. Mas não menos importante, você tem que estabilizar a fé das pessoas no dinheiro. As pessoas têm que ser induzidas a pensar que o dinheiro irá reter seu valor.

Os quatro economistas queriam criar uma nova moeda que fosse estável, confiável e de credibilidade. Com um único senão: essa moeda não era de verdade. Nenhuma moeda, nenhuma nota. Ela era de mentira.
“Nós a chamamos de Unidade Real de Valor – URV”, conta Bacha. “Ela era virtual, não existia de fato”.
As pessoas ainda teriam e utilizariam a moeda existente, o cruzeiro. Mas tudo seria fixado em URVs, a moeda de mentira. Os seus salários seriam fixados em URVs. Os impostos seriam em URVs. Todos os preços seriam fixados em URVs. E as URVs seriam mantidas estáveis – o que mudava era quantos cruzeiros cada URV valia.

Digamos, por exemplo, que o leite custava 1 URV. Em um certo dia, 1 URV poderia valer 10 cruzeiros. Um mês mais tarde, o leite ainda custaria 1 URV. No entanto, aquele 1 URV poderia valer 20 cruzeiros.
A ideia era que as pessoas começariam a pensar em URVs – e parar com a expectativa de que os preços sempre subiriam.

“Nós não entendíamos o que era aquilo”, diz Maria Leopoldina Bierrenbach, uma dona de casa de São Paulo. “Eu dizia que aquilo era uma fantasia, porque não era verdadeiro”.
Ainda assim, as pessoas usavam as URVs. E depois de alguns meses, elas começaram a perceber que os preços em URVs eram estáveis. Quando isso aconteceu, Bacha e seus amigos poderiam declarar que a moeda virtual se tornaria a moeda verdadeira do país. Ela seria denominada de o real.
“A partir de agora todos irão receber seus salários e pagar por todos os preços na nova moeda, que é o real”, diz Bacha. “Esse é o truque”.

O dia em que eles lançaram o real, conta Bacha, um jornalista amigo dele perguntou, “Professor, o senhor jura que a inflação vai acabar amanhã?”

“Sim, eu juro”. Respondeu Bacha.

E assim, basicamente, a inflação acabou e a economia do país virou. Nos anos que se seguiram, o Brasil se tornou um grande exportador e 20 milhões de pessoas sairam da pobreza.
“Nós estávamos em êxtase”, conta Bierrenbach. “Todos ficaram muito felizes”.

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