segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"Brasil ficará mais forte se trabalhar com Rússia, Índia e China"

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Cláudia Guerreiro - Especial para Carta Maior

Severo crítico das políticas econômicas desenvolvidas pelos Estados Unidos e Europa para os países emergentes, o economista norte-americano Michael Hudson explica em entrevista à Carta Maior o seu ponto de vista para o desenvolvimento brasileiro no mundo pós-crise.

Como funciona a economia dos países emergentes no mundo pós-crise?

MICHAEL HUDSON: As categorias usadas em estatísticas refletem uma teoria econômica. As pessoas acham que as estatísticas são empíricas, mas na verdade elas refletem categorias teóricas e a maior parte das teorias econômicas reflete o interesse econômico de uma classe por uma nação. Assim, por exemplo, o conceito do Produto Interno Bruto (PIB) presume que todos são igualmente capazes de produzir e que todos recebem pelo trabalho e não algo como renda pessoal.

Porém, os economistas clássicos dividiram a economia entre as economias reais que se tem hoje: a economia de produção e de consumo e o setor rotier, RAMTA, FIRE (em inglês, Finança, Seguros e Especulação Imobiliária, em contraposição aos setores produtivos da economia). Então, os economistas clássicos dividiriam o índice nacional do PIB e produtos em produção e overheads (demanda). Mas, na verdade, o PIB é composto por rendimentos resultantes do trabalho. É como se Wall Street, os financistas e os locatarios ganhassem seu dinheiro por oferecer um serviço: emprestar dinheiro, financiar e alugar imóveis. No entanto, se levarmos em conta os 200 anos de economia clássica, veremos que juros e aluguel são demandas e não produtos. Daí a confusão entre investimento e produção.

Nesse contexto, as teorias de Benjamin Litworth, foram linguisticamente importantes. Ele dizia que as pessoas são moldadas pela linguagem que usam. Se a linguagem tem um conceito que prevê que todos são produtivos, isso significa que ninguém vai ganhar um “almoço grátis”. A Escola de Chicago diz que não existe “almoço grátis”. No entanto, a maioria das economias hoje visa a conseguir um “almoço de graça”. Essa é a tragédia da maioria das economias atuais.

Cada vez mais atividades financeiras estão voltadas para relacionar crédito e dívida para recursos de produção, para tornar rendimento em juros, aluguel em juros e o rendimento das pessoas em juros. É extrativo, não é produtivo. Então o conceito entre extração e produção é um exemplo de como palavras são importantes para moldar sua visão de mundo.

Para onde os conselhos de desenvolvimento deveriam se voltar?

MH: Eu acho que agora o foco deveria ser os países que compõem o BRIC porque eles fazem parte de uma classe diferente. O resto do mundo, especialmente os EUA e também a Inglaterra e a Europa, querem criar créditos livres para estabelecer uma relação entre o crédito e todos os seus recursos. Querem fazer isso com florestas, minas, e indústria. Assim, o BRIC está em uma posição que precisa de alternativa para o alinhamento entre Europa e a América do Norte

Em outra palavras, EUA e Europa estão prejudicados por juros. O mercado imobiliário, especialmente, está em crise. Os países do BRIC são os únicos que ainda não foram atingidos pela crise. Então algumas pessoas dizem: olhe, ainda há espaço para extrair mais dinheiro deles.

O Brasil ficará muito mais forte se trabalhar com a Rússia, China e Índia na construção de uma alternativa para o Banco Mundial e para o FMI. É preciso criar sua própria estratégia de desenvolvimento para ficar livre da estratégia neoliberal que falhou. Juntos, vocês podem criar uma alternativa e preservar suas riquezas em vez de deixar que seja explorada pelo Norte.

Como os Estados Unidos se posicionam frente a este movimento?

MH: Os EUA farão tudo que puderem para se opor a esta independência. Em 1962, conversei com o presidente Kubitschek depois que ele deixou a presidência. Ele foi à Nova York e explicou que havia sido tirado do poder pelos Estados Unidos. Os EUA não vão deixar nenhum país tomar conta de seus próprios recursos, assim como não deixaram nenhum país desenvolver a habilidade de se auto-sustentar. Por isso o Brasil deve ser completamente independente. Vimos o que os EUA fizeram no Irã. Quando o país quis gerir o próprio petróleo, os Estados Unidos puseram o xá no poder, apoiando o mais reacionário movimento islämico.

O mesmo se passou no Afeganistão: quando eles tentaram secularizar e dar poder às mulheres, os americanos criaram a Al-Qaeda e financiaram a organização e o islã fundamentalista durante a luta. Os EUA vão fazer tudo que puderem para combater o Brasil, assim como a Europa, porque eles querem a riqueza do país para eles.

E se o Brasil quiser ser independente, eles entenderão isso como um ataque! Se os países dizem que querem ser livres, eles dizem que isto é escravidão para uma ideia não-americana. Por isso é preciso se livrar dos ideais americanos de liberdade, porque o que eles afirmam ser liberdade, outros países chamam de sofrimento! O que eles estão fazendo é retroceder a economia e a sociedade para um padrão cultural que restabeleça tudo que o século XIX pensou ter se livrado.

Antes, a dominação de um país pelo outro era feita militarmente, hoje acontece pela economia. A conquista financeira é bem parecida com a militar: visa a tomar o território de outro país, neste caso criando uma dívida e fazendo com que ele pague juros. O controle da indústria de um país é o controle da oferta americana. Não por meio do pagamento de tributos, mas pelo pagamento de juros e dividendos em aluguel. A justificativa para isso? É assim que o mundo funciona. Acontece que o mundo não funciona assim e cabe ao Brasil e aos demais países do BRIC criarem uma alternativa e dizer: temos uma ideia diferente de como o mundo deveria funcionar. Não precisa ser dessa forma.

Como o Brasil pode ter maior participação nas decisões econômicas globais?

[bMH: Agindo em defesa de seus interesses. Você não precisa que outras pessoas aprovem o que está fazendo. Esta é a única maneira de se ter influência. O desafio é seguir seu próprio caminho e não tentar ser popular com os americanos, com o Banco Mundial ou com o FMI, mas dizer: nós temos recursos que podem tornar todos os brasileiros ricos, e vamos desenvolver pesquisas para os brasileiros, não para os banqueiros e investidores americanos ou europeus. Vamos trabalhar com outros paises para criar o tipo de mundo que os livros de economia dizem ser a favor: investimento no aumento do padrão de vida. Faremos isso do nosso modo.

Notem que os conselhos dados pelos EUA para os outros países não equivalem ao método adotado por eles para enriquecer. Os Estados Unidos prosperaram no século XIX através de terror protecionista, do investimento do governo em infraestrutura. Eles ficaram ricos e se tornaram a indústria dominante no mundo através da não-privatização de seus recursos, mas investindo em estrutura pública para diminuir os custos quando se trata de fazer negócios.

O Brasil deveria dizer que seu objetivo é diminuir os custos de fazer negócios para se livrar de despesas desnecessárias. E despesas desnecessárias são o que os economistas chamam de juros imobiliários e overheads. Os brasileiros podem abrir seu próprio caminho assim. Se um investidor estrangeiro decidir investir no Brasil, ele vai estabelecer um subsidiário financeiro, fará um empréstimo para si próprio, grande o suficiente para absorver todos os lucros e juros, e depois vai dizer que não tem nenhum lucro, então não tem de pagar nenhum tributo fiscal ao Brasil.

O país deveria tirar os juros de adaptabilidade, trocar as taxas de trabalho e de indústria por outras sobre uso da terra e pesquisa. O Brasil deveria ter taxas de pesquisa, como foi discutido na Austrália recentemente e como se pensou em fazer na Rússia no fim dos anos 90. As taxas de pesquisa são uma forma de manter o excedente de produção econômica do Brasil, em lugar da lei atual defendida pelos EUA e pelos liberais que determina que se dê permissão para as companhias privadas explorarem as suas riquezas. O Brasil está dando isso para os investidores estrangeiros, em vez de trazer investimentos para seu próprio país.

Neste contexto, o que representa a expressão Governança Global?

MH: A palavra governo vem do verbo impulsionar. Quer dizer, como a economia mundial vai ser impulsionada. Obviamente, tem sido impulsionada em duas direções diferentes. Os chineses têm um provérbio: quem tenta tomar dois caminhos de uma vez só vai ter um quadril quebrado. É preciso escolher qual rumo tomar e ter coragem de seguir seu caminho de desenvolvimento.

O que o Brasil pode aprender com isso?

Pode aprender como os EUA ficaram ricos no século XIX, depois da Guerra Civil e não como eles estão dizendo que vocês devem fazer agora. Estudando como a Inglaterra se tornou a sede da Revolução Industrial nos séculos XVII e XVIII, através do mercantilismo, do protecionismo e por se opor aos juros financeiros e imobiliários, se livrando dos vestigios do feudalismo. Assim como a batalha das economias clássicas na Europa de 800 anos, combatendo a conquista de suas terras por exércitos estrangeiros, por bancos estrangeiros cobrando juros!

Então o Brasil tem que se livrar do colonialismo. Um dos problemas foi o latifúndio e o problema de divisão de terras provocado por ele. Outro foi o fato de o Banco Mundial ter incentivado o Brasil a se tornar exportador, em vez de alimentar algumas pessoas. Assim como a Rússia, a China e a Índia estão se voltando mais para alimentar a própria população, o país deveria usar sua terra para plantar grãos e alimentar sua população em vez de importar os alimentos.

Para seguir seu próprio caminho você deve ser economicamente independente. Isso foi o que os EUA fizeram e pode-se dizer que os EUA são o único país no mundo que de fato defendeu seus interesses econômicos. Não há nada de errado nisso, há ônus e bonus, mas o que é bizarro é que os outros países não tenham tentando defender seus próprios interesses. Se isso ocorresse, haveria outros países em posição de atuar como iguais e o Brasil teria uma economia justa, que cresceria bem mais rápido.

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